terça-feira, 27 de maio de 2014

É devagar, é devagar, devagar, devagarinho ("se você não acredita você pode tropeçar").

Há aquele samba do Martinho da Vila que, em ritmo acelerado, apela a um certo abrandamento do tempo. Eu não sou de sambas; o M., a avaliar pelo modo como se pôs a abanar a bundinha assim que ouviu este, talvez seja. De qualquer modo, somos ambos de contradições: crescemos em ritmo acelerado (ele está a crescer em ritmo acelerado; eu já cheguei a esse lugar onde se detém o crescimento, e cheguei rapidamente), recorrendo, contudo e amiúde, a estratégias de abrandamento do tempo - as manhãs de mimos na cama, os momentos em que, sentados no sofá, imitamos as gargalhadas um do outro, tentando ser o eco um do outro, os outros instantes em que nos estendemos no chão a olhar para o tecto... Fazemos pausas várias vezes, costume que me devolveu aqueles longos dias das férias grandes em que tinha tempo para ficar uma tarde inteira a andar à roda, à roda, à roda, os braços esticados na horizontal, até o corpo cair na sala de estar da casa dos meus avós. Uma vez, duas vezes, três vezes, cem vezes... Era a minha brincadeira em modo slow (houve outras mais tarde, nas festas da cave em que dançávamos slows com os miúdos giros do prédio até nos passarem a vassoura para as mãos; quando o M. chegar à adolescência, escreverei mais sobre o assunto).

É também devagar que se pede hoje que brinquem as crianças. Até há um movimento, o Slow Toy Movement. Pode ler-se mais sobre ele aqui. E aqui. Gosto dos brinquedos que venceram os prémios para melhores "slow toys" em 2013. Eis o meu preferido dos eleitos nesse universo que recusa o plástico e o barulho: 

Comboio "around the world" Bigjigs Toys

Passando os olhos pelo que trouxe de Paris para o M., confirmo que me ando a portar bem. Não levantam a voz nem abusam do plástico os presentes do meu filho. Talvez apenas as T-shirts da GAP, mas essas, a desrespeitar alguma coisa, seria o Slow Fashion Movement, ou seja, outro departamento da lentidão. Para além disso, não conseguiríamos nunca mais fitar as nossas consciências nos olhos se tivéssemos abandonado este papa-formigas nas ruas solitárias de Paris.

T-shirt GAP Kids

E é óbvio que tivemos que ceder ao mundo dos veículos clássicos. Como abandonar no meio do trânsito parisiense este VW Bus T2 com prancha de surf? 




Carrinho Welly. Casaco de malha Zara
Jeans Levi's. Ténis Bobux na Organii Bebé.


Tirando isso, fomos perfeitos na nossa lentidão. Livros e mais livros. Que agora lemos e vemos página a página. Desenho a desenho. Palavra a palavra. E com os quais brincamos.





The Meditating Cat - A Zen Colouring Book; ed. Tate (Tenho esperança de que seja uma preciosa ajuda durante as birras...)




Un Abécédaire, de Nelly Blumenthal (edição do Centre Pompidou; com imagens de obras do acervo do museu)


Une Animalerie, de Nelly Blumenthal (edição do Centre Pompidou; com imagens de obras do acervo do museu)



E, como eu tinha prometido às estantes cá de casa, a Up Kids com desenhos da Catarina Sobral



Com brinde e tudo: a caixinha de lápis da TAP. Ai, a maravilha de um brinde; e esse indizível conforto que é recebê-lo a não sei quantos mil metros de altitude. PIM!

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Paris dos Pequenitos III. O regresso.

"I am unpacking (...)". Regresso ao texto com que parti. Que é como quem diz: regresso a casa -  aos meus livros, à minha almofada e, acima de tudo, aos beijos e às gargalhadas do M.. Mal aterrámos, liguei à minha mãe para saber onde andavam. Estava barulho do outro lado da linha: "Onde estão?". A minha mãe respondeu: "Estamos a votar." O M. nem sequer sabe o que é votar, apesar de já saber escolher; ontem foi duas vezes às urnas: uma com a Avó, outra com o Pai e com a Mãe, que chegaram a Lisboa a tempo - de votar, não de evitar todas aquelas desgraças... Sobre isso não falarei aqui; aqui partilho as boas surpresas. Como a que me fez ontem a minha mãe: levou o M. ao aeroporto e estavam ambos à nossa espera. Uma festa, com o M. a saltar de colo em colo, anunciando ao mundo: "Mina Mamã, mi Papá!". Em França, celebrou-se ontem o Dia da Mãe. Parece que a minha adivinhou. Trouxe-nos a casa, poupando-nos mais esperas em mais filas. Chegámos cansados de Paris. 




De corações intactos, mas cansados.



Será ridículo - como uma carta de amor - discordar dos que têm a certeza de que Paris é uma das mais bonitas cidades do mundo. No entanto, Paris consome quem não tem a sua medida, quem não tem a sua escala. Por isso, Paris consumiu-nos. É tão ridiculamente bela quanto é ridiculamente cara. E ridiculamente cansativa. Não lhe falta nada: tem os melhores museus, as melhores exposições, as melhores livrarias, os melhores vinhos, os melhores doces, os melhores restaurantes, as melhores lojas, os melhores passeios, as melhores vistas, os melhores monumentos, os melhores jardins... Mas tem demasiadas pessoas, multidões sequiosas de consumo rápido: dos melhores museus, das melhores exposições, das melhores livrarias, dos melhores vinhos, dos melhores doces, dos melhores restaurantes, das melhores lojas, dos melhores passeios, das melhores vistas, dos melhores monumentos, dos melhores jardins... 

Há, contudo, dentro dessa Paris, outra cidade que é possível visitar e por onde é possível circular. Desde que seja a pé. Ou de bicicleta (mas chovia). Ou de metro. O trânsito parisiense é um inferno tão grande que fiquei com saudades do túnel do Campo Pequeno à hora de ponta. É possível, por exemplo, ir ao Centre Pompidou e ver tranquilamente as exposições. Ou ao Grand Palais. É também possível deambular pelos bairros de Marais e do Canal de Saint Martin, onde belas e numerosas famílias se passeiam, mãe a empurrar carrinho com recém-nascido, pai com um filho ao colo e outro pela mão, filhos mais velhos à frente, de skate e trotinete. É ali que se desenrola, em modo blasé, a novíssima vie en rose... Nesses bairros, há livrarias onde nos deixam manusear livros página a página, onde os vinhos são da casa e são bons, onde os doces, com ingredientes bio, nos sabem pela vida, onde jovens designers vendem as suas roupas em "boutiques ephémères" (tive a sorte - e o P. o azar - de apanhar esta) e "concept stores", etcétera, etcétera...

Recordando os dias em Paris, parece-me que não houve, nesses bairros, um único sítio onde não tenhamos visto crianças. Porque há parques e zonas com pouco trânsito, sim; e porque há lojas como as que descrevi aqui. A essas somam-se outras. Como a insuperável Bonton, de onde não queria sair: salas e mais salas cheias de pequenas maravilhas.
















    

   





Enquanto isso, nas dantescas Galeries Lafayette, onde passámos duas horas aterrorizantes (é mesmo verdade: queríamos comprar T-shirts da GAP para os miúdos), filas e filas de chineses davam a volta aos quarteirões. Ponto de partida: a Chanel, a Hermès e a Longchamp. Coisa semelhante, só em Macau. Cada consumidor tinha em cada braço duas ou três carteiras penduradas. E todos os consumidores se empurravam uns aos outros para chegarem a mais duas ou três. Iam-se embrulhando, pelo meio, em lenços de seda. Pisavam-se para pagarem depressa, mais depressa, cada vez mais depressa, e poderem seguir ainda mais depressa para o próximo balcão. Louis Vuitton, cuidado: eles dirigiam-se para aí e estavam a comer McDonald's. 

Regresso agora ao unpacking. Partilharei amanhã o que nos saiu dos bolsos para nos caber nas malas. Partilharei depois o que aprendi sobre Cartier-Bresson e a infância. E até sobre a infância de Mapplethorpe. Será mais uma semana parisiense. Afinal, com amores e ódios, quem, de entre os que lá estiveram, deixou realmente Paris? PIM!