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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Regressar a casa.

Há uma história muito bonita que o Manuel António Pina gostava de contar, ele que preferia regressar a partir; ele que repetia histórias como quem regressa a casa. Contou-ma pela última vez no Verão de 2011, durante a conversa que integra o livro Regressar a Casa com Manuel António Pina (ed. Abysmo), do qual faz parte a curta-metragem As Casas Não Morrem, realizada pelo Pedro (Macedo). 
Disse-me, então, o Pina: "(...) o regresso a casa concreto, de uma viagem concreta, de um tempo concreto e de circunstâncias concretas, acaba por ter as formas que, em diferentes textos – penso eu, que também reflicto sobre isso –, assumem esses sentimentos, o que é explicável talvez em termos ensaísticos ou lógicos ou psicológicos... Sei lá... Ou psicanalíticos ou o diabo que os carregue... São formas, só formas para o regresso concreto: chegar de avião a casa, começar a circular de avião aqui pelo Porto, aproximarmo-nos do aeroporto... Ainda por cima, os aviões passam aqui por cima da minha casa, desta casa, para aterrarem no aeroporto em Pedras Rubras. Vemos a casa lá em baixo, depois chegamos, entramos em casa e vemos os móveis, os animais reconhecem-nos, até os próprios móveis nos reconhecem... São formas de dizer a mesma coisa, formas que assume o regresso, em cada poema concreto ou em cada texto concreto, mesmo nas crónicas. No fundo, o que se quer dizer é: «Não te afastes de mais de ti». Só até usares metade das tuas forças para depois teres metade para regressar. E nunca te afastes assim tanto que deixes de ver a cor do teu telhado. Há um poema assim..."

Eis o poema (sublinho os versos que retomam esta história):

[A CERIMÓNIA]

Não separarás, disse ele
com a mão sobre a minha cabeça,
o que foi unido
pela dor e pelo dinheiro.

Não cometerás adultério,
nem voltarás
pelo mesmo caminho
quando regressares.

Não te afastarás mais
do que te permitirem
a metade das tuas forças
e a cor, ao longe, do teu telhado.

À tua mesa se sentarão
os aduladores e os caluniadores
sem que os inquietes
com a tua reprovação.

E pagarás com o trigo
do teu celeiro
aos teus assassinos
e dos teus filhos,
e os abrigarás
se forem perseguidos
disse ele com uma mão sobre a minha boca
e outra sobre os meus ouvidos.


Dei-me conta, há uns dias, de que me andava a afastar de mais de mim. E de que, nessa viagem de afastamento, usei mais de metade das minhas forças. E de que deixei de ver a cor do meu telhado. Porém, guardo na memória essa cor e julgo que as forças que me restam me vão permitir refazer o mapa. Enquanto o estiver a desenhar, recuperarei as forças. E depois bastará pôr-me a caminho. Mesmo que seja outro o caminho. Por agora, regresso a esta casa, a este blogue. Não a pedido de várias famílias, como se costuma dizer, mas a pedido da minha única família, a que inclui os amigos com quem estive há uns dias e que abriram alguns dos trilhos do caminho que conduz à minha casa.

Foi no baptizado da Mat. que me dei conta de que a minha família lia mesmo este blogue. Anotei as reclamações sobre a minha ausência e sobre a minha fraca assiduidade e cá estou eu outra vez, inspirada pelas minhas novas funções. E velhas: a Mat. é a minha quinta afilhada. A primeira foi a I., que já anda na Faculdade; a segunda foi a M., que já anda no Liceu; o terceiro foi o F., que já é maior que eu e — pior — já é adolescente; o quarto foi o J., que já anda na Primária; e a quinta foi, então, a Mat., a completar, com as suas bochechas e o seu espanto, uma mão e um coração cheio de afilhados. Há gente com sorte. (Agora, entraria aqui bem um PIM!)

O baptizado da Mat. foi lindo. Comemos tantos doces que, se nós passámos a noite com dores de barriga, a nossa roupa passou a noite com nódoas de todos os tamanhos e de todas as cores. Há tarefas que têm que ser cumpridas com zelo. Como comer chocolates, bolo e macarons.



Macarons e flores nos centros de mesas (ideia de uma das avós da Mat.). 
O M. ansioso por sair de casa (camisa Zara; calções Burberry; sapatos Paez).


A Mat. tinha um vestido Chloé maravilhoso e umas sabrinas Marie-Chantal
que o Tio M. trouxe de Londres. (Aqui não se vêem, o que é uma pena, 
porque eram lindas, lindas.) 


Há quem deteste casamentos e baptizados. Mais do que funerais. Não é o meu caso, como é evidente. Desde que sejam casamentos e baptizados dos meus: da minha família, dos meus amigos. Gosto tanto que, neste caso, e só neste caso, até votaria na coligação: casamento + baptizado (casamento mais baptizado, com a presença de todos os líderes em todos os debates e momentos). Perguntam-me: "Mas o que fazes tu nos casamentos e nos baptizados para além de ficar sentada na mesa a bebericar vinho tinto, vinho branco, champagne, digestivos, etc, etc?!" E eu, que até agora demorava demasiado tempo a justificar-me, vou passar a responder, citando um livro maravilhoso que comprei há dias: "Nada de nada. E está-se bem assim." 




O tempo do gigante (ed. Orfeu Mini), de Carmen Chica e Manuel Marsol, vai ser apresentado este sábado, dia 3, às 16h, na Ler Devagar, em Lisboa. É um belíssimo e comovente livro sobre a passagem do tempo, o sonho e essa majestosa e tão inútil prática do não-fazer-nada-e-assim-é-que-se-está-bem, prática de que tendemos a esquecer-nos conforme vamos crescendo. E isso, meus caros, é como perder o caminho de regresso a casa. PIM!

sábado, 11 de abril de 2015

O azul para os sonhos desfeitos.


Há um poema do Manuel António Pina, "Como se desenha uma casa", no qual, mais ou menos a meio, se escreve: "no papel de parede, agitam-se as recordações". É o verso de que me lembro imediatamente quando abro o livro Eu Acredito, com texto do David Machado e desenhos do Alex Gozblau (ed. Alfaguara).




Por ser aqui recorrente um papel de parede; melhor: um papel de parede e um tom — na capa, nas guardas, nas ilustrações. Tão presentes quanto o menino ruivo e o seu gato preto. Presentes ou ausentes: há aqui um jogo que, se nos remete de imediato para o futuro através do modo como se explora tematicamente o título ou o mote do livro, segue também algumas "regras" do passado, isto é, do que dele a memória pode preservar. Isso consegue-se sobretudo pelo modo como o Alex desenhou este Eu Acredito: repare-se na roupa do menino, na mobília do quarto dele, no candeeiro de rua e nas casas, no livro sobre o universo que o menino fita a páginas tantas, nos quadros e nas molduras penduradas nas paredes... Olho-os e revisito coisas que já não existem e que melancolicamente gostava que continuassem a existir. 




E nada me convence de que este gato, a figura que mais intrigou o meu filho, não é o símbolo máximo dessa ausência. Daquilo que tende a apagar-se. Por muito que acreditemos (ou queiramos acreditar) no infinito. Por muito que, como na infância, o multipliquemos por mil ("infinitos mil": quem não se lembra de acreditar nisso?...).




Ora, o menino ruivo é, com efeito, um menino. Não um infans (ele já tem algumas palavras nos bolsos...), mas um menino no centro do lugar infinito e sem fronteiras (geográficas e temporais) que pode ser a infância. Ao longo do livro, vai enumerando aquilo em que acredita, aquilo com que, suspeito, desenvolveu, antes da crença, uma relação de espanto: ele acredita, por exemplo, que se sonha ininterruptamente e acredita que se pode mergulhar na palavra água (e eu aqui mergulhei no jogo intertextual com O Limpa-Palavras, do Álvaro Magalhães: "Limpo palavras. / (...) Trato delas durante o dia / enquanto sonho acordado. / A palavra solidão faz-me companhia.") 




