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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Paris dos pequenitos.

Mesmo à frente do nosso hotel, Le Citizen, fica a Artazart, uma bela livraria onde encontrei a versão francesa de O que há, livro da Isabel Minhós Martins e da Madalena Matoso (ed. Planeta Tangerina). Fiquei feliz. E orgulhosa. Lembrei-me imediatamente daquela história que conta o Eduardo Lourenço: parece que, quando os portugueses começaram a descobrir e conquistar o mundo, chegaram a um sítio longínquo e exótico e exclamaram "Muito bonito! Faz lembrar o Minho." Está-nos no sangue. Também eu, no meio de tantos livros desconhecidos, procurei o que me está mais próximo. E encontrei.

                      


                          

             

Parece-me que já sei por onde vou passar todas as manhãs. A caminho de lojas assim:

              

O Centre Commercial Kids é de perder a cabeça. 

              

             

                  

             


Bom foi também ter encontrado o Babar na rua, ali para os lados de Notre Dame. Fiquei tão nervosa que a fotografia até saiu desfocada. Mas, Babar, "we'll always have Paris". PIM!

                                                                      



segunda-feira, 12 de maio de 2014

Assim que o meu filho adormece.


Pouco me importa o que dizem os especialistas. Apesar de me sentir tranquila quando recebo, por exemplo, os boletins do Baby Center: sempre que o M. tem um comportamento novo que não consigo antecipar e para o qual não consigo ter resposta imediata, lá aparece um boletim a descrever exactamente o tal comportamento e a tranquilizar as minhas ligeiras angústias. Ligeiras apenas porque já criei os meus sobrinhos, já estive ali, naquele lugar. Contudo, com cada criança, voltamos ao início e, lembrando Eliot, é como se conhecêssemos esse lugar, como se o olhássemos, pela primeira vez. Os boletins chegam por mail todas as semanas. Recebi-os durante a gravidez e recebo-os agora, à medida que o M. vai crescendo. Hoje devo receber um que me vai dizer assim: Your 18-month-old: Week 1. O último que me enviaram foi este:





Dizia eu: pouco me importa o que dizem os especialistas. Aqui e ali e acolá e além abrem-se sempre bocas tão cheias de conselhos que quase se torna impossível distinguir-lhes a voz. Há excepções, claro: a minha mãe, a minha irmã, a minha prima, as minhas amigas e os meus amigos - as Ps., a C., a R., as Js.; o J., o JP, o G., o A., o B., o F., o D.... Enfim, são muitos. Tenho muita sorte. Cabia aqui, em duplicado, o abecedário inteiro. E há ainda os amigos poetas, que talvez não saibam o que fazer quando cai o cordão umbilical, mas sabem certamente encaminhar-me em direcção ao outro, ensinando-me a habitar o mundo, a fazê-lo morada, a resistir com o mundo às costas.
A minha amiga Filipa Leal (podem vê-la e ouvi-la aqui), que conheci primeiro como poeta, depois como jornalista e só então ficámos amigas, quando viu o M. pela primeira vez, comentou: "É o teu melhor poema. Será sempre." Ela sabe, claro. Uns dias depois disso, uma outra poeta portuguesa, bastante mais velha do que nós, disse-me que a experiência da maternidade nada tem que ver com a experiência de escrever poesia. Julgo - e julgo apenas, uma vez que não tenho certezas nem quanto à poesia, nem quanto à maternidade, em suma, quanto à criação - que não será bem assim. Precisamente por a poesia e o meu filho serem os mapas de que me sirvo para encontrar o caminho de casa, o caminho de regresso ao mundo. Talvez afinal tudo se resuma ao amor. E à verdade. Guardo estas palavras de Paul Celan bem junto ao coração, sei-as de cor, e espero um dia que o M. as compreenda:

Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Poemas são também oferendas – oferendas àqueles que são atentos. Oferendas que transportam um destino.”

Regresso ao início. Outra vez: pouco me importa o que dizem os especialistas. Pouco importa que me digam que o M. não está ainda preparado para ouvir determinadas palavras, que não tem ainda capacidade para apreender tudo o que lhe leio. Não é ainda o apreender que interessa; é antes a disponibilidade para tocar pela primeira vez aqueles sons. Por isso, partilho com o M., desde que ele nasceu, em voz alta, os poemas dos meus amigos. E dos outros poetas que não são meus amigos. Ou que não são meus amigos de carne e osso. São-no de outro modo.

Há um poema do Luís Quintais que lhe leio há uns meses. É provavelmente um dos que melhor e mais sabiamente sintetizam a experiência da maternidade/ paternidade e dos que permitem estabelecer a relação entre elas, maternidade e paternidade, e a poesia. Chama-se "O arqueiro". 

Assim que o meu filho adormece, 
vejo no seu corpo desenhada 
a figura do arqueiro após o disparo. 
Um braço retesado adiante, 
como se quisesse alcançar a flecha,
outro braço que se flecte próximo ao rosto, 
os dedos abertos soltando 
a corda que oscila pelo tempo fora. 
O simples desenho deste pequeno arqueiro 
traz-me o contentamento das coisas
que, nítidas, se revelam sem demora. 
A flecha atinge um adversário cheio de certezas, 
estilhaça o princípio do que merece 
ser soletrado devagar.

Assim que o meu filho adormece, 
aprendo o limite do durável, 
a impossível contemplação.










O meu arqueiro.

Passo muitas horas a vê-lo dormir, tentando a "impossível contemplação". Fotografei-o uma única vez a dormir - esta vez. Por causa do "limite do durável". Estávamos a passar o fim-de-semana nas Casas das Penhas Douradas (nas maravilhosas Casas das Penhas Douradas; só me apetece regressar...) e a luz do quarto, como o tempo, autorizava a fotografia sem lhe perturbar o sono. Curiosamente o M. usava um pijama que tem escrito nas costas: "I'll let you be in my dreams if I can be in yours". PIM!



Pijama Imps & Elfs comprado em Amesterdão.