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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Crescer.

"Não aconteceu nada de especial. Só olhares. Eu andava de skate. Ela olhava. E derretia de paixão."

Os pormenores que ansiosamente aguardava sobre os jogos de amor dos meus sobrinhos estão todos concentrados nestas palavras. De um lado. O do A.. Do outro, o do F., não tem corrido tão bem.

"Chamou-me nojento."


A. e F. na festa do Planeta Tangerina (Casa Independente)
T-shirts Pepe Jeans. Calças e calções H&M.


A beldade das ciências chamou nojento ao meu sobrinho. Não tive outra hipótese: fui obrigada a regressar ao discurso que ontem prometi ultrapassar. 

- Nojento?! Mas essa miúda é parva? É completamente tonta, essa nojentinha.
- Não, Tia. Teve cinco 5 e o resto 4. 
- Ainda se tivesse tido tudo 5...
- O quê?! Ela é super-boa-aluna! Cin-co-cin-cos-e-o-res-to-qua-tro!
- E chamou-te nojento, a nojentinha. Deve ser das que decoram, não das que sabem.
- Talvez. Mas é linda.
- Linda como?
- Como tu. Tem os lábios mais grossos. Com ofensa: é mais gira do que tu.
- Mais gira do que eu?! Destronou-me?! Eu nem a conheço e já a odeio. 

Nem a conheço e já a odeio. "Com ofensa". Agora compreendo o que me disse, há uns anos, o Manuel António Pina, falando-me da casa onde morou durante mais tempo: "Foi aqui que as minhas filhas ficaram maiores e eu e a minha mulher ficámos mais pequenos."

Foi ali, naquele diálogo, que o Francisco ficou maior e eu fiquei mais pequena. Não é, pois, uma questão de centímetros, é uma questão de relevância. Se o nascimento é uma violência, maior violência é crescer. Por ser um processo interminável, detido apenas pela morte; por, apesar de simbolicamente não ter a servi-lo uma imagem tão forte como a do corte do cordão umbilical e o que nisso está implicado (o sangue, a dor...), se arrastar pelo tempo, levando-nos atrás, desprevenidos. São cortes invisíveis, os do crescimento, com sangue e feridas do lado de dentro.

"Mas uma coisa também é certa..."



Onde é que eu fui buscar isto? Aqui:



O primeiro presente de baptizado que o M. recebeu, oferecido pelos Tios Z. e H., foi uma caixa cheia de desenhos da Madalena Matoso. Lá dentro, uma outra forma de contar a história de "Quando eu nasci". E de a relembrar ao pequeno-almoço, ao almoço, ao lanche, ao jantar. 






Mais imagens aqui.


Finalmente, com os presentes que ofereceram ao M., vou poder armar-me em crítica multifacetada e espalhar umas estrelas pelo firmamento. Ao resultado desta parceria entre o Planeta Tangerina e a Vista Alegre dou um milhão delas. As razões prendem-se não apenas com a ideia em si, a de conceber este belo serviço, nado e criado na companhia de um belo livro, mas também com o facto de a Vista Alegre ter sabido evoluir sem perder a sua identidade. São notáveis muitas das parcerias que a marca tem estabelecido, capazes, aliás, de revelar como a VA está atenta ao que de melhor se anda a fazer em Portugal. Soma-se a isso, como é evidente, o livro, a história que aqui se conta - em desenhos e palavras. 

                          


Um dos aspectos de que mais gosto no trabalho do Planeta Tangerina prende-se com a simplicidade - essa enorme armadilha onde caem os incautos, os que julgam que, se a palavra e o traço são simples, "isso também eu faço". Não fazem, não. E não fazem porque, neste fazer, está implicado um olhar atento, um olhar que repara no pormenor e nele se fixa para o conseguir transmitir aos outros, para o conseguir partilhar. Sem condescendências. Julgo que esta é a chave da melhor literatura infanto-juvenil. Ou um dos dentes dessa chave. 

Quando eu nasci é bom exemplo do que sustento. É um manual de sentimentos e sentidos, de emoções e sensações, não de evidências, caros incautos. É um manual para a primeira infância, sim, mas também para pais e avós e bisavós, para que eles, agora de bebé ao colo, nunca esqueçam como foi quando eles nasceram. Por isso, é ainda um manual para primos e sobrinhos, para tios e amigos, para todos os que querem estar próximos do milagre da origem, do milagre que é aterrar neste mundo, que é senti-lo pela primeira vez. 

Falei já várias vezes da Madalena Matoso e da Isabel Minhós Martins, autoras desta obra, e, apesar de haver agora muitos nomes a apontar na enorme família em que se tornou o Planeta Tangerina, um deles parece-me imprescindível para aquela casa ser como é, ser o que é: o do Bernardo Carvalho. Sobre os livros do Bernardo escreverei em breve. O que importa agora acrescentar prende-se com a íntima relação estabelecida entre texto e imagem nos livros desta editora, facto para o qual muito contribui o trabalho do Bernardo. Não faz sentido, neste momento, publicar literatura infanto-juvenil se não se colocar em pé de igualdade texto e ilustração, se não se rejeitar a ideia de que basta fazer uns "bonecos com as caras redondas" cujas expressões tentam toscamente traduzir o mesmo que as palavras, colando-se a elas. Os "bonecos" devem por si só ser eloquentes, devem dizer muitas coisas, tantas outras coisas, todas as coisas que cabem na imaginação, devem fitar, também eles, as palavras, devem dar-nos mais - mais possibilidades de leitura, mais possibilidades de olhar o mundo, mais possibilidades de viajar até outro planeta.

Em síntese, é isto:



Ontem na festa do Planeta Tangerina, na Casa Independente, celebraram-se novos livros e os dez anos da editora. Nós trouxemos para casa beijinhos da Madalena.




Declarámo-nos aos nossos amores, montámos borboletas com pedaços de papel, exibimos barrigas, contámos balões, comprámos livros.






 M.: Camisa Zara. Calções Name It na Boozt
Sandálias Bobux na Organii Bebé.


Em suma, eles ficaram um bocadinho maiores. Eu fiquei um bocadinho mais pequena. De que outro modo se explica que o momento alto do meu dia de hoje tenha sido aquele em que dei de caras, no mural da Joana Emídio Marques no Facebook, com estes versos, "apanhados" pelo Vítor Silva Tavares (editor da mítica &etc) a uma criança, "o melhor poema surrealista de sempre", na sua opinião:

gosto do sol
porque ele é tão azulinho, tão azulinho
como um moranguinho

PIM!

terça-feira, 8 de julho de 2014

Mãe, não sei bem o que é, mas julgo que é paixão.


Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.
A bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas-de-pau.
Mesma a volúpia de chutar
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
 São vôos de estátuas súbitas,
 desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
o jogador, gravado no ar
— afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade.


- Carlos Drummond de Andrade




Cadeira Bebé Confort. T-shirt Zippy. Calças Indikidual na Loja Dada.
Ténis Bobux na Organii Bebé.



"Duas bolas, Pai!" 
Mas a bola é a mesma. Sempre a mesma. PIM!

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Rumo na vida. Um beijo, um beijo.

Um dia partimos em digressão com o Sérgio Godinho. Eu, o M., o P. e outros amigos-família, como o JP e a F.. Não foi bem assim, mas quase. Estivemos com o Sérgio numa só paragem: o Funchal. Tínhamos ido para o meio do mar para podermos participar no Festival Literário da Madeira e apresentar lá o meu livro A Habitação de Jonas. O M. estava a meio caminho entre os 4 e os 5 meses e não o consegui deixar. Nem podia: ainda estava a amamentar. Passava os dias entre as conversas do festival e os passeios com o M. e o P.; passava as noites entre os jantares e os concertos do festival e os sonhos do M. e do P., que ficavam no quarto do hotel, à minha espera. 

Um dos melhores momentos dessa edição do FLM foi o concerto que o Sérgio Godinho deu no Teatro Municipal Baltazar Dias. Bem sei que estava há meses e meses sem pôr os pés num concerto e que tal facto pode ter tido influência no modo como senti todas aquelas canções, naquele belíssimo palco, com aquele incrível intérprete, que não envelhece, está cada mais jovem, mais generoso. Pareceu-me perfeito. 

No fim do concerto, o Sérgio, que à hora das refeições tinha as suas conversas com o M., comentou comigo: "Estive mesmo para dedicar 'O primeiro gomo da tangerina' ao Manel, mas a canção fala da menina, a minha filha, não podia ser." Ficou a intenção dele e a minha promessa de um dia, quando o M. começasse a achar graça às meninas, pôr "O primeiro gomo da tangerina" a tocar na grafonola cá de casa.




Promessa cumprida. Ouvimos e lemos. O M. conhece a menina, chama por ela. A menina que a Madalena Matoso desenhou e que é toda ela "sumo na vida", "rumo na vida", "um beijo", dois, três, mil... A menina tem tempo, tem os cabelos ao vento, tem "um 'popó'!!!", anuncia o M..





O primeiro gomo da tangerina, de Madalena Matoso e Sérgio Godinho. 
Ed. Planeta Tangerina (as imagens são do site da editora).


Agora, quem conseguir espreitar pelas nossas janelas, cá para dentro, lá fora vai estando tudo na mesma, achamos nós, que calçámos os nossos sapatos mais confortáveis e pusemo-nos a dançar. Descalçámo-los depois para conseguirmos acompanhar a menina. Para conseguirmos acompanhar o Sérgio, que vai cantando várias vezes a canção, enquanto o M. circula pela casa, aperfeiçoando a sua dança-pêndulo e chamando, bem alto, a "m'nina". Já começou a descobrir os encantos da "m'nina", da palavra "m'nina", do som da palavra "m'nina", que é sempre por onde tudo começa. PIM!

terça-feira, 1 de julho de 2014

Querer muito # 6. De barco. No Pinhal.

Arranca hoje mais uma edição do Pinhal das Artes. Os primeiros dias são para creches e jardins de infância; no fim-de-semana, a festa abre-se a famílias. Infelizmente, não vamos conseguir juntar-nos. Temos outras festas e outras actividades em Lisboa. (É sempre demasiado difícil sair desta cidade...) Mas temos também muitos amigos em S. Pedro de Moel que andarão por lá aos pinotes. "Andar por lá aos pinotes" implica pisar a caruma do pinhal, saltar por cima de troncos gigantes, fazer piqueniques, ver, ao fim da tarde, a luz descer por entre os pinheiros... E visitar todas as tendas do Pinhal das Artes; a programação está disponível aqui

Há uns tempos, escrevi um poema para os meus amigos de S. Pedro de Moel. Também por causa deles (e, sim, meus amigos, há que lembrar aquelas festas épicas cuja descrição, de tão longa, mais longa do que as árvores, nunca caberia neste blogue...) é que o pinhal é para mim tão especial.

São mais longas as árvores que os caminhos
à noite, na estrada da mata.
São, de todas, as mais longas árvores,
as da estrada que liga, pela mata,
São Pedro de Moel à cidade
onde homens fazem vidro, moldes,
e eu fiz amigos: vidros, moldes
desta vida de reparar em árvores
longas e caminhos.

São tão longas as árvores da mata
que as ouço à noite comentar como
são longas, tão longas como
os amigos, as raízes por debaixo do asfalto
abrandando os passos, os caminhos.

Devagar amo estas árvores e os amigos
e às vezes depressa, meu amor,
que me trouxeste estas árvores, estes amigos.

Por ti, como por eles, travo a fundo
na zona da raiz:
onde mais perto me alongo,
obediente às árvores,
longa longa longa até onde
me levam os amigos.


Em Lisboa, andamos ocupados a planear uma festa para o M.. Curiosamente, vai ser a caminho de S. Pedro de Moel (mais uma prova de que inevitavelmente muitos dos nossos caminhos vão lá dar), no Casal da Eira Branca, que já é também um dos nossos lugares. Tenho passado parte dos meus dias a tratar da decoração da festa. Queria muito espalhar pelo Casal da Eira Branca uma dezena de barcos destes, descobertos no maravilhoso Sisters Guild e criados por Lorena Canals e Eva Newton:




Já me conformei com a ideia de que essa viagem de barco não vai ser possível, mas, por tanto sonhar com ela, dei por mim a navegar até às paragens distantes dos meus 5, 6 anos. Estou ao colo do meu Avô Z.. Ele fuma, enquanto me faz um barquinho de papel. Eu assisto, muito atenta, sem conseguir decifrar todos os movimentos das mãos dele. Doze anos a observá-lo a construir-me barquinhos de papel e nunca aprendi a fazer um. Ficava demasiado concentrada nos dedos dele, focava-me naqueles dedos que seguravam o cigarro e ao mesmo tempo extraíam do papel um barco perfeito, sem o queimar. Fixava-me nos movimentos das mãos, incapaz de os decorar. Talvez por intuir que determinadas coisas pertencem a determinadas pessoas. E por secretamente desejar que o meu Avô Z. me fizesse barcos de papel ao longo de toda a vida. De certo modo, ele adivinhou-me: ao longo de toda a sua vida, encheu a nossa casa de barquinhos de papel. A minha vida continua agora sem esses barcos. Ainda não aprendi a fazê-los. Tentei há dias, rodeada de vozes: "É tão fácil! Como não consegues? Não há nada mais simples." Escusei-me a apontar as razões da minha falta de jeito, até porque não seria esse o caso: tendo crescido numa casa de mulheres, o meu lado despachado e prático levou-me a assumir as funções normalmente atribuídas aos homens, como mudar lâmpadas, pendurar quadros, arranjar vídeos, televisores, aparelhagens, walkmen, gira-discos, enfim, todo o tipo de electrodomésticos, carregar malas, subir aos armários, etc, etc. A família inteira sabe que eu tenho jeito. Excepto para fazer barquinhos de papel. Como fazê-los, se na rua onde cresci havia um mágico que brincava com papéis e encantava todos os miúdos, os daquela rua, os das ruas paralelas a ela, os das ruas perpendiculares a ela? Esse mágico era o meu Avô, que surge nuns versos de um poema incluído no meu livro As Coisas (ed. Abysmo)


As coisas ocas

Mais uma vez quebrei a promessa
num dia em que provavelmente me bateste.
Faltas de educação não toleravas nunca. Mas adolescentes
são bichos que desconhecem o fim e o princípio
das coisas. Prometi-te: não odeio ninguém. As feridas
(no coração, na razão) têm causas geralmente humanas,
coisas de que me arrependo. Como daquela vez
em que te atirei à cara a inversão da ordem genealógica da família.
Íamos de carro, a gata a precisar de pontos, eu duvidando da condução.
Adolescentes: bichos esquisitos. A culpa não os come
por dentro; abandona-os: coisas ocas. E um nome.
Por dentro, há um dia de árvores altas
onde vivemos: um coração olha-nos de fora
como se não nos pertencesse e o seu lugar fosse
o de um boneco trocado por namorados no São Valentim.
Daqui de longe parece-me ter pernas. Pendem-lhe do banco
onde um dia te disse que eras o mágico da rua: papéis
voavam-te dos dedos ao alcançarem a ponta das unhas.

Desse lugar avistei a infância, desse lugar
por onde agora corre um caminho que teima:
o coração é fraco, não resiste se o partilhamos
como deformação congénita. É desse tamanho
o buraco no peito.


Temo que um dia seja o M. a exclamar, à minha volta: "É tão fácil! Como não consegues fazer um barco de papel?! Nada mais simples!". Nesse momento, terei que lhe mostrar estas fotografias, terei que chamar reforços:






Pouco acrescentarei. Apenas: "Tinhas tu pouco mais de um ano e meio e passei eu semanas a construir bonecos de papel para a tua festa. Como não te lembras?!" Omitirei obviamente o facto de serem bonecos de papel com construção assistida. Ficarei eternamente grata à Mibo, inventora destes bichos terapêuticos.




Com estas escassas informações e mais uma dezena de fotografias, talvez consiga convencer o M. a assumir ele a função de encher a casa de barquinhos de papel. O Avô Z. ia gostar. Eu também. Afinal, é isto que eu quero muito. PIM!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Dentro da linha. Dentro de Eva. Dentro de bichos, nomes e frutos. Em suma: dentro da imaginação. E do tempo.

Faço compras online: compras de supermercado, compras de sapatos, compras de material escolar, compras de presentes, compras de roupa, compras de capas de telemóveis, compras de electrodomésticos, compras de colares, pulseiras, fios, anéis, compras de brinquedos, compras de bilhetes, compras de livros. Neste último caso, há que explicar que o faço sobretudo nos sites das próprias editoras ou em livrarias como a Letra Livre, por onde depois passo para levantar (e aumentar) a encomenda. À Amazon, por exemplo, resisto; tem um tamanho que intimida o meu pijama. Também compro pijamas online. Porque gosto muito de pijamas e de ir às compras - online - de pijama, sem sentir que alguém, algures, está a espiar-me, tirando notas relativas ao facto de ter falhado a combinação da parte de cima do pijama com a parte de baixo, sem sentir que alguém, algures, está a controlar o cesto das compras, a compará-lo com o saldo da minha conta bancária. Declarei recentemente o meu amor aos pijamas neste vídeo em que leio uma crónica do Nuno Costa Santos, incluída no livro Vou emigrar para o meu país:




Devo confessar que gosto ainda mais de fazer compras do que de pijamas. Prática, aliás, igualmente condenada pelos que dormem atirando os ares, em ritmo inspiratório-expiratório muito bem marcado, para um certo extremo do lado esquerdo. Lamento que haja quem despreze a experiência de estar confortavelmente instalado em flanela clicando ora no detergente para a roupa, ora nuns brincos Dior (quero estes). Perguntam-me as minhas amigas por que razão não quero eu sair de casa para ir às lojas. Por prezar o meu sossego, por detestar experimentar roupa em lugares exíguos por onde passam dezenas de pessoas, por 80% do meu corpo ser uma toca de bicho-do-mato, por existir online muito mais do que nas lojas, por haver sempre nos sites gigantescas secções outlet e artigos em promoção e artigos raros e artigos de todos os tamanhos. Perguntam-me as minhas amigas como é que acerto nos tamanhos. Muita experiência, muito olho e alguma dose de risco. Perguntam-me as minhas amigas se alguma vez tive problemas, se as coisas não corresponderam às expectativas. Em relação ao detergente para a roupa, tal pode ter acontecido. A nódoa ficou lá. No entanto, o shopaholic moderado (aquele que valoriza o sossego que é passar horas nas lojas online sem sair do sofá da sala, onde a única música autorizada é aquela que o próprio escolhe, onde não existem atropelamentos, nem cabides, nem balcões, nem filas de espera, nem empregados com humores variáveis) sabe que, mesmo que aqueles jeans comprados em 2003 tenham ficado ligeiramente largos, só a alegria de os ter recebido de pijama e de mãos estendidas para as mãos do meu fiel carteiro compensa qualquer excesso de tecido. 

É evidente que às vezes vou às lojas. Sobretudo quando estou fora de Portugal. E não tenho horários. Nem ando a correr. Por cá, gosto, por exemplo, de ir à Ler Devagar, na Lx Factory, por onde não passava há algum tempo, demasiado. Fui lá ontem para assistir à peça A Inexistência de Eva, com texto da minha boa amiga Filipa Leal e interpretação de outra amiga, a Ana Lopes Gomes, que, nunca desistindo de alcançar o impossível equilíbrio do feminino, partilha com o público o texto integral daquele que é um dos meus livros de poesia preferidos. Editado pela Deriva, que infelizmente suspendeu há dias a sua colecção de poesia, A Inexistência de Eva abre com um aviso: "Este livro foi escrito há muito tempo.". Assim se revela que este livro existiu sempre em quem o escreveu, esteve desde sempre inscrito na mão de quem o escreveu - uma mão de mulher, que conhece e intui a condição do feminino e vai tacteando esse território sempre novo e por descobrir. Para mim, é também um livro sobre a experiência da maternidade, se a tomarmos como experiência de criação - de nomeação, de (re)aprendizagem. 



E é também um livro sobre a infância, sobre a possibilidade de regresso, sobre a possibilidade de aproximação à origem, da sua preservação. Ora "ouçam" (e podem, de facto, ouvir os que forem ver a peça):



O livro começa assim - e é esta mulher que se encontra no palco, a desafiar o equilíbrio, a confirmar se tal coisa existe:



Esta é, pois, a sabedoria:



O único problema que enfrentei na Ler Devagar teve precisamente a ver com a realidade, a parte que aprendi a amar. Deparei-me com ele, com o problema, quando dei de caras com o expositor da literatura infanto-juvenil. Vim para casa carregada: "com o tempo", "estava a pensar" "em todas as coisas", como o "Herberto" (este e o outro, que agora se infiltra sempre, sem nenhum pudor, em todas as conversas...) ou "10 patinhos de borracha".


Estava a pensar..., de Sandol Stoddard e Ivan Chermayeff (ed. Bruaá)


E era em casa que me esperava um envelope da Loja Dada. Aqui ficam mais razões para eu fazer compras online: roupa linda, ilustrada e assim embrulhada. PIM!


Calções com gatos Beau Loves (aqui). Calças Indikidual (aqui e aqui).

terça-feira, 24 de junho de 2014

tão belo como um sim/ numa sala negativa


No dia em que nasceu o filho mais velho de uns dos nossos melhores amigos, eu e o P. estávamos no Porto com o Manuel António Pina. Fizemos uma festa tão grande que o Pina, depois de ter assinado um livro para o recém-nascido, se pôs a contar histórias e a citar poemas. Sugeriu-me: "Envie aos seus amigos um poema do João Cabral de Melo Neto sobre o nascimento". E pôs-se a dizer de cor "Morte e vida severina".

Eu, obediente (costumo obedecer a crianças e poetas), escrevi um mail aos nossos amigos, dirigido ao nosso novo pequeno amigo, sobrinho do coração: "(...) Aqui vai parte dele [do poema], esperando que um dia o leias tu e possas compreender que, apesar de as palavras serem coisas - são mesmo coisas em que pegamos - maravilhosas, não há nenhuma no mundo capaz de dizer o quão ansiosos estamos por te conhecer, te pegar, ser teus amigos incondicionais (...). E, só te tendo visto numa fotografia, já sabemos que és um bebé:


'(...) tão belo como um sim
numa sala negativa.

(...) tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
— Belo porque és uma porta
abrindo-se em mais saídas.
— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
— tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

— Belo porque tens do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

— E belo porque com o novo
todo o velho contagias.
— Belo porque corrompes
com sangue novo a anemia.
— Infeccionas a miséria
com vida nova e sadia.
— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.
(...)
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida.'"



Aprendi, com o Pina, a partilhar este poema com os meus amigos que têm filhos e com os filhos que lhes nascem sempre que pressinto que vem aí gente de "adição infinita", gente a quem serei capaz de obedecer. Hoje, este poema vai para a A.B.P.Q., quatro iniciais a marcar o nome completo de uma menina que vi ontem pela primeira vez numa fotografia, uma menina que pendurou um luminoso "sim" na minha sala negativa. PIM!

terça-feira, 17 de junho de 2014

Gosto tanto de ti que, se soubesses, abusavas.

Eu hoje não acordei assim.



Mas por volta das 9 da manhã estava assim.

Assim, como a foto toscamente ilustra e para o que aqui importa, equivale a ter no braço marcados oito dos dez dentes do M.. 

O meu filho é um anjo. É lindo de morrer. Tem um sorriso incrível. Até quando está de trombas e nos faz imaginar ainda mais intensamente o seu sorriso. Está quase todo o tempo feliz, na sua "alegre inconsciência", qual ceifeira que "canta como se tivesse/ Mais razões pra cantar que a vida". Com a sua interminável energia, canta, sim, e dança, corre, sobe as escadas e vai atirando beijos e chamando por nós e nomeando as suas coisas preferidas: "papá, mamã, vó, vô, tita, pavão, cão, gato, popó, mina mamã, pai, mãe, pai, mãe, pai, mãe, mina mamã...".  Antes de isto tudo acontecer, excepto a parte do ser lindo porque é-o desde o primeiro minuto, "que bebé tão bonito, que giro, é mesmo giro" foram as primeiras palavras da minha obstetra assim que o tirou de dentro de mim, antes disto tudo acontecer, foi um recém-nascido perfeito: com um mês e meio, começou a dormir toda a noite, 8, 10, 12 horas, sempre comeu bem, nunca adoeceu (só depois de ter feito 1 ano), se chorava era por estar realmente qualquer coisa errada, qualquer coisa a causar-lhe desconforto, não fazia birras, deixou a chupeta por iniciativa própria...




Agora, o meu anjo morde. E dá estalos valentes na cara das pessoas. E nas pernas. Até nas pernas dos móveis. Mesas de jantar, mesas de apoio, cadeiras, sofás, camas, nada escapa à sua mão pesada. Eu e o P. somos aprendizes na arte de lidar com este pequeno mestre da manipulação, este pequeno mestre, gigante na sua inconsciente sabedoria, um minúsculo mestre que não conheceu a minha Avó M.O. e que, no entanto, cumpre rigorosamente o que ela nos repetia (recorda-me neste momento a minha irmã por sms, enviando-me as palavras da nossa Avó, fazendo suas as palavras dela para mas dar a mim), enquanto nos coçava as costas com as suas unhas compridas, arredondadas nas pontas, pintadas com verniz rosa pálido nacarado: "Gosto tanto de ti que, se soubesses, abusavas".


A minha Avó M.O. com 8 anos.
Benguela, 1924.

Eu gosto tanto do M. que ele sabe e abusa. O meu amor por ele é uma enorme coisa, uma coisa mesmo, com densidade corporal, um corpo mesmo, que às vezes se mete entre nós de tão descaradamente visível, palpável. O M. finta esse corpo e chega então ao meu, muito mais pequeno e vulnerável. Hoje de manhã foi para o marcar com os dentes. Não lhe apetecia mudar a fralda, uma fralda que já rastejava pelo chão de tão cheia, parecia uma cauda redonda e branca, uma espécie de animal de estimação que o seguia para todo o lado. Há uma semana, outra mordidela deixou-me com uma nódoa negra e um pequeno inchaço durante dias. E eu pergunto-me, pergunto ao P.: "Ele quer realmente magoar-nos?". Tentamos tudo: "Nós não mordemos, damos beijinhos" e beijamos-lhe a cara, os braços; "Nós não batemos, damos festinhas" e passamos-lhe as mãos pela cara, os braços... Tentamos também cantar, dançar, distraí-lo, mostrar-lhe um livro, um carrinho, ir à rua passear, em suma, ajudá-lo a libertar os demónios. Deixamos que, com os nossos, seja o zodíaco lidar, espalhando pela família que "ele é escorpião com ascendente em touro, os dois signos mais teimosos do zodíaco." Está explicado. Podemos dormir melhor. Nem por isso. Os estalos regressam. E as mordidelas. "Ele quer realmente magoar-nos?", de novo. E experimentamos pô-lo de castigo. Parece-nos que não percebe a punição. Vamos buscá-lo ao castigo. E levamos outro estalo. "Manel, ai, ai, não se faz isso. Isso faz dói-dói à mamã, ao papá. Não, não, não, não, não." Ele ri-se, repete "ai, ai, ai", não liga nenhuma ao discurso e vai à vida dele, a cantar na sua "alegre inconsciência".

Hoje de manhã, eu fiquei furiosa, berrei porque me doeu, mas ignorei. Mudei-lhe a fralda, numa espécie de luta entre mim, o M. e o gigantesco corpo que é o meu amor por ele e que por ali andava, meio zonzo, aos trambolhões. O M. seguiu com o P. para a creche e eu sentei-me à frente do computador a trabalhar. Recebi um boletim da Dodot. Anunciava-me que o M. já tem 19 meses. Sim, eu sei. Os boletins da Dodot e do Baby Center são uma espécie de Deus: aliam factos e sabedoria. E auxiliam-nos nos momentos de desespero, como se ouvissem de facto as nossas preces. No fundo, sem pedir nada em troca, a não ser que lhes continuemos fiéis, oferecem-nos palavras e sábios conselhos, alguns em código, tal e qual como numa homilia, tentando assim fornecer-nos semanalmente os instrumentos que nos vão permitir manter viva a esperança de um dia nos tornarmos melhores pessoas. Comunicava-me, então, a Dodot esta manhã: "O seu bebé já tem 19 meses". E acrescentava, prometendo: "Tem um bebé com temperamento difícil? Pouco a pouco, conseguirá acalmá-lo." Foi alívio, senhores, o que senti. Puro alívio. E segui para a secção de auto-ajuda, "Como ajudar os bebés agressivos?", um pouco contrariada e chocada com o adjectivo usado, "agressivo? o meu anjo é agressivo? então mas não é apenas um caso de temperamento difícil, temperamento difícil e superável? agressivo, o meu anjo?".




Eis então as respostas. Que eu já tinha lido nos manuais, que eu já tinha ouvido ao pediatra e às educadoras, que eu intuitivamente já sabia, mas que precisava de ouvir esta manhã:

"Não se surpreendam se, de repente, o vosso amistoso bebé começar a bater nas pessoas. Muitas crianças desta idade começam a comunicar os seus sentimentos sob a forma física."

O meu amistoso bebé. O meu amistoso bebé daqui a pouco regressa da creche. Vai dar-me um abraço e um beijo quando me vir chegar ao jardim do colégio. Depois, vai começar a exigir pão. Passaremos pela padaria. Se não houver o pão integral que lhe dou, vai gritar "pão! pão! pão!". Vou dar-lhe uma bolacha. E se calhar vou receber uma chapada, um valente estalo, como quem atira de modo abrutalhado: "Mas foi isso que eu pedi?!" 

Tentarei a via dos patos, do triciclo. Há-de esquecer a bolacha. E eu o estalo. De qualquer forma, vou deixar a casa pronta para o receber com livros. Fica sempre muito intrigado quando lhe mostro um livro novo. Hoje, recebi dois e, no momento em que abri os envelopes que o carteiro me passou para a mão, logo, logo aí, esqueci a mordidela matinal, ansiosa que fiquei por partilhá-los com o meu amistoso bebé. Ainda por cima, o meu amistoso bebé adora dizer "nariz". E um dos livros é uma adaptação do genial O Nariz, de Gogol. O texto é, pois, uma obra-prima, daquelas coisas que "digam o que disserem, (...) acontecem - raramente, admito, mas acontecem..." E as ilustrações, de Evelina Oliveira, relacionam-se com o texto como o nariz do major Kovalyov se relacionou com o seu rosto quando a ele voltou, instalando-se intacto no sítio devido depois de se ter andado a passear.


O Nariz, de Nikolai Gogol,
il. de Evelina Oliveira, ed. Barca do Inferno.



O outro livro que me enviaram, Desencontros, de Jimmy Liao, não sendo ainda para a idade do M., vai deixá-lo muito feliz. Basta olhar para a capa: duas bicicletas. 

Desencontros, de Jimmy Liao,
ed. Kalandraka.

Lá dentro, há imensas coisas para descobrir. Por exemplo, dias de céu limpo em que ela e ele, ao saírem de casa, viram para lados opostos. 



Não li ainda o livro todo, mas o facto de abrir com uma citação de Wislawa Szymborska dá-me uma vontade imediata de abraçar o livro e fugir algures para um dia de Novembro em que "À meia.noite, a fria luz da Lua atinge de azul um canto da varanda.":




Estão ambos convencidos
de que uma súbita paixão os uniu.
É bela essa certeza mas a incerteza
é ainda mais bela.

Eis-me de novo com a minha Avó: "Gosto tanto de ti que, se soubesses, abusavas." Se soubesses. A incerteza. Tão bela. 

Belos são também aqueles que sabiamente desconfiam dela. Como esta menina, apanhada por Brandon, responsável pelo incrível e inesgotável Humans of New York.

Imagem retirada daqui.
"Do you know what you want to be when you grow up?"
"A person."

Desconfio de que o M., se falasse, se soubesse, responderia assim. PIM!