E acredita que as árvores se espreguiçam quando ninguém está a ver ou que a sua voz só deixará de se ouvir muito tempo depois de morrer. E acredita que os fantasmas também acreditam que ele é um fantasma. E acredita que os carneiros, para adormecer, contam pessoas. E acredita, e acredita. Em tempos de rasura da fé, de queda em desuso da fé, e/ou da sua instrumentalização, é bom que exista quem regresse ao lugar onde tudo pode recomeçar, coincidir, repetindo, como numa oração, aquilo em que, mais do que realmente acreditar, se deseja acreditar. E continuar a acreditar. Essa persistência é o exercício de fé deste livro, que, sublinho, incessantemente repetindo, reforça, mas também altera. Como um eco. Confesso que tenho um fraco por livros de estrutura repetitiva (um dia, apresentarei a minha "malabarista que chorava nos lançamentos" e que é também tempo passado e futuro) por detectar neles uma espécie de amplificação dos sentidos e do modo como nos autorizam a fitar o mundo, distorcendo-o ("Eu acredito que, num dia de muita chuva, os peixes podem nadar até às nuvens", p. 24).



Ampliam os sentidos também — e melhor — os desenhos do Alex Gozblau. Há uns meses, perguntaram-me como se processa e partilha a criação de um álbum ilustrado. Respondi que, para além de me parecer fundamental que ambos os autores, o do texto e o dos desenhos, se movam no território da imaginação, poucas coisas são tão boas quanto entregarmos as nossas palavras a alguém e recebê-las de volta mais ricas, mais cheias de sentidos. Como se fossem elásticas e infinitas. É neste ponto que, olhando para este volume, me ocorre outro verso do Pina: "o azul para os sonhos desfeitos". É o azul (a minha memória não larga o Pina, bem sei, mas está lá tudo: "O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás") e a expressão do menino que lançam este livro para a intrigante zona do mistério, do enigma. Na infância, acreditamos, sim, mas somos também obcecados pelo "porquê?". Espantamo-nos porque tudo é uma primeira vez, e logo a seguir aproximamo-nos e questionamos o espanto. Se há privilégio da infância, é esse: o da eterna suspeita, o do tempo que podemos dedicar à dúvida.



Diante do azul (que nunca tocarei) e da expressão do menino (que me devolve a que, em tempos, espero também ter sido a minha diante das coisas do mundo), eu acredito, por exemplo, que este menino acredita que a palavra Universo tem letras escondidas, que ele suspeita disso e que insiste nessa suspeita (há quantas horas estará ele a fitar aquele livro antigo?). E é também diante deles, do azul e do menino, que me lembro de que, quando tinha 9, 10 anos, uma das minhas melhores amigas era de papel. Ainda hoje passo belos serões com a Mafalda. Este menino ruivo acredita, mas desconfia. Por isso, de agora em diante, pode muito bem tornar-se um dos meus amigos de papel. Acreditem. PIM!


Eu Acredito é apresentado hoje, às 16h, na Casa Independente. (Mais informações aqui.)

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Dia Internacional do Livro Infantil.

Saber fingir que se sabe ler também é uma forma de celebrar.




E, por momentos, a casa fica silenciosa. PIM!

sábado, 7 de fevereiro de 2015

É então isto para crianças? — Parte VII: estou bastante apaixonada pelo Cali e pelo Bloch.

Confessa-me um amigo que os homens envelhecem com vergonha dos sentimentos. Será certamente por ser mulher e será talvez por ser ainda muito jovem (oh, quem me dera...), mas a verdade é que não tenho vergonha nenhuma de confessar os meus sentimentos. Muito menos as minhas paixões (os ódios confesso a menos gente, tentando ser fiel àquilo para que me alertava o meu Avô: "O ódio que sentimos só nos faz mal a nós mesmos e raramente atinge aqueles que odiamos.").

Ora, neste momento, e há já alguns anos, estou muito apaixonada pelo trabalho do Davide Cali e do Serge Bloch. Convidei-os para fazerem as conferências de abertura e de encerramento do colóquio "É então isto para crianças?" (segunda e terça, na Gulbenkian; está quase!...). O que significa que os últimos dias, apesar dos 39º de febre do M., têm sido felizes. Porque têm sido passados assim:



Estes são os livros destes dois senhores que eu tenho espalhados pela casa. O M. tenta roubá-los ao meu olhar e anda muito encantado com o homem da capa de L'Ennemi (livro de 2007 que não percebo como não está ainda publicado em Portugal...) e com a rainha das rãs (A Rainha das Rãs Não Pode Molhar os Pés, de Davide Cali e Marco Somà, ed. Bruáa). Eu pergunto-lhe "Já leste a rainha das rãs à Avó?" e ele responde "Não pode molhar os pés! Não, não.".

Mas regressando ao colóquio: "É então isto um livro?" é o título da primeira mesa, na qual participará Davide Cali (segunda, 10h30-13h; participam ainda a Catarina Sobral, o Francisco Vaz da Silva e o João Fazenda, moderados pela Carla Maia de Almeida). Antes disso, Cali fará com Serge Bloch a conferência de abertura (segunda, 10h) e, na terça-feira, a conferência de encerramento (16h45-17h15). O desafio que lhes foi lançado de serem responsáveis pelas duas conferências tem a ver com a partilha, um dos motes do colóquio. Por um lado, parece-me fundamental que se compreenda o percurso individual e os modos de criar de um ilustrador que é também autor de alguns dos textos dos seus livros e que aparentemente usa a simplicidade como ferramenta. La Grande Histoire d'un Petit Trait, de Bloch, ainda não publicado em Portugal, constitui um bom exemplo: conta a história de um menino que encontra um traço encarnado e com ele descobre o mundo, desenha-o; com ele e com a sua imaginação. Comovente, generosa — digo eu, que não tenho vergonha dos meus sentimentos — e certamente autobiográfica, esta homenagem aos mestres de Bloch, para além de reveladora daquilo que sustentava Borges: nós somos os livros que lemos. 




Fundamental também me parece seguir o percurso individual e os modos de criar de Cali, escritor que tem trabalhado com dezenas de ilustradores: há o belo Um Dia, um Guarda-Chuva, com Valerio Vidali, vencedor da Ilustrarte em 2012 e publicado em Portugal pelo Planeta Tangerina; há o inesperado e elegíaco Arturo, com Ninamasina, uma edição da Bruáa; há o já referido A Rainha das Rãs Não Pode Molhar os Pés, com Marco Somà, outra edição da Bruáa; há o divertido Não Fiz os Trabalhos de Casa Porque..., com o mui talentoso Benjamin Chaud, publicado há dias pela Orfeu Negro... Mas o meu preferido é, sem dúvida, o álbum 10 Little Insects, com Vincent Pianina, ainda não traduzido para português. Eis uma BD capaz de recuperar do abismo as mentes mais deprimidas. Ri-me a bom rir enquanto o lia. E reli-o. Não há melhor guia para entrar no mecanismo que Cali esconde dentro da cabeça e onde imaginação e criatividade se misturam, também sem pudor, como se fossem de facto os sentimentos de uma donzela em amorosos apuros, com uma loucura muito peculiar, capaz de combinar as mais improváveis citações (memória, meus amigos, memória, nada somos senão isso...) com um humor que, se dispensa ser fino, é apenas para nos "comer" melhor a atenção e o riso. Isto é uma fórmula explosiva: Agatha Christie meets David Fincher meets Monty Python. Com umas regras de Cluedo pelo meio. Mais eficaz do que qualquer antidepressivo.




Olhando de novo para a pilha de livros, noto, contudo, que estou a mentir. Devo confessar que os meus preferidos são, na verdade, os que Cali fez com Bloch. Já disse que estou muito apaixonada pelo trabalhos destes rapazes, não disse? Se o repito, é por ser verdade. Até porque considero que os livros que partilharam permitem desfazer um equívoco grave e antigo quando o assunto diz respeito a álbuns ilustrados para a infância: ainda hoje (hoje, 2015, notem bem) se chama autor apenas ao escritor, como se o ilustrador fosse um autor de segunda e não tivesse tanta responsabilidade no resultado final quanto o escritor. É um equívoco que, de uma vez por todas, me parece importante ultrapassar e espero que, ouvindo estes dois criadores na conferência de abertura do colóquio, se compreenda o que está aqui em causa, se compreenda que está em causa uma partilha, uma ampliação de sentidos. Mesmo quando  feita à distância. 




Por isso mesmo, na conferência de encerramento, Cali e Bloch vão centrar-se nestes dois livros: os muito poéticos Eu Espero..., editado entre nós pela Bruáa, e L'Ennemi, ainda não publicado em Portugal, repito (quem, se eu gritar entre a legião dos editores, me ouvirá?...). Ambos os livros revelam a dimensão humanista do trabalho de Cali e Bloch, o modo como conseguem abordar qualquer tema de uma perspectiva aparentemente simples, acumulando níveis de leitura. Dispensam, para além disso, moralismos, sem nunca dispensarem a imaginação, o que demonstra que estes dois trabalham, de facto, para todas as infâncias. E é por isso que estou tão apaixonada pelo trabalho deles. Já o tinha dito? Já? PIM!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Alerta vermelho.

O país está em alerta vermelho. Poucos o sabem. Eu garanto que está. E não tem nada a ver com o tempo. Ou melhor: tem, mas não com o meteorológico. A temperatura continuará amena, a chuva cairá aqui e ali, interrompendo o sol sem grande convicção. O motivo para o alerta vermelho é outro: estão praticamente esgotados os bilhetes para Retrato Falado, uma "peça" do João Fazenda que o Maria Matos acolherá a partir de amanhã e até dia 15. Trata-se, afinal, de uma questão de tempo, do chamado timing. Quem não sair agora a correr para a bilheteira, perde-se, desencontra-se no caminho que leva até ao Jorge (já vou dizer quem ele é). E trata-se também de tempo, deste que está agora mesmo por aqui a passar, que passa e passa e passa à medida que eu escrevo "passa e passa e passa", à medida que vou acrescentando palavras a este texto (notem: eu sou rápida, muito rápida, defendem os meus sobrinhos, que nunca viram ninguém escrever assim no computador, "és veloz, Tia", sou). Enquanto escrevo, enquanto o tempo "passa e passa e passa", há quem esteja a acrescentar fotografias ao álbum de família. A cristalizar o tempo, evitando — ilusoriamente, é certo, mas com teimosa persistência — que o tempo passe e passe e passe. A fixar o rosto, inalterado, na fotografia, revelada no álbum ou na moldura. Escreveu um dia o Manuel António Pina, num poema de que me lembrei ontem quando assisti a um ensaio de Retrato Falado

(...)
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
(...)


O nosso próprio rosto — que não é um só, o que autoriza a correcção: os nossos próprios rostos ajudam-nos a compor a história, a nossa história, sem a qual não haverá outra, muito menos a que grafamos com maiúscula. Ou haverá, mas alheia a nós. O que pode ser tão grave quanto nós lhe sermos alheia a ela.

Ora, o Jorge (ei-lo!), o narrador de Retrato Falado, protagonista do texto de Pedro da Silva Martins que o João Fazenda desenha enquanto o ouvimos, ao Jorge, contar a sua história (partes dela, momentos, os que ficaram nos "retratos nas molduras", nos álbuns), o Jorge está preso à memória na mesma medida em que está preso às molduras. Mas, estando, acima de tudo, preso à imaginação (ele precisa de criar fios capazes de ligar um retrato ao outro), o Jorge é necessariamente livre. 



Nisto tudo fui pensando ontem, quando assisti ao ensaio de Retrato Falado. Privilégios de uma fã ancestral que partilhou um livro com o João, o nosso As Coisas (ed. abysmo), que também tinha retratos nas molduras. Aqui, por exemplo:

AS COISAS PARTIDAS

E no entanto não existiam coisas partidas 
nem se avistavam cacos. 
Quando ela te chamava e dizia o teu nome 
ouvia-lo subitamente desprendido.
E tudo se ordenava. 
Nos copos havia whisky para as visitas, 
mazagran para as crianças, caídas aos tombos 
em cima dos sofás, ignorando futuros, esquemas, mapas 
e caminhos. Algumas nem sabiam o teu nome. 
Pouco importava. 
Nas casas onde as coisas em vez de ignoradas 
são coladas perduram fiéis os retratos nas molduras. 
Não fantasmas, visitas. A elas, servem-se bebidas 
em copos remendados.

O tom do whisky, antídoto da memória, 
disfarça os riscos de cola, as tentativas de regressar.



A partir de amanhã, o centro do palco é do João Fazenda. Dá para espreitar os desenhos, o modo como lhes acrescenta fios, traços (narrativas), as minúsculas figuras de papel que coloca debaixo da luz do projector, recortes, papéis, que, mal se deixam iluminar pela luz, ganham, na tela, uma dimensão próxima do real, não fosse a imaginação salvar-nos de novo dessa hipótese de queda na realidade e ampliar ainda mais as figuras, os rostos da família do Jorge, o seu próprio rosto. 




E o Jorge é rapaz para confundir um bigode com uma andorinha. Ou vice-versa. É claro que, neste momento, me lembrei do bigode d'O Senhor Pina, um bigode que voava e que o Álvaro Magalhães fixou no retrato — de palavras — que fez do Menino Manuel (António Pina).

E mais? Mais a música e todo o trabalho de Bruno Humberto, que dá voz, som, ao Jorge. Mais as máquinas inventadas pelo pai do Jorge. Mais os miúdos sentados em almofadas à nossa frente. Mais o termos ali mesmo, ao lado, o João. Esperem, isso já eu disse, mas isso é coisa muito valiosa. Não duvidem. Corram a comprar bilhete. E sorriam, que vos estão a tirar o retrato. PIM!


quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Grandes histórias, mínimas coisas.

Se estou em casa sozinha com o M. e o vejo entretido com brinquedos e livros, aproveito para ligar o computador e responder a mails. Passam-se uns minutos, separo os olhos do ecrã e à minha volta o cenário é o de uma intempérie doméstica. As mais pequenas coisas deixaram-se transferir, impotentes, para os sítios mais improváveis. Aconteceu ontem. Uma pastilha — que ele jura, na sua linguagem miscigenada e pouco fiável, ter encontrado em cima do portátil do P. (como? o que fazia uma pastilha fora da caixa em cima de um computador?...) — a entrar-lhe para a boca e a sair-lhe da boca em segundos. 

- Mãe, qui é ito?! Blergh!

E cospe a pastilha já trincada para cima de mim.



Enquanto apanhava a pastilha e a punha a jeito para a fotografar (o P. tinha que ver a nova conquista), ia fazendo perguntas e dando conselhos. Levanto de novo a cabeça e já ele estava a trincar um pequeno íman que segurava uma fotografia, a abrir a gaveta dos individuais e dos guardanapos, a espalhar tudo pela casa. Estava feliz. Até que a agitação lhe valeu um corte no queixo. Não terá aprendido a lição. Nem eu, que me desdobrava em beijos e conselhos: beijos úteis e conselhos inúteis. Costuma ser ao contrário, no mundo ordenado dos adultos.

Saí passado pouco tempo para jantar em casa de uma amiga. Desci ao Rato a olhar para o chão, coberto de coisas mínimas. Se tivesse dois anos, teria trazido algumas para casa. Coisas mínimas que seriam boas companhias — para a imaginação e para a solidão. Sim: a solidão. Não me venham dizer que a infância não é solitária. Mesmo quando feliz. Uma solidão ágil e segura. Que abre caminho e espaço às coisas mínimas. E às grandes histórias.

Imagem retirada daqui.


Hoje, uma das primeiras coisas (mínimas) que encontrei quando liguei o computador foi a grande e recente história do Serge Bloch. Partilhou-a na sua página do Facebook: podemos espreitar a capa e algumas páginas. La grande histoire d'un petit trait. Talvez o Serge Bloch tenha um M. em casa. Ou talvez tenha mantido intacto o M. que um dia foi. Oh, les petits riens... Que mais importa? PIM! 

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Querer muito # O meu avô. Anos mais tarde.

Talvez já tenha partilhado aqui histórias do meu Avô, talvez já tenha mostrado aqui imagens nossas, talvez já tenha dito aqui que o papel mais precioso que guardo é um minúsculo autógrafo em que ele escreveu, na sua letra tão firme quanto trémula, tão "o que em mim sente está pensando", 

Minha neta Inês, sol da minha vida.



Anos mais tarde, quando o meu Avô morreu, desaprendi uma centena de coisas. Entre elas, contar histórias. Recuperei aos poucos. Questionando sempre: "Com que palavras? E sem que palavras?". 

Anos mais tarde, encontrei um poeta cuja obra se deixava habitar por versos que diziam qualquer coisa parecida com isto, da mesma substância: "Só me faltavas tu para me faltar tudo, / as palavras e o silêncio, sobretudo este."

Anos mais tarde — é sempre anos mais tarde, se repararem, até quando são apenas dias — reaprendi a contar histórias. Nenhuma delas sem o meu Avô. Sobretudo as que não falam dele. Há outras mais claras, como esta que escrevi no seguimento de um programa de rádio que tive, "A História Devida". Pediram-me a minha "história devida". Que é esta:

Come chocolates, pequena

«Come chocolates, pequena» é uma das frases da minha vida. Talvez por ter sido uma das que mais ouvi em criança. Não sabia de onde vinha; ou melhor, sabia o que então fazia sentido saber: vinha do meu avô Zeca, e isso bastava para que a frase soasse bem. Era ele quem a repetia vezes sem conta, tantas quantas aquelas em que me levava pela mão até ao corredor dos chocolates do supermercado da D. Lizete, e juntos ficávamos horas (horas, de facto) a olhar as prateleiras, perdidos entre sombrinhas e losangos Regina, enquanto ele dizia, quase em surdina, como se fosse uma oração, «Come chocolates, pequena».
E eu comia chocolates. Passava os dias a comer chocolates. Quilos de chocolates; de manhã, à tarde, à noite; antes, durante, depois, em vez das refeições. A minha avó revoltava-se; os meus pais não. Apenas porque não imaginavam o que se passava. Não suspeitavam. Nem de nós, nem do pequeno crime em que éramos cúmplices, honrando um princípio que o meu avô repetia em nossa mais que legítima defesa: «Deixem a pequena comer chocolates; mais vale comer chocolates do que não comer nada». E, no entanto, as provas eram irrefutáveis: uma mochila Palmers acabada de chegar de um passeio de Verão com uma grande mancha castanha denunciava a presença abusiva de chocolates na bolsa exterior; as dores de barriga matinais denunciavam que, mais do que odiar o infantário, tinha ocorrido na véspera um consumo manifestamente desequilibrado de chocolate; a antipatia para com os que partilhavam os nossos espaços (Fiat 600, quarto dos brinquedos, cadeirão, despensa) denunciava o receio de que alguém ousasse pedir um dos nossos chocolates.
Até que chegou o dia (mesmo que não tenha tudo acontecido no mesmo dia, sempre me pareceu assim). Chegou o dia em que o meu avô morreu, eu fiquei alérgica a chocolate e comecei a procurar poemas para ler. É certo que o meu avô já me lia poesia, sobretudo Miguel Torga, os volumes do Diário; puxava-me para o colo, acendia um cigarro, eu tirava a prata ao chocolate, ele lia versos soltos. Ali ficávamos entre os nossos vícios, cometendo um crime que era só nosso e que reduz a minha infância ao essencial.
Naquele dia, com a morte, a alergia e a necessidade de procurar poemas, fui expulsa da infância. Descobri um livro da Ática, Poesias de Álvaro de Campos, e fui lendo. «Come chocolates, pequena». Lá estava a frase. E, apesar de nunca mais ter sido a pequena que comia chocolates, percebi então que não só não havia mais metafísica no mundo senão chocolates, como também que não havia mais cúmplices na minha vida senão o avô Zeca.

Anos mais tarde, o P. ofereceu-me chocolates (Regina) e uma pulseira de prata na qual mandara gravar "Come chocolates, pequena". O P. não pronunciou a frase, mandou gravá-la, cumprindo o silêncio. "(...) o silêncio, sobretudo este."



Anos mais tarde, chegou às livrarias um livro da Catarina Sobral titulado "O Meu Avô" (ed. Orfeu Negro). Saí à rua. Queria trazê-lo para casa. E confirmar se aquele Avô podia ser o meu. Podia:



Anos mais tarde, pensei oferecer ao M. este presente de anos (dois anos, em breve), para ele crescer fitando o modo como eu cresci, fitando o lugar onde eu cresci:

Imagem retirada daqui.

Anos mais tarde, passei o testemunho:



É de uma enorme responsabilidade ser o sol de alguém. PIM!

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Notícias de alguns bloqueios.

Estamos de partida para o Fundão. Vou levar o M. e o P. comigo para a primeira edição do Festival Literário da Gardunha. Mas deixo aqui dois caminhos para se chegar ao fim-de-semana perfeito:

1. Descobri ontem que o volume Toda a Mafalda vai ser reeditado: a Mafalda é que faz anos, 50, e ela é que nos dá um presente. A notícia está aqui e a capa é esta:


Vou comprar para o M.: eu tenho a minha edição, do meu tempo; ele terá a dele, do tempo dele. E comprarei também para o F. e o A., que andam a folhear o meu exemplar, já tão velhinho.

Às vezes, passo-lhes os volumes individuais. O M. está neste momento com a Mafalda 3 nas mãos.


T-shirt Zippy. Calças de algodão Zara (aqui). 
Pantufas Sho Shoos.


2. Descobri hoje informações sobre o único livro infanto-juvenil de William Faulkner, The Wishing Tree. O artigo, do — não me canso de repetir — irrepreensível Brain Pickings, está aqui. Que o (meu) Pai Natal o leia. E siga os links até aqui (até aqui parece-me demasiado longe...). 

Por agora, vou fazer-me à estrada. Com estas palavras nos bolsos. PIM!

Imagem retirada do Brain Pickings.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Porto Sentido.

Há um poema da minha amiga Filipa Leal, uma das tias preferidas do M., que me leva a desejar ter passado a adolescência com ela no Porto. Foi (também) por isso que, depois de ler esse poema, "Porto Sentido", escrevi um outro em que surgem estes versos: "É difícil não termos sido amigas / na adolescência, mas eu nunca tive amigos / adolescentes, / mesmo os que diziam que eram / mentiam: tinham centenas de anos." 

PORTO SENTIDO

É difícil ter estado contente aos dezassete
ou aos vinte e sete.
É difícil ter bebido finos, ter comido tremoços
e, com cinquenta ou cem escudos, ter escolhido
a música na jukebox da Ribeira:
aquela canção do Rui Veloso no repeat,
os amigos cansados do meu lado obsessivo,
deste meu Lado A,
a senhora de avental sujo que dizia
“sai mais uma chouriça”, ou talvez nem o dissesse,
talvez não houvesse senhora de avental sujo,
talvez a memória tenha gente a mais.
Seja como for, é difícil que agora nenhum de nós lá esteja
a ouvir música e a assar chouriços.
Eu avisei.
Mas eles insistiram em mudar
de canção.

Filipa Leal
Porto, 22 de Abril, 2013
Inédito



Aos dezassete, julgo que, cumprindo as regras, os códigos que são impostos a quem conquista — a quem tem que conquistar — a impingida e suposta maturidade, eu não estava nem no Porto nem contente. Quem diria que aos trinta e cinco, muitos Portos depois (o das histórias da Avó, o dos casamentos dos primos, o dos passeios de fim-de-semana com a família, o do trabalho, o dos amigos conquistados depois de instalada, a muito custo, a maturidade), me aproximaria de tal modo da infância que estava no Porto e estava contente. Receio apenas esquecer — perder — um dia as palavras do Álvaro Magalhães e da Marta Madureira durante a apresentação d'A Palavra Perdida. FOI MUITO BONITA A FESTA, PIM!

. Na Livraria Papa-Livros, 20 de Setembro:















. Na Feira do Livro do Porto (autógrafos, exposições e Hora do Conto; 19, 20 e 21 de Setembro):






















. E as refeições no Café Convívio, ponto de encontro do Clube dos Amigos à Espera do Pina: