terça-feira, 8 de julho de 2014

Mãe, não sei bem o que é, mas julgo que é paixão.


Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.
A bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas-de-pau.
Mesma a volúpia de chutar
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
 São vôos de estátuas súbitas,
 desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
o jogador, gravado no ar
— afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade.


- Carlos Drummond de Andrade




Cadeira Bebé Confort. T-shirt Zippy. Calças Indikidual na Loja Dada.
Ténis Bobux na Organii Bebé.



"Duas bolas, Pai!" 
Mas a bola é a mesma. Sempre a mesma. PIM!

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Bem aplicado.

Quando o M. nasceu, um amigo meu ofereceu-lhe um brinquedo da Fisher-Price dentro do qual é possível enfiar o iPhone para que os bebés possam mexer no telemóvel com mais facilidade e menos danos. A Capa Apptivity é uma espécie de gadget para a infância.




Eu e o P. gostámos imenso do presente. Achámos uma excelente ideia, apesar de os nossos (ingénuos) planos serem outros. Agradecemos muito, trouxemos o gadget para casa e comentámos (ingenuamente): "Quando o deixarmos mexer nos telemóveis já não vai precisar de capas." O brinquedo serviria como espelho, como chocalho; dava para explorar com as mãos, para morder, enfim, para as brincadeiras típicas de um bebé de 3, 4, 5, 6 meses. Nunca para aceder a aplicações, nunca! (Ingénuos!) Se a criança não vê televisão (excepto os jogos do Benfica), também não vai nunca mexer nos telemóveis, julgávamos nós (nós, os ingénuos).

A névoa de ingenuidade que pairava sobre nós (nós, os ingénuos) começou a dissipar-se quando fizemos uma longa viagem de carro. O M. nunca teve o hábito de chorar muito. E sempre dormiu bem. Seria de esperar que, ao entrar no carro depois do almoço, adormecesse imediatamente. Não. O M. ficava desesperado dentro do carro. Era a única situação em que berrava sem parar. Fazíamos de tudo para o entreter: este brinquedo e mais o outro e ainda o outro; os popós por que íamos passando; as canções, as palminhas, as caretas e os estalos de língua; as bolachas, a fruta e a água; os "ssshhh, sshhhh, sshhh, sshhh, ssshhh" intermináveis, a mão dada e as festinhas. Nada o calava. Até que eu (eu, a ingénua já desesperada) me lembrei de que tinha instalado uma aplicação da Fisher-Price no iPad, uma das sugeridas na embalagem da Capa Apptivity. (Menos ingénua,) comuniquei ao P.: "Vou pô-lo a ver uma app. Tem 10 meses. Um gangue de bonecos fofos não o vai matar. Nem viciar." Liguei o iPad. Seleccionei o quadradinho Giggle Gang, começaram a sair gargalhadinhas do meu iPad, ao mesmo tempo que saltavam no ecrã os tais bonecos fofos, membros do muito temido (por nós, ingénuos) gangue das gargalhadas. O M. calou-se. Conforme ia tocando no iPad, surgiam mais bonecos e mais risinhos e mais bonecos e mais risinhos. Ria-se também. Riu-se durante uns minutos. Observou durante outros tantos. Esteve calado meia-hora. E isso bastou para repor os nossos níveis de serenidade. 



Ficámos completamente tranquilos quando percebemos que o M. não tinha cedido às influências dos membros do gangue: não estava viciado, não pedia para mexer no iPad, nada. Eu, no entanto, cada vez menos ingénua, cada vez mais viciada, descarreguei outras aplicações. Contactámos o gangue novamente, na viagem de regresso. E só numa outra crise - clássica -, a da sopa (Mafaldinha, sua péssima influência!), voltámos a recorrer à tecnologia. Descobrimos então que, com um ano e meio, o M. já não queria saber de gargalhadinhas encantadoras de bonecos fofos. Ria-se e ri-se com eles, mas está muito mais interessado em bichos. E "popós". E no Lobo Mau. E em moscas. Aqui fica o nosso Top 10 - desordenado, atenção! Tudo depende do dia, da hora e da actividade a que a app está a dar assistência.




Para perder o medo dos monstros. E aprender a amá-los. Para apreciar a arte de superar obstáculos (à imaginação). E a incrível arte de virar páginas. Disto, sim, não mais nos livraremos. Estamos realmente viciados. Sobretudo eu, há que reconhecer... O M. ainda não compreende o que lhe é pedido, nem o que lhe é dito, mas chora a rir com o modo de falar do Gualter.




Da parceria entre a editora Pato Lógico (mais sobre esta casa aqui) e a Biodroid, nasceram as Snap Stories, inauguradas com Incómodo (comentários sobre o livro aqui). As três aplicações sublinham o lado lúdico dos livros do André Letria: multiplicam-se as caras - humanas e estrambólicas - a grande velocidade; mantém-se enigmático e indecifrável o voo da mosca... 


O coração e a garrafa, de Oliver Jeffers (booktrailer aqui), em versão interactiva. Ou, cá em casa, em versão "a m'nina num tá!". De novo: a incrível arte de virar páginas aliada à arte de superar obstáculos à imaginação, de os adivinhar para imaginar mais.

4. Three Little Pigs e Little Red Riding Hood

Os clássicos desenrolam-se no ecrã do iPad ou do iPhone segundo as versões (very british) da maravilhosa Nosy Crow e as opções que vamos tomando para que a história siga o(s) seu(s) caminho(s). Ainda não chegámos à Cinderela. Primeiro temos que resolver o nosso fascínio pelo Lobo Mau (que é bom e vive no Jardim da Estrela).


Filha exemplar da Moonbot (Studios e Books), esta app nasceu da muito premiada curta homónima e está a meio caminho entre o livro e o filme. Podemos ouvir a história (bela voz a que acompanha a versão em inglês), podemos (des)regular a sua intensidade. Como não morrer de amores por Morris Lessmore, se ele ama palavras, histórias, livros?... Como resistir a interferir no seu mundo, a virá-lo do avesso? Seja em que suporte for, eis um belo conto sobre a passagem do tempo, sobre a memória, sobre a importância dos livros e o seu modo sereno de superar a morte.

O M. à conversa com o Senhor Lessmore.
Body Zippy.

6. Mini Zoo

Uma criação perfeita da Fox & Sheep: do modo simples como permite "mexer", moldar, transformar os desenhos à música. O M. adora. Pudera. Pode mexer em bichos: no coelho, no cão salsicha, no veado, no peixe, no elefante, no leão, no crocodilo... Uma festa. Ainda por cima, hilariante. Experimentem só tocar no pescoço da girafa para verem o que acontece...




As nossas aliadas no combate ao grito de guerra "sopa não!". É mau, mas isto de ser mãe e pai não é uma sequência de cenários belos e politicamente correctos. Confesso que nem me sinto assim tão culpada... Sobretudo quando fito, triunfante, o prato de sopa vazio. Real Animals ensina, em inglês, os nomes dos bichos, para além de revelar que sons fazem e como se comportam. Tem a vantagem de não ser meramente descritivo porque, com dois toques, os animais fazem coisas extraordinárias e inesperadas. Tal como gostamos. Já os carrinhos animados, os "popós! popós! vrummm, vrruuummm! mota!", limitam-se a fazer o M. feliz. E isso é o suficiente. (Por agora.)


Outra aplicação da Fox & Sheep. Tem versão em português do Brasil. Por enquanto, o que interessa ao M. é apagar as luzes da quinta, deixar tudo preparado para que os animais durmam em paz e sossego ("Sshhh, Mãe, bich ó-ó"). Se precisássemos de ajuda a pô-lo na cama, esta aplicação seria uma hipótese. 


Belos puzzles para todas as idades. Digo eu, que não raras vezes fico com o telefone nas mãos a compor bichos, esquecendo-me de que o "brinquedo" não é para mim...

10. Finger Drums

Pura diversão. Já não somos ingénuos. Nem sempre precisamos de muito mais do que isso. PIM!

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Rumo na vida. Um beijo, um beijo.

Um dia partimos em digressão com o Sérgio Godinho. Eu, o M., o P. e outros amigos-família, como o JP e a F.. Não foi bem assim, mas quase. Estivemos com o Sérgio numa só paragem: o Funchal. Tínhamos ido para o meio do mar para podermos participar no Festival Literário da Madeira e apresentar lá o meu livro A Habitação de Jonas. O M. estava a meio caminho entre os 4 e os 5 meses e não o consegui deixar. Nem podia: ainda estava a amamentar. Passava os dias entre as conversas do festival e os passeios com o M. e o P.; passava as noites entre os jantares e os concertos do festival e os sonhos do M. e do P., que ficavam no quarto do hotel, à minha espera. 

Um dos melhores momentos dessa edição do FLM foi o concerto que o Sérgio Godinho deu no Teatro Municipal Baltazar Dias. Bem sei que estava há meses e meses sem pôr os pés num concerto e que tal facto pode ter tido influência no modo como senti todas aquelas canções, naquele belíssimo palco, com aquele incrível intérprete, que não envelhece, está cada mais jovem, mais generoso. Pareceu-me perfeito. 

No fim do concerto, o Sérgio, que à hora das refeições tinha as suas conversas com o M., comentou comigo: "Estive mesmo para dedicar 'O primeiro gomo da tangerina' ao Manel, mas a canção fala da menina, a minha filha, não podia ser." Ficou a intenção dele e a minha promessa de um dia, quando o M. começasse a achar graça às meninas, pôr "O primeiro gomo da tangerina" a tocar na grafonola cá de casa.




Promessa cumprida. Ouvimos e lemos. O M. conhece a menina, chama por ela. A menina que a Madalena Matoso desenhou e que é toda ela "sumo na vida", "rumo na vida", "um beijo", dois, três, mil... A menina tem tempo, tem os cabelos ao vento, tem "um 'popó'!!!", anuncia o M..





O primeiro gomo da tangerina, de Madalena Matoso e Sérgio Godinho. 
Ed. Planeta Tangerina (as imagens são do site da editora).


Agora, quem conseguir espreitar pelas nossas janelas, cá para dentro, lá fora vai estando tudo na mesma, achamos nós, que calçámos os nossos sapatos mais confortáveis e pusemo-nos a dançar. Descalçámo-los depois para conseguirmos acompanhar a menina. Para conseguirmos acompanhar o Sérgio, que vai cantando várias vezes a canção, enquanto o M. circula pela casa, aperfeiçoando a sua dança-pêndulo e chamando, bem alto, a "m'nina". Já começou a descobrir os encantos da "m'nina", da palavra "m'nina", do som da palavra "m'nina", que é sempre por onde tudo começa. PIM!

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Crónicas contemporâneas.

Regresso a dois livros recebidos há uns dias e já aqui mencionados, mas apenas em imagens. Esses dois livros são filhos do irrequieto Pato Lógico, a editora do André Letria. Bem sei que quase todas as semanas me refiro a esta casa. Como não? É uma editora irrequieta, que publica a bom ritmo; é uma editora que não deixou de me enviar livros quando terminou o Câmara Clara, ou seja, uma casa onde trabalha gente que compreende que, apesar de eu só ter neste momento um blogue para falar de livros, não deixei de ser jornalista; é uma editora que aposta em autores nacionais e, que querem?, tenho um fraco por portugueses; e o essencial: é uma editora que publica livros muito bons. Não teria que apontar razões para escrever sobre o que me vai apetecendo (a mim e ao M.); porém, é bom fazê-lo de vez em quando, antecipando eventuais comentários de quem só ocasionalmente se lembra de que afinal sou jornalista e "meu deus, que escândalo, está sempre a citar os mesmos"...

Os livros muito bons que tenho hoje diante de mim e que me têm ocupado a mim e ao M. nos últimos dias são Vazio, da Catarina Sobral, e Capital, do Afonso Cruz



Ambos pertencem à colecção "Imagens que contam", dedicada a - diz-se no site do Pato Lógico - "ilustradores contadores de histórias". Por considerar que uma ilustração contém sempre em si a possibilidade de uma história, talvez me pareça redundante a expressão, sendo que tanto a Catarina, como o Afonso são ilustradores e escritores. O que importa, contudo, reter é que estes livros dispensam as palavras para construírem uma narrativa.

Não será um acaso o facto de o André Letria andar a publicar os livros aos pares. Recordo-me de, nos primórdios do Pato Lógico, terem saído os maravilhosos, desafiantes e poéticos Incómodo e Destino, livros-desdobráveis do próprio André. 



Imagens retiradas do site do Pato Lógico.
Os meus exemplares estão na estante do quarto do M. e, 
à hora a que escrevo este post, está o rapaz entregue à sesta. 
Não lhe causarei incómodo algum.

Foram também esses os tempos dos volumes De Caras e Estrambólicos, que estou ansiosa por mostrar ao M.. Tanto quanto estou receosa: é fácil arrancar páginas ou pedaços delas...



De Caras e Estrambólicos
textos de José Jorge Letria e ilustrações de André Letria.

Gostei tanto das primeiras aventuras do Pato Lógico (em rigor, a primeira foi Domingo vamos à Luz, pela qual nutro - obviamente - especial carinho) que, estando então a meu cargo a função de editora do Diário Câmara Clara, pedi à Filipa Leal uma peça sobre estes quatro livros. Nela, o André revelou a sua vontade, os seus objectivos, ao criar a editora: "Aquilo que me interessa é poder explorar novas formas de trabalhar o que faço como ilustrador e, ao mesmo tempo, tentar perceber e aprender este caminho novo que os livros estão a tomar."

Em breve, a propósito das chamadas apps e porque o M. está a ficar fã de várias, voltarei a Incómodo, livro adaptado para uma plataforma digital em parceria com a Biodroid. Está na App Store e é gratuito (viva! viva!). Só precisam de aprender a lidar com uma mosca... (Entretanto, ficaram também disponíveis, por apenas 1,79€, De Caras e Estrambólicos).

Como seria de esperar, rapidamente se cruzaram outros autores nestes novos caminhos do André Letria enquanto editor. Por exemplo: Ricardo Henriques, responsável pelos textos do muito premiado e vasto Mar; André da Loba e Marta Monteiro em livros que saíram ao mesmo tempo, que o M. adora e aos quais me dediquei aqui; e agora Afonso Cruz e Catarina Sobral em duas crónicas contemporâneas que se, por um lado, lançam um olhar crítico sobre os nossos dias, por outro, considerando o modo como estão estruturados e desenhados, salvam-nos de sermos devorados por eles, os dias, pela sua velocidade gananciosa. Fazem-no, no entanto, de modos diferentes. O Afonso expõe-nos directamente à ameaça, coloca-nos dentro da grande e insaciável boca do monstro, mostra-nos como podem ser afiados os dentes de um porco-mealheiro sobrealimentado, isto é, do capital acumulado, adorado, tratado melhor que gente. 



A história parece-me perfeita, simulando uma estrutura narrativa clássica que tanto nos transporta para um romance do século XIX, como para um filme mudo. Afirmo-o também por conseguir reunir, em poucos desenhos, momentos que emocionam e apelam aos afectos (que beleza este instante em que rapaz e porco-mealheiro se fitam, nas margens das páginas) 



e outros que chocam e afligem (a grávida na passadeira rolante, rumo à boca do lobo, desculpem, do porco). 



O M. ficou indignado com esta fábula contemporânea. "É isto que me espera, Mãe? Maaãããããeeeeeeee, é isto? Então prefiro um pato." Rendeu-se, todavia, logo a seguir. Não conseguiu resistir a(o) Capital, a ir espreitá-lo, só para ver como funciona.



Suspirei de alívio quando percebi que o que mais lhe interessava era o sono do capitalista enquanto jovem, enquanto menino ainda sem consciência. Exclamava: "Shhhhhhh Ó-ó. M'nino ó-ó." Sim, filho, o sono dos justos.

Sublinho ainda outro aspecto, maravilhoso, deste livro, o do jogo das transparências, através do qual são sobrepostos padrões, formas, ampliando as possibilidades de leitura, a possibilidade de nos demorarmos nos desenhos. 



Se o Afonso Cruz fosse rapaz de erguer morais em vez de as questionar, daqui talvez pudéssemos retirar um grito de guerra: "Camaradas, notem bem: o capital é uma herança." Tremo: já ofereci um mealheiro ao M.. Julgo, no entanto, que estou safa. É um tijolo. Muito leve.


Mealheiro Lego.


E Vazio, da Catarina Sobral? Sendo também um retrato destes dias em que nos vemos entalados (ou enlatados) - ai, o tempo, ai, a vida moderna, que, aliás, já apareciam, como temas ou motivos, noutros títulos da autora; recorde-se, por exemplo, o recente O Meu Avô -, o que a Catarina nos oferece é a redenção, preenchendo o espaço vazio de um homem com o pequeno músculo que simbolicamente lhe/nos permite chegar (abraçar, gostar, amar) ao outro. O livro é belíssimo; todo ele cheio de pormenores - da capa à contracapa, passando pelas imagens repetidas nas guardas, que evoluem da mera figura geométrica para a figura humana, a figura de um coração humano. E pelo meio? Pelo meio, a história de um homem que passa, que vai passando - pelo espelho, pela rua, pelo consultório médico, pelo supermercado, pelo jardim, pela exposição, pela chuva... - até se cruzar com uma mulher (e quem "ler" que esteja atento ao que essa mulher leva nas mãos). O homem em quem nada permanecia, o homem que só por uns instantes conseguia guardar dentro de si aquilo e aqueles por quem passava, fica finalmente cheio de tudo aquilo de que precisa. Tudo aquilo de que precisa deixa-lhe, claro, espaço para mais. Belo, belo, belo. Chamei-lhe crónica contemporânea, não foi? Esqueçam. É um poema.




No resto, deparamo-nos com aquilo a que a Catarina nos tem habituado: o melhor da ilustração destes tais dias que correm. E de outros, parece-me que é justo arriscar: dos que já passaram e dos que estão para vir. Casas de paredes direitas, desenhadas de um modo que supostamente até eu conseguiria desenhar não fossem os apontamentos gráficos, a combinação de traços, padrões e cores, para além do bom uso da imaginação e da liberdade, que nos obriga a recordar o modo como desenhávamos na infância, sem limites, sem restrições, sem formatos... Dizia eu: casas de paredes direitas aliadas a figuras, como pássaros, carrinhos e árvores quase toscos de tão redondos, perfeitos no seu modo único de lembrar a imperfeição. Escusado será afirmar que foi com os carros, os "popós! popós!", que a Catarina conquistou o M.. O homem vazio tem agora mais um coração: o do meu filho. PIM!



terça-feira, 1 de julho de 2014

Querer muito # 6. De barco. No Pinhal.

Arranca hoje mais uma edição do Pinhal das Artes. Os primeiros dias são para creches e jardins de infância; no fim-de-semana, a festa abre-se a famílias. Infelizmente, não vamos conseguir juntar-nos. Temos outras festas e outras actividades em Lisboa. (É sempre demasiado difícil sair desta cidade...) Mas temos também muitos amigos em S. Pedro de Moel que andarão por lá aos pinotes. "Andar por lá aos pinotes" implica pisar a caruma do pinhal, saltar por cima de troncos gigantes, fazer piqueniques, ver, ao fim da tarde, a luz descer por entre os pinheiros... E visitar todas as tendas do Pinhal das Artes; a programação está disponível aqui

Há uns tempos, escrevi um poema para os meus amigos de S. Pedro de Moel. Também por causa deles (e, sim, meus amigos, há que lembrar aquelas festas épicas cuja descrição, de tão longa, mais longa do que as árvores, nunca caberia neste blogue...) é que o pinhal é para mim tão especial.

São mais longas as árvores que os caminhos
à noite, na estrada da mata.
São, de todas, as mais longas árvores,
as da estrada que liga, pela mata,
São Pedro de Moel à cidade
onde homens fazem vidro, moldes,
e eu fiz amigos: vidros, moldes
desta vida de reparar em árvores
longas e caminhos.

São tão longas as árvores da mata
que as ouço à noite comentar como
são longas, tão longas como
os amigos, as raízes por debaixo do asfalto
abrandando os passos, os caminhos.

Devagar amo estas árvores e os amigos
e às vezes depressa, meu amor,
que me trouxeste estas árvores, estes amigos.

Por ti, como por eles, travo a fundo
na zona da raiz:
onde mais perto me alongo,
obediente às árvores,
longa longa longa até onde
me levam os amigos.


Em Lisboa, andamos ocupados a planear uma festa para o M.. Curiosamente, vai ser a caminho de S. Pedro de Moel (mais uma prova de que inevitavelmente muitos dos nossos caminhos vão lá dar), no Casal da Eira Branca, que já é também um dos nossos lugares. Tenho passado parte dos meus dias a tratar da decoração da festa. Queria muito espalhar pelo Casal da Eira Branca uma dezena de barcos destes, descobertos no maravilhoso Sisters Guild e criados por Lorena Canals e Eva Newton:




Já me conformei com a ideia de que essa viagem de barco não vai ser possível, mas, por tanto sonhar com ela, dei por mim a navegar até às paragens distantes dos meus 5, 6 anos. Estou ao colo do meu Avô Z.. Ele fuma, enquanto me faz um barquinho de papel. Eu assisto, muito atenta, sem conseguir decifrar todos os movimentos das mãos dele. Doze anos a observá-lo a construir-me barquinhos de papel e nunca aprendi a fazer um. Ficava demasiado concentrada nos dedos dele, focava-me naqueles dedos que seguravam o cigarro e ao mesmo tempo extraíam do papel um barco perfeito, sem o queimar. Fixava-me nos movimentos das mãos, incapaz de os decorar. Talvez por intuir que determinadas coisas pertencem a determinadas pessoas. E por secretamente desejar que o meu Avô Z. me fizesse barcos de papel ao longo de toda a vida. De certo modo, ele adivinhou-me: ao longo de toda a sua vida, encheu a nossa casa de barquinhos de papel. A minha vida continua agora sem esses barcos. Ainda não aprendi a fazê-los. Tentei há dias, rodeada de vozes: "É tão fácil! Como não consegues? Não há nada mais simples." Escusei-me a apontar as razões da minha falta de jeito, até porque não seria esse o caso: tendo crescido numa casa de mulheres, o meu lado despachado e prático levou-me a assumir as funções normalmente atribuídas aos homens, como mudar lâmpadas, pendurar quadros, arranjar vídeos, televisores, aparelhagens, walkmen, gira-discos, enfim, todo o tipo de electrodomésticos, carregar malas, subir aos armários, etc, etc. A família inteira sabe que eu tenho jeito. Excepto para fazer barquinhos de papel. Como fazê-los, se na rua onde cresci havia um mágico que brincava com papéis e encantava todos os miúdos, os daquela rua, os das ruas paralelas a ela, os das ruas perpendiculares a ela? Esse mágico era o meu Avô, que surge nuns versos de um poema incluído no meu livro As Coisas (ed. Abysmo)


As coisas ocas

Mais uma vez quebrei a promessa
num dia em que provavelmente me bateste.
Faltas de educação não toleravas nunca. Mas adolescentes
são bichos que desconhecem o fim e o princípio
das coisas. Prometi-te: não odeio ninguém. As feridas
(no coração, na razão) têm causas geralmente humanas,
coisas de que me arrependo. Como daquela vez
em que te atirei à cara a inversão da ordem genealógica da família.
Íamos de carro, a gata a precisar de pontos, eu duvidando da condução.
Adolescentes: bichos esquisitos. A culpa não os come
por dentro; abandona-os: coisas ocas. E um nome.
Por dentro, há um dia de árvores altas
onde vivemos: um coração olha-nos de fora
como se não nos pertencesse e o seu lugar fosse
o de um boneco trocado por namorados no São Valentim.
Daqui de longe parece-me ter pernas. Pendem-lhe do banco
onde um dia te disse que eras o mágico da rua: papéis
voavam-te dos dedos ao alcançarem a ponta das unhas.

Desse lugar avistei a infância, desse lugar
por onde agora corre um caminho que teima:
o coração é fraco, não resiste se o partilhamos
como deformação congénita. É desse tamanho
o buraco no peito.


Temo que um dia seja o M. a exclamar, à minha volta: "É tão fácil! Como não consegues fazer um barco de papel?! Nada mais simples!". Nesse momento, terei que lhe mostrar estas fotografias, terei que chamar reforços:






Pouco acrescentarei. Apenas: "Tinhas tu pouco mais de um ano e meio e passei eu semanas a construir bonecos de papel para a tua festa. Como não te lembras?!" Omitirei obviamente o facto de serem bonecos de papel com construção assistida. Ficarei eternamente grata à Mibo, inventora destes bichos terapêuticos.




Com estas escassas informações e mais uma dezena de fotografias, talvez consiga convencer o M. a assumir ele a função de encher a casa de barquinhos de papel. O Avô Z. ia gostar. Eu também. Afinal, é isto que eu quero muito. PIM!

segunda-feira, 30 de junho de 2014

"kid-chaos playtime"

Um post rápido. Só porque estou a aprender com a Tierney Gearon a focar-me numa família, a concentrar-me naquilo a que ela chama "kid-chaos playtime". Amanhã voltarei - com mais tempo e mais caos. Por agora, eis dois dos projectos desta fotógrafa americana


Foto retirada daqui.

e o mais recente The Alphabet Book.



"Is that for real?!", pergunta às tantas uma voz de criança. Eis tudo o que (me) interessa. PIM!