Mostrar mensagens com a etiqueta Palavras.. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Palavras.. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Querer muito # O meu avô. Anos mais tarde.

Talvez já tenha partilhado aqui histórias do meu Avô, talvez já tenha mostrado aqui imagens nossas, talvez já tenha dito aqui que o papel mais precioso que guardo é um minúsculo autógrafo em que ele escreveu, na sua letra tão firme quanto trémula, tão "o que em mim sente está pensando", 

Minha neta Inês, sol da minha vida.



Anos mais tarde, quando o meu Avô morreu, desaprendi uma centena de coisas. Entre elas, contar histórias. Recuperei aos poucos. Questionando sempre: "Com que palavras? E sem que palavras?". 

Anos mais tarde, encontrei um poeta cuja obra se deixava habitar por versos que diziam qualquer coisa parecida com isto, da mesma substância: "Só me faltavas tu para me faltar tudo, / as palavras e o silêncio, sobretudo este."

Anos mais tarde — é sempre anos mais tarde, se repararem, até quando são apenas dias — reaprendi a contar histórias. Nenhuma delas sem o meu Avô. Sobretudo as que não falam dele. Há outras mais claras, como esta que escrevi no seguimento de um programa de rádio que tive, "A História Devida". Pediram-me a minha "história devida". Que é esta:

Come chocolates, pequena

«Come chocolates, pequena» é uma das frases da minha vida. Talvez por ter sido uma das que mais ouvi em criança. Não sabia de onde vinha; ou melhor, sabia o que então fazia sentido saber: vinha do meu avô Zeca, e isso bastava para que a frase soasse bem. Era ele quem a repetia vezes sem conta, tantas quantas aquelas em que me levava pela mão até ao corredor dos chocolates do supermercado da D. Lizete, e juntos ficávamos horas (horas, de facto) a olhar as prateleiras, perdidos entre sombrinhas e losangos Regina, enquanto ele dizia, quase em surdina, como se fosse uma oração, «Come chocolates, pequena».
E eu comia chocolates. Passava os dias a comer chocolates. Quilos de chocolates; de manhã, à tarde, à noite; antes, durante, depois, em vez das refeições. A minha avó revoltava-se; os meus pais não. Apenas porque não imaginavam o que se passava. Não suspeitavam. Nem de nós, nem do pequeno crime em que éramos cúmplices, honrando um princípio que o meu avô repetia em nossa mais que legítima defesa: «Deixem a pequena comer chocolates; mais vale comer chocolates do que não comer nada». E, no entanto, as provas eram irrefutáveis: uma mochila Palmers acabada de chegar de um passeio de Verão com uma grande mancha castanha denunciava a presença abusiva de chocolates na bolsa exterior; as dores de barriga matinais denunciavam que, mais do que odiar o infantário, tinha ocorrido na véspera um consumo manifestamente desequilibrado de chocolate; a antipatia para com os que partilhavam os nossos espaços (Fiat 600, quarto dos brinquedos, cadeirão, despensa) denunciava o receio de que alguém ousasse pedir um dos nossos chocolates.
Até que chegou o dia (mesmo que não tenha tudo acontecido no mesmo dia, sempre me pareceu assim). Chegou o dia em que o meu avô morreu, eu fiquei alérgica a chocolate e comecei a procurar poemas para ler. É certo que o meu avô já me lia poesia, sobretudo Miguel Torga, os volumes do Diário; puxava-me para o colo, acendia um cigarro, eu tirava a prata ao chocolate, ele lia versos soltos. Ali ficávamos entre os nossos vícios, cometendo um crime que era só nosso e que reduz a minha infância ao essencial.
Naquele dia, com a morte, a alergia e a necessidade de procurar poemas, fui expulsa da infância. Descobri um livro da Ática, Poesias de Álvaro de Campos, e fui lendo. «Come chocolates, pequena». Lá estava a frase. E, apesar de nunca mais ter sido a pequena que comia chocolates, percebi então que não só não havia mais metafísica no mundo senão chocolates, como também que não havia mais cúmplices na minha vida senão o avô Zeca.

Anos mais tarde, o P. ofereceu-me chocolates (Regina) e uma pulseira de prata na qual mandara gravar "Come chocolates, pequena". O P. não pronunciou a frase, mandou gravá-la, cumprindo o silêncio. "(...) o silêncio, sobretudo este."



Anos mais tarde, chegou às livrarias um livro da Catarina Sobral titulado "O Meu Avô" (ed. Orfeu Negro). Saí à rua. Queria trazê-lo para casa. E confirmar se aquele Avô podia ser o meu. Podia:



Anos mais tarde, pensei oferecer ao M. este presente de anos (dois anos, em breve), para ele crescer fitando o modo como eu cresci, fitando o lugar onde eu cresci:

Imagem retirada daqui.

Anos mais tarde, passei o testemunho:



É de uma enorme responsabilidade ser o sol de alguém. PIM!

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Confiar no diamante.

Há uma semana, partimos para o Fundão a convite da Margarida Gil dos Reis, organizadora (irrepreensível) do Festival Literário da Gardunha, cujo tema é a viagem. Gostei da serra, gostei das pessoas, gostei das conversas, gostei de saber o M. a apanhar castanhas com o P.. 





Casaco Zara. Calças H&M. Ténis Bobux na Organii Bebé.

Na mesa em que participei, "Poéticas da Viagem", com a Filipa Leal, a Catarina Nunes de Almeida e o Ricardo Gil Soeiro, comecei por lembrar Karl Kraus — "Quanto mais de perto olhamos para uma palavra, tanto mais de longe ela nos devolve o olhar." — para, percorrendo os meus livros, chegar ao lugar que se tem feito habitação neles: os espaços fechados, as casas. Terminei, por isso, e acompanhada por Bachelard e por Françoise Minkowska, com as casas que desenhei aos 4, 5 anos. Acrescentando que hoje já só sei desenhar casas com palavras.







Javier Reverte, também em viagem pelo Fundão, apontou, na sua comunicação, um conjunto de regras que devem orientar o escritor-viajante. E mencionou, às tantas, a sua permanente vontade de partir: contou que, se vê um filme ou um documentário que lhe mostram um sítio distante, ainda desconhecido, deseja partir para poder sentir esse lugar. Desse ponto de vista, julgo que sou viajante. Eu quero partir, quero ir sentir esses lugares distantes, mas, uma vez lá, uma vez sentidos os lugares distantes, quero desesperadamente regressar. Regressar a casa. 

Talvez por essa razão as minhas histórias do Fundão, da Gardunha, são as histórias de casa. Todos os dias, ligava à minha mãe, que tem o hábito de partilhar ao pormenor as conversas, as actividades dos meus sobrinhos, o F. e o A.. Num desses dias, julgo que na sexta-feira (era dia de escola, sim, era sexta-feira), chamei os miúdos ao telefone. O A., questionado sobre o fatídico dia de escola, arrumou o assunto:

- Olá, querido, como foi a escola?
- Educativa.

O A. tinha passado o dia a apanhar pedras. Ao que parece, circulou pelo colégio o rumor de que a mãe de um amigo estava com dificuldades financeiras. Rapidamente foi elaborado um plano de resgate: o A. e alguns colegas apanhariam, no recreio, sacos e sacos de pedras. Pedras preciosas. Diamantes. Para oferecer à mãe do amigo.

- Avó, estás a ver esta? Esta deve valer uns 50 cêntimos, vai ajudar imenso. E esta, Avó? Estás a ver? Esta é um diamante, vai resolver o problema.
- Um diamante, querido? 
- Sim, Avó.
- Mas não se apanham diamantes assim no meio da rua.
- Apanham, sim. Não vês? É um diamante. É uma pedra brilhante e pontiaguda. É um diamante.

O A. está a atravessar a fase em que o dinheiro se transforma em tema ou, pelo menos, motivo. E em que não pode perder nenhum comboio. Mal reparou que o irmão estava a escrever um livro, resolveu também ele pegar no papel e na caneta. A história, de um menino chamado Jorge, relata um pesadelo: o Jorge, menino "riquíssimo da silva", sonha que é muito pobre: de repente, vê-se numa casa sem televisão e sem "coisas electrónicas". "Ó MEU DEUS!" 



Já o F., pouco depois de pegar no exemplar d'A Palavra Perdida que lhe ofereci, anunciou-me ao telefone, nessa sexta-feira em que cheguei ao Fundão, que começou a escrever um livro "sobre um rapaz que chega a outro planeta e encontra uma miúda; o rapaz chama-se Pedro". Ontem deu-me a ler o início do livro. Anunciou: "É uma história de ficção científica". Li. E expliquei-lhe que não, que é uma história de amor, que pode haver histórias de amor na "Cidade da Comunidade Interespacial", que é bom que haja histórias de amor nesse lugar distante. 


Fiquei surpreendida ao descobrir que a miúda, cujo nome ele não me tinha anunciado ao telefone, se chama Inês. "(...) era verde, tinha dois rabos de cavalo ou uma coisa do género e uma postura direita." O F. a reescrever o mito. Ou a recriar a sua mitologia pessoal, na qual Pedro e Inês são nomes de tios, de figuras de casa, nomes aos quais ele sempre regressa. "Ou uma coisa do género".


Reparo agora que os meus sobrinhos raramente desenham casas. PIM!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Sobretudo-Outubro-Sobretudo.

Quando era miúda, dizia Outubro como quem diz Outono. E Outono como quem diz Outubro. Perdia-me depois na rima, repetindo "sobretudo-outubro-sobretudo". Apanhava-me sozinha em casa e ia mudando de sofá à medida que a preguiça se fundia com a melancolia, tornando-se, sem que eu desse conta, sonho. 

Estão 30 graus na rua. Mas cá em casa é Outono, "a estação híbrida", "uma meia estação indecisa", como a define a Rita Taborda Duarte no seu belíssimo Elogio do Outono (ed. o homem do saco & landscapes d'antanho).



T-shirt comprada numa feira em Amesterdão. Jeans H&M
Meias H&M. Ténis Bobux na Organii Bebé.


Julgo que o M. também considera o sofá o melhor sítio para o Outono. Para Outubro. Mesmo quando ambos dispensam o sobretudo. PIM!

P.S. - Tudo isto tem banda sonora.


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

"Acende-se um nó na garganta."

"Acende-se um nó na garganta." Assim começa o livro Canto Onde, do meu bom amigo Luís Quintais (ed. Cotovia). Temos ambos filhos pequenos e, sobre eles, trocámos mensagens há uns dias. Numa delas, disse-me: "Não há nada mais bonito do que uma criança: isto é uma banalidade de base, mas é também a única evidência neste mundo onde nada é evidente e onde se lançam bombas para cima de crianças..." Acende-se um nó na garganta, sim.

Também por causa disso - dos luminosos nós - este blogue está em modo intermitente. Porque quem o escreve está em modo intermitente. Entre a possibilidade de espanto e a possibilidade do Horror, entre as conquistas da infância e as perdas da idade adulta. Tudo isto parece, pois, um conjunto de "banalidades de base", mas é um conjunto de evidências "neste mundo onde nada é evidente"... O M. continua, então, sem ver televisão - excepto as vitórias do Benfica. 





Conseguimos sabiamente evitar as derrotas. Desportivas. As outras sucedem-se, acumulam-se, "neste mundo onde nada é evidente", repito, re-cito: Gaza, Iraque, Rússia, Ucrânia, Novo Banco, Banco Mau... O M. desconhece esta linguagem. Sabe apenas uma dessas palavras: "mau". Por causa do lobo. Há dias, assumiu-se seu fã. Do Lobo Mau, sim. "O uôbo, Mãe, o uôbo mau?" e a expressão de quem intui que "há sempre qualquer coisa que está para acontecer". Logo agora tinha que vir um banco usurpar adjectivos.


Banco mau, mãe?! A sério? Então não era um lobo?

Surge então o humor. Se não salva, abre caminhos. Na floresta preferida do Lobo Mau, onde também não se vislumbram evidências. Cá em casa, nunca aprendemos, no entanto, a rir do que se passa no resto do mundo. Temos apenas recursos. Como a curta de animação This Land Is Mine, "a brief history of the land called Israel / Palestine / Canaan / the Levant". Apanhei-a no brilhante Brain Pickings, onde Maria Popova dedica umas linhas a Nina Paley.





É isto o Verão: uma condenação ao resumo. (Não me refiro, como é evidente, à silly season; essa impõe outro tipo de resumo...) Sobretudo os Verões atípicos, os que se aproveitam dessa velha e sábia ilusão que é a pausa, a suspensão, para nos lançarem na armadilha do tempo. 

Eu, por exemplo, estou a aprender a lidar com a energia inesgotável de um bebé 24 horas por dia. Em Agosto, o M. não tem creche; eu e o P. continuamos a ter os nossos "afazeres diurnos", para usar parte de um verso do Pina. Não sei como fazem as pessoas que têm três e quatro filhos. Não sei como fazem e quero saber. Por favor, expliquem-me. Este blogue tem caixa de comentários. Aguardo as vossas receitas mágicas. Preferia que me enviassem poções, já preparadas e prontas a actuar, mas calculo que seja mais simples partilhar receitas.

Chegaram-me ontem... Ontem não, há dois dias talvez; este post está a ser escrito desde Domingo, não há meio de o terminar, o M. acorda, o Continente online chega com mantimentos, os amigos ligam, o trabalho acena ao longe... Dizia: chegaram-me ontem hipóteses no boletim do Baby Center: uma lista de coisas que devo fazer para me manter "sane". Ora, a lista já vem tarde - once insane... - e não me parece que banhos de imersão ou idas ao cabeleireiro me curem. Talvez me deva assumir como dependente. Ou viciada. Dependente da minha criança, viciada na sua autoridade de trazer por casa e pelo coração, na sua energia inesgotável e demolidora para o ser humano comum. Sinto-me em queda nos dias em que as dores de costas se alongam até aos ouvidos e aos dedos dos pés; durmo mais uma hora nessa noite para compensar; no dia seguinte, eis-me novamente capaz de tudo. 

Por isso, nestes dias de ausência, de impossibilidade de escrever neste blogue, de ligar sequer o computador (repito: aguardo poções e receitas mágicas), fingimos que temos realmente tempo. Para o que começa a ganhar a forma de uma fórmula: "as nossas coisas". 

Coisas como, por exemplo, encher balões, encher a casa de balões.



Coisas como vestir os fatos de banho e ir para a praia, crentes de que o vento será brando.



Coisas como espreitar a cidade das nossas janelas. 



E seguir devagar as nuvens a partir do nosso chão.



Coisas como desafiar a luz. Em modo contraluz.



Coisas como fazer festas à nossa andorinha. E aprender a palavra andorinha.


T-shirt Zippy. Calções Zara
Andorinha Bordalo Pinheiro n'A Vida Portuguesa.


Coisas como passear os clássicos.


T-shirt Zippy. Calções Zara. Carrinho Imaginarium.
Ímans/ Bonecos "Magnetic Personalities" 
Platão, Kant, Hegel, Nietzsche, Poe na Philosophers Guild.



Coisas como começar a partilhar segredos e rever o livro que aí vem: A Palavra Perdida, com texto meu e desenhos da Marta Madureira (ed. Arranha-Céus).



Coisas como tirar retratos em livrarias e trazer para casa livros que não podemos de maneira nenhuma lá deixar.




Coisas como ouvir um milhão de vezes as canções de que mais gostamos.







Em suma: coisas como criar as nossas próprias regras do Verão. Enquanto decoramos, para estações e tempos futuros, as dos dois rapazes imaginados por Shaun Tan neste belíssimo álbum editado pela Kalandraka





Parecem-nos regras imprescindíveis para o veraneante de mente sã.




Por que motivo termino com este livro e com estes rapazes?



Porque Agosto, sendo o menos cruel dos meses, é também o mais traiçoeiro. Não será por mal que junta ao sol o vento quente e a morte gelada dos avós, dos amigos, dos gatos. Agosto, note-se, partilha da natureza do Verão, aqui a norte da linha do Equador. E instala-se nessa fenda onde nada é o que parece, "nada é evidente", para regressar ao início deste post. "Para pequenos e grandes", alerta Shaun Tan, a abrir o livro citado. Refere-se não apenas ao seu álbum, como também às regras do Verão e, por maioria de razão, ao próprio Verão. E às palavras de que gostamos, que aprendemos a guardar desde pequenos. "Porque eu sou pequeno, mas os meus bolsos são fundos", conta o Manuel, narrador d'A Palavra Perdida.




"Para pequenos e grandes" são, assim, As regras do Verão, livro que nos acende um nó na memória e, logo depois, um outro na garganta (as ilustrações de Shaun Tan - magníficas e brilhantes de tão dark - são, aliás, um jogo entre a luz e a sombra, entre os tons da revelação e os do apocalipse...). Demonstra-nos que os nossos medos - reais e imaginados - não mudam à medida que crescemos: aumentam. Tal como a nossa certeza de falhar o resgate do mundo e do último dia de verão; tal como o nosso receio de falhar nas tarefas da casa, nas tarefas da maternidade, nas tarefas da vida. E nas da morte. No caminho de casa. Na palavra-chave. 



Eu tenho uma. Uma palavra-chave. Ensinam-ma livros como este de Shaun Tan. É uma palavra-chave aparentemente simples. Tem, contudo, muitos dentes, dentes luminosos, capazes de desfazerem nós. Aviso que não é nada evidente, a minha palavra-chave, e que, se os dentes se posicionarem de modo a conseguirem abrir a porta desse lugar escuro que é um coração, esconde dentro dela outra palavra ainda menos evidente: "amizade". A minha palavra-chave - uma palavra achada - é esta: PARTILHA. 

PIM!