quinta-feira, 26 de junho de 2014

Dentro da linha. Dentro de Eva. Dentro de bichos, nomes e frutos. Em suma: dentro da imaginação. E do tempo.

Faço compras online: compras de supermercado, compras de sapatos, compras de material escolar, compras de presentes, compras de roupa, compras de capas de telemóveis, compras de electrodomésticos, compras de colares, pulseiras, fios, anéis, compras de brinquedos, compras de bilhetes, compras de livros. Neste último caso, há que explicar que o faço sobretudo nos sites das próprias editoras ou em livrarias como a Letra Livre, por onde depois passo para levantar (e aumentar) a encomenda. À Amazon, por exemplo, resisto; tem um tamanho que intimida o meu pijama. Também compro pijamas online. Porque gosto muito de pijamas e de ir às compras - online - de pijama, sem sentir que alguém, algures, está a espiar-me, tirando notas relativas ao facto de ter falhado a combinação da parte de cima do pijama com a parte de baixo, sem sentir que alguém, algures, está a controlar o cesto das compras, a compará-lo com o saldo da minha conta bancária. Declarei recentemente o meu amor aos pijamas neste vídeo em que leio uma crónica do Nuno Costa Santos, incluída no livro Vou emigrar para o meu país:




Devo confessar que gosto ainda mais de fazer compras do que de pijamas. Prática, aliás, igualmente condenada pelos que dormem atirando os ares, em ritmo inspiratório-expiratório muito bem marcado, para um certo extremo do lado esquerdo. Lamento que haja quem despreze a experiência de estar confortavelmente instalado em flanela clicando ora no detergente para a roupa, ora nuns brincos Dior (quero estes). Perguntam-me as minhas amigas por que razão não quero eu sair de casa para ir às lojas. Por prezar o meu sossego, por detestar experimentar roupa em lugares exíguos por onde passam dezenas de pessoas, por 80% do meu corpo ser uma toca de bicho-do-mato, por existir online muito mais do que nas lojas, por haver sempre nos sites gigantescas secções outlet e artigos em promoção e artigos raros e artigos de todos os tamanhos. Perguntam-me as minhas amigas como é que acerto nos tamanhos. Muita experiência, muito olho e alguma dose de risco. Perguntam-me as minhas amigas se alguma vez tive problemas, se as coisas não corresponderam às expectativas. Em relação ao detergente para a roupa, tal pode ter acontecido. A nódoa ficou lá. No entanto, o shopaholic moderado (aquele que valoriza o sossego que é passar horas nas lojas online sem sair do sofá da sala, onde a única música autorizada é aquela que o próprio escolhe, onde não existem atropelamentos, nem cabides, nem balcões, nem filas de espera, nem empregados com humores variáveis) sabe que, mesmo que aqueles jeans comprados em 2003 tenham ficado ligeiramente largos, só a alegria de os ter recebido de pijama e de mãos estendidas para as mãos do meu fiel carteiro compensa qualquer excesso de tecido. 

É evidente que às vezes vou às lojas. Sobretudo quando estou fora de Portugal. E não tenho horários. Nem ando a correr. Por cá, gosto, por exemplo, de ir à Ler Devagar, na Lx Factory, por onde não passava há algum tempo, demasiado. Fui lá ontem para assistir à peça A Inexistência de Eva, com texto da minha boa amiga Filipa Leal e interpretação de outra amiga, a Ana Lopes Gomes, que, nunca desistindo de alcançar o impossível equilíbrio do feminino, partilha com o público o texto integral daquele que é um dos meus livros de poesia preferidos. Editado pela Deriva, que infelizmente suspendeu há dias a sua colecção de poesia, A Inexistência de Eva abre com um aviso: "Este livro foi escrito há muito tempo.". Assim se revela que este livro existiu sempre em quem o escreveu, esteve desde sempre inscrito na mão de quem o escreveu - uma mão de mulher, que conhece e intui a condição do feminino e vai tacteando esse território sempre novo e por descobrir. Para mim, é também um livro sobre a experiência da maternidade, se a tomarmos como experiência de criação - de nomeação, de (re)aprendizagem. 



E é também um livro sobre a infância, sobre a possibilidade de regresso, sobre a possibilidade de aproximação à origem, da sua preservação. Ora "ouçam" (e podem, de facto, ouvir os que forem ver a peça):



O livro começa assim - e é esta mulher que se encontra no palco, a desafiar o equilíbrio, a confirmar se tal coisa existe:



Esta é, pois, a sabedoria:



O único problema que enfrentei na Ler Devagar teve precisamente a ver com a realidade, a parte que aprendi a amar. Deparei-me com ele, com o problema, quando dei de caras com o expositor da literatura infanto-juvenil. Vim para casa carregada: "com o tempo", "estava a pensar" "em todas as coisas", como o "Herberto" (este e o outro, que agora se infiltra sempre, sem nenhum pudor, em todas as conversas...) ou "10 patinhos de borracha".


Estava a pensar..., de Sandol Stoddard e Ivan Chermayeff (ed. Bruaá)


E era em casa que me esperava um envelope da Loja Dada. Aqui ficam mais razões para eu fazer compras online: roupa linda, ilustrada e assim embrulhada. PIM!


Calções com gatos Beau Loves (aqui). Calças Indikidual (aqui e aqui).

terça-feira, 24 de junho de 2014

tão belo como um sim/ numa sala negativa


No dia em que nasceu o filho mais velho de uns dos nossos melhores amigos, eu e o P. estávamos no Porto com o Manuel António Pina. Fizemos uma festa tão grande que o Pina, depois de ter assinado um livro para o recém-nascido, se pôs a contar histórias e a citar poemas. Sugeriu-me: "Envie aos seus amigos um poema do João Cabral de Melo Neto sobre o nascimento". E pôs-se a dizer de cor "Morte e vida severina".

Eu, obediente (costumo obedecer a crianças e poetas), escrevi um mail aos nossos amigos, dirigido ao nosso novo pequeno amigo, sobrinho do coração: "(...) Aqui vai parte dele [do poema], esperando que um dia o leias tu e possas compreender que, apesar de as palavras serem coisas - são mesmo coisas em que pegamos - maravilhosas, não há nenhuma no mundo capaz de dizer o quão ansiosos estamos por te conhecer, te pegar, ser teus amigos incondicionais (...). E, só te tendo visto numa fotografia, já sabemos que és um bebé:


'(...) tão belo como um sim
numa sala negativa.

(...) tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
— Belo porque és uma porta
abrindo-se em mais saídas.
— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
— tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

— Belo porque tens do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

— E belo porque com o novo
todo o velho contagias.
— Belo porque corrompes
com sangue novo a anemia.
— Infeccionas a miséria
com vida nova e sadia.
— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.
(...)
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida.'"



Aprendi, com o Pina, a partilhar este poema com os meus amigos que têm filhos e com os filhos que lhes nascem sempre que pressinto que vem aí gente de "adição infinita", gente a quem serei capaz de obedecer. Hoje, este poema vai para a A.B.P.Q., quatro iniciais a marcar o nome completo de uma menina que vi ontem pela primeira vez numa fotografia, uma menina que pendurou um luminoso "sim" na minha sala negativa. PIM!

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Da linha de cintura ao calcanhar. Ou ao tornozelo.

Ao começar este post, escrevi: "Ontem a derrota foi dura". Depois, apaguei a frase. Ia corrigir: "Ontem o empate foi duro". Para quê, se teve o sabor da derrota, se foi de facto derrota, se vai terminar numa derrota ainda maior? A derrota tem, contudo, um lado luminoso, uma espécie de serenidade capaz de nos empurrar para territórios desconhecidos. Eu, por exemplo, fui ontem conduzida às 2 da manhã para o mundo dos cavalos. Estava a dar na televisão, não sei se no Discovery Channel, se no Canal História, se no National Geographic, um documentário sobre cavalos que tinha uma abordagem curiosa: apontava e explorava as mudanças sociológicas para as quais os cavalos foram determinantes. Uma delas era o uso de calças. As calças, sim, peça de vestuário. Parece que foi na Antiguidade que se compreendeu a importância de um bom par de calças: como podiam os guerreiros combater a cavalo de túnicas e saias? 

Assim me sentia também eu, quando era miúda e assumia outro tipo de missões, daquelas que implicavam algumas lutas e alguma valentia e me preenchiam os dias. Como andar de bicicleta. Ou saltar muros. Ou apanhar ameixas das árvores. A minha mãe, a minha sofisticada e sempre hiper-arranjada mãe, queria que eu usasse vestidos românticos, com bordado inglês, e sapatos com fivela, ligeiramente quadrados à frente. 

A minha mãe.

Eu queria as minhas botas de carneira ou os meus ténis Le Coq Sportif azuis - feios em qualquer época e em qualquer parte do mundo - e aquelas calças de xadrez que combinavam com pouca coisa, nunca com uns ténis desportivos azuis, ou as outras calças de bombazine castanha, muito fininha e confortável. Negociávamos: ia de calças, mas a camisa tinha golinha (perdoa-me, minha T-shirt clássica do Snoopy, nem sempre venci). Às vezes, conseguia ganhar o jogo à minha mãe pela via da exaustão. Há provas disso: num retrato, apareço, muito direita e determinada, de vestido romântico conjugado com umas botas de carneira que me cobrem as pernas até aos joelhos; ao meu lado, a minha irmã e a minha mãe, lindas nas suas toilettes, impecáveis da cabeça aos pés.



A alegria dos Le Coq Sportif. O sofrimento dos vestidos de golas.


Não consigo determinar a origem da minha paixão por calças: pode ter nascido do facto de eu ter sido sempre uma guerreira da infância; pode ter sido uma herança de família. É que eu, para além de ter tido - e de ter - uma mãe sofisticada, tive a avó mais elegante do mundo. Não havia - nem há - ninguém que ficasse tão bem de calças como a minha Avó F.. Usava-as largas, com sandálias tipo plataforma; ou muito justas, acima do tornozelo (tinha umas amarelas maravilhosas), com uns stilettos coloridos e improváveis. Herdei muitas delas. E uso-as a toda a hora. Fazem parte da minha colecção de calças. Recordo-me de um dia me terem perguntado, num inquérito de jornal, qual a minha peça de roupa preferida. Respondi o óbvio: "As minhas calças - de todos os géneros, tecidos e feitios."

Ora, se percorrer hoje imagens das divas que marcaram a minha infância, noto que usam todas vestido. Dