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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Alerta vermelho.

O país está em alerta vermelho. Poucos o sabem. Eu garanto que está. E não tem nada a ver com o tempo. Ou melhor: tem, mas não com o meteorológico. A temperatura continuará amena, a chuva cairá aqui e ali, interrompendo o sol sem grande convicção. O motivo para o alerta vermelho é outro: estão praticamente esgotados os bilhetes para Retrato Falado, uma "peça" do João Fazenda que o Maria Matos acolherá a partir de amanhã e até dia 15. Trata-se, afinal, de uma questão de tempo, do chamado timing. Quem não sair agora a correr para a bilheteira, perde-se, desencontra-se no caminho que leva até ao Jorge (já vou dizer quem ele é). E trata-se também de tempo, deste que está agora mesmo por aqui a passar, que passa e passa e passa à medida que eu escrevo "passa e passa e passa", à medida que vou acrescentando palavras a este texto (notem: eu sou rápida, muito rápida, defendem os meus sobrinhos, que nunca viram ninguém escrever assim no computador, "és veloz, Tia", sou). Enquanto escrevo, enquanto o tempo "passa e passa e passa", há quem esteja a acrescentar fotografias ao álbum de família. A cristalizar o tempo, evitando — ilusoriamente, é certo, mas com teimosa persistência — que o tempo passe e passe e passe. A fixar o rosto, inalterado, na fotografia, revelada no álbum ou na moldura. Escreveu um dia o Manuel António Pina, num poema de que me lembrei ontem quando assisti a um ensaio de Retrato Falado

(...)
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
(...)


O nosso próprio rosto — que não é um só, o que autoriza a correcção: os nossos próprios rostos ajudam-nos a compor a história, a nossa história, sem a qual não haverá outra, muito menos a que grafamos com maiúscula. Ou haverá, mas alheia a nós. O que pode ser tão grave quanto nós lhe sermos alheia a ela.

Ora, o Jorge (ei-lo!), o narrador de Retrato Falado, protagonista do texto de Pedro da Silva Martins que o João Fazenda desenha enquanto o ouvimos, ao Jorge, contar a sua história (partes dela, momentos, os que ficaram nos "retratos nas molduras", nos álbuns), o Jorge está preso à memória na mesma medida em que está preso às molduras. Mas, estando, acima de tudo, preso à imaginação (ele precisa de criar fios capazes de ligar um retrato ao outro), o Jorge é necessariamente livre. 



Nisto tudo fui pensando ontem, quando assisti ao ensaio de Retrato Falado. Privilégios de uma fã ancestral que partilhou um livro com o João, o nosso As Coisas (ed. abysmo), que também tinha retratos nas molduras. Aqui, por exemplo:

AS COISAS PARTIDAS

E no entanto não existiam coisas partidas 
nem se avistavam cacos. 
Quando ela te chamava e dizia o teu nome 
ouvia-lo subitamente desprendido.
E tudo se ordenava. 
Nos copos havia whisky para as visitas, 
mazagran para as crianças, caídas aos tombos 
em cima dos sofás, ignorando futuros, esquemas, mapas 
e caminhos. Algumas nem sabiam o teu nome. 
Pouco importava. 
Nas casas onde as coisas em vez de ignoradas 
são coladas perduram fiéis os retratos nas molduras. 
Não fantasmas, visitas. A elas, servem-se bebidas 
em copos remendados.

O tom do whisky, antídoto da memória, 
disfarça os riscos de cola, as tentativas de regressar.



A partir de amanhã, o centro do palco é do João Fazenda. Dá para espreitar os desenhos, o modo como lhes acrescenta fios, traços (narrativas), as minúsculas figuras de papel que coloca debaixo da luz do projector, recortes, papéis, que, mal se deixam iluminar pela luz, ganham, na tela, uma dimensão próxima do real, não fosse a imaginação salvar-nos de novo dessa hipótese de queda na realidade e ampliar ainda mais as figuras, os rostos da família do Jorge, o seu próprio rosto. 




E o Jorge é rapaz para confundir um bigode com uma andorinha. Ou vice-versa. É claro que, neste momento, me lembrei do bigode d'O Senhor Pina, um bigode que voava e que o Álvaro Magalhães fixou no retrato — de palavras — que fez do Menino Manuel (António Pina).

E mais? Mais a música e todo o trabalho de Bruno Humberto, que dá voz, som, ao Jorge. Mais as máquinas inventadas pelo pai do Jorge. Mais os miúdos sentados em almofadas à nossa frente. Mais o termos ali mesmo, ao lado, o João. Esperem, isso já eu disse, mas isso é coisa muito valiosa. Não duvidem. Corram a comprar bilhete. E sorriam, que vos estão a tirar o retrato. PIM!


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Porto Sentido.

Há um poema da minha amiga Filipa Leal, uma das tias preferidas do M., que me leva a desejar ter passado a adolescência com ela no Porto. Foi (também) por isso que, depois de ler esse poema, "Porto Sentido", escrevi um outro em que surgem estes versos: "É difícil não termos sido amigas / na adolescência, mas eu nunca tive amigos / adolescentes, / mesmo os que diziam que eram / mentiam: tinham centenas de anos." 

PORTO SENTIDO

É difícil ter estado contente aos dezassete
ou aos vinte e sete.
É difícil ter bebido finos, ter comido tremoços
e, com cinquenta ou cem escudos, ter escolhido
a música na jukebox da Ribeira:
aquela canção do Rui Veloso no repeat,
os amigos cansados do meu lado obsessivo,
deste meu Lado A,
a senhora de avental sujo que dizia
“sai mais uma chouriça”, ou talvez nem o dissesse,
talvez não houvesse senhora de avental sujo,
talvez a memória tenha gente a mais.
Seja como for, é difícil que agora nenhum de nós lá esteja
a ouvir música e a assar chouriços.
Eu avisei.
Mas eles insistiram em mudar
de canção.

Filipa Leal
Porto, 22 de Abril, 2013
Inédito



Aos dezassete, julgo que, cumprindo as regras, os códigos que são impostos a quem conquista — a quem tem que conquistar — a impingida e suposta maturidade, eu não estava nem no Porto nem contente. Quem diria que aos trinta e cinco, muitos Portos depois (o das histórias da Avó, o dos casamentos dos primos, o dos passeios de fim-de-semana com a família, o do trabalho, o dos amigos conquistados depois de instalada, a muito custo, a maturidade), me aproximaria de tal modo da infância que estava no Porto e estava contente. Receio apenas esquecer — perder — um dia as palavras do Álvaro Magalhães e da Marta Madureira durante a apresentação d'A Palavra Perdida. FOI MUITO BONITA A FESTA, PIM!

. Na Livraria Papa-Livros, 20 de Setembro:















. Na Feira do Livro do Porto (autógrafos, exposições e Hora do Conto; 19, 20 e 21 de Setembro):






















. E as refeições no Café Convívio, ponto de encontro do Clube dos Amigos à Espera do Pina: