Pouco me importa o que dizem os especialistas. Apesar de me sentir tranquila quando recebo, por exemplo, os boletins do Baby Center: sempre que o M. tem um comportamento novo que não consigo antecipar e para o qual não consigo ter resposta imediata, lá aparece um boletim a descrever exactamente o tal comportamento e a tranquilizar as minhas ligeiras angústias. Ligeiras apenas porque já criei os meus sobrinhos, já estive ali, naquele lugar. Contudo, com cada criança, voltamos ao início e, lembrando Eliot, é como se conhecêssemos esse lugar, como se o olhássemos, pela primeira vez. Os boletins chegam por mail todas as semanas. Recebi-os durante a gravidez e recebo-os agora, à medida que o M. vai crescendo. Hoje devo receber um que me vai dizer assim: Your 18-month-old: Week 1. O último que me enviaram foi este:

Dizia
eu: pouco me importa o que dizem os especialistas. Aqui e ali e acolá
e além abrem-se sempre bocas tão cheias de conselhos que quase se
torna impossível distinguir-lhes a voz. Há excepções, claro: a
minha mãe, a minha irmã, a minha prima, as minhas amigas e os meus
amigos - as Ps., a C., a R., as Js.; o J., o JP, o G., o A., o B., o
F., o D.... Enfim, são muitos. Tenho muita sorte. Cabia aqui, em
duplicado, o abecedário inteiro. E há ainda os amigos poetas, que
talvez não saibam o que fazer quando cai o cordão umbilical, mas
sabem certamente encaminhar-me em direcção ao outro, ensinando-me a
habitar o mundo, a fazê-lo morada, a resistir com o mundo às
costas.
A
minha amiga Filipa Leal (podem vê-la e ouvi-la aqui),
que conheci primeiro como poeta, depois como jornalista e só então
ficámos amigas, quando viu o M. pela primeira vez, comentou: "É
o teu melhor poema. Será sempre." Ela sabe, claro. Uns dias
depois disso, uma outra poeta portuguesa, bastante mais velha do que
nós, disse-me que a experiência da maternidade nada tem que ver com
a experiência de escrever poesia. Julgo - e julgo apenas, uma vez
que não tenho certezas nem quanto à poesia, nem quanto à
maternidade, em suma, quanto à criação - que não será bem assim.
Precisamente por a poesia e o meu filho serem os mapas de que me
sirvo para encontrar o caminho de casa, o caminho de regresso ao
mundo. Talvez afinal tudo se resuma ao amor. E à verdade. Guardo
estas palavras de Paul Celan bem
junto ao coração, sei-as de cor,
e espero um dia que o M. as compreenda:
“Só
mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Poemas são também
oferendas – oferendas àqueles que são atentos. Oferendas que
transportam um destino.”
Regresso
ao início. Outra vez: pouco me importa o que dizem os especialistas.
Pouco importa que me digam que o M. não está ainda preparado para
ouvir determinadas palavras, que não tem ainda capacidade para
apreender tudo o que lhe leio. Não é ainda o apreender que
interessa; é antes a disponibilidade para tocar pela primeira vez
aqueles sons. Por isso, partilho com o M., desde que ele nasceu, em
voz alta, os poemas dos meus amigos. E dos outros poetas que não são
meus amigos. Ou que não são meus amigos de carne e osso. São-no
de outro modo.
Há
um poema do Luís Quintais que
lhe leio há uns meses. É provavelmente um dos que melhor e mais
sabiamente sintetizam a experiência da maternidade/ paternidade e
dos que permitem estabelecer a relação entre elas, maternidade e
paternidade, e a poesia. Chama-se "O arqueiro".
Assim
que o meu filho adormece,
vejo no seu corpo desenhada
a figura do
arqueiro após o disparo.
Um braço retesado adiante,
como se
quisesse alcançar a flecha,
outro
braço que se flecte próximo ao rosto,
os dedos abertos soltando
a
corda que oscila pelo tempo fora.
O simples desenho deste pequeno
arqueiro
traz-me o contentamento das coisas
que,
nítidas, se revelam sem demora.
A flecha atinge um adversário cheio
de certezas,
estilhaça o princípio do que merece
ser soletrado
devagar.
Assim
que o meu filho adormece,
aprendo o limite do durável,
a impossível
contemplação.
O meu arqueiro.
Passo muitas horas a vê-lo dormir, tentando a "impossível contemplação". Fotografei-o uma única vez a dormir - esta vez. Por causa do "limite do durável". Estávamos a passar o fim-de-semana nas Casas das Penhas Douradas (nas maravilhosas Casas das Penhas Douradas; só me apetece regressar...) e a luz do quarto, como o tempo, autorizava a fotografia sem lhe perturbar o sono. Curiosamente o M. usava um pijama que tem escrito nas costas: "I'll let you be in my dreams if I can be in yours". PIM!