Às vezes, o M. transporta-me para dentro das tiras da Mafalda, do Quino. E, por isso, para casa dos meus avós, para a cama gigante de um quarto a que chamávamos "o quarto dos primos" por ser lá que dormiam os nossos primos quando nos visitavam. Foi aí que ganhei o hábito de ler na cama - mesmo durante o dia; foi aí que passei umas férias grandes a ler Toda a Mafalda.
É um dos livros da minha vida, esta preciosidade que a minha mãe me ofereceu numa das muitas visitas que, nesse ido ano de 1987, fizemos à Feira do Livro. Passávamos lá muitas noites, as duas. Lá e em casa, a escolher livros no catálogo do Círculo de Leitores. Os meus volumes do Adrian Mole foram-me trazidos pelo "senhor do Círculo de Leitores", que nos tocava à porta uma vez por mês, depois do jantar.
Não sei bem porquê, regresso poucas vezes ao Adrian Mole; muitas, imensas, à Mafalda. E o M. traz-me à memória o delicioso Gui, por quem eu morria de amores quando tinha 8, 9, 10 anos.
Por exemplo, isto já aconteceu cá em casa:
E isto:
E mais isto e isto:
E isto:
Como também isto. Com menos palavras é certo, mas com as mesmas sérias intenções:
Percebo agora por que razão continuo a precisar tanto da Mafalda. Preciso que ela me ensine. Por exemplo, isto:
Depois da derrota de ontem do nosso Benfica, que tantas palavras novas me fez conquistar e abraçar com carinho,
(espera agora pela minha adolescência para veres como a memória nem sempre nos atraiçoa)
parece-me sensato que largues por uns segundos o Herberto
(não tenho idade para isto, Mamã, "a morte como rompendo uma palavra através da porta de uma nova palavra", não tenho idade para ouvir isto e repetir "porta" como se estivesse realmente a ouvir e a passar pela porta de uma nova palavra, não tenho idade, ouviste, querida Mamã?)
e esses outros poetas do Gelo com quem tens andado a passar mais tempo do que o razoável e ponhas a tocar outra coisa que não o Malcolm Middleton
(ainda acreditas no amor, não acreditas, Mamã?, já te vi grafá-lo com maiúscula e passas o tempo a dar-nos beijos, suspeito de que os beijos têm muito a ver com o amor, mas esperemos então pela minha adolescência, esperemos)
(pensava que isto já te tinha passado e só porque os teus amigos do Facebook partilham coisas destas não tens que cair de novo na obsessão, percebes, Mamã?, tens a certeza de que estes teus amigos do Facebook são boas companhias?, Mamã, quem são as famílias deles?, para que jardins vão brincar ao fim da tarde?, o que fazem os pais deles?, ainda saem à noite até às quinhentas?, vê lá bem isso, Mamã, confirma, só quero o teu bem, não é por mal)
Mamã, não é saudável ter tão gigantesco fraquinho pelo Rust, pessimista refinado, como não é saudável ouvir tantas e tantas e tantas vezes as mesmas canções, sobretudo quando não há relação aparente entre elas para além de alguns temas e motivos que me preocupam que estejam entre os teus temas e motivos. Andar a saltitar desse modo entre estilos e géneros só faz sentido na moda. E mesmo assim.
(Em breve, conversaremos sobre a tua colecção de sapatos.)
Bem sei que a coerência não me parece ainda uma coisa sensata.
(Já reparaste certamente nas minhas birras, naqueles ataques de choro seguidos por ataques de riso seguidos por ataques de atirar coisas ao ar seguidos por ataques de beijos seguidos por ataques de mordidelas seguidos por ataques de festinhas seguidos por uma sesta de três horas.)
Apenas me chegou aos ouvidos que és adulta e que os adultos prezam a coerência. Por mim, não tem problema, eu só quero o teu bem, Mamã, podes ser incoerente.
(E ter uns quantos guilty pleasures, sim, já te apanhei a ouvir a banda sonora do Dirty Dancing, safaste-te porque está lá o Solomon Burke e por saberes as letras de cor, é tão ouvir-te cantar, Mamã, o Papá não tem razão nenhuma quando diz que soas pior que a Britney.)
Eu só queria mesmo que me ajudasses aqui com a aparelhagem.
(Isso de tu e o Papá não me deixarem mexer nos comandos leva a situações embaraçosas: faz algum sentido um bebé de um ano e meio não saber mexer nos electrodomésticos da casa? Faz algum sentido um bebé de um ano e meio não saber desbloquear um iPhone? Não faz, Mamã. Se tenho idade para Herberto, tenho idade para isso. Confima com os especialistas, por favor, querida Mamã.)
Só queria mesmo ajuda para poder arrastar o puff ali para a frente e instalar-me a ouvir o Variações. Podes pôr o disco dos Humanos? Pode ser, Mamã?
(e que em nada isto que vou dizer prejudique a tua incoerência, gosto que sejas assim como eu)
isto não é um post sobre criações para a infância. Relê-o com atenção, Mamã. Já está? Tenho razão?
Vá, não te preocupes, Mamã, deixa a secretária. Dá-me a mão.
Vamos cantar, trocar as letras às canções, és "a frescura da minha sede", ando "contigo na minha mão", pintas "a boca de rosa e verde", és "o gelado do meu Verão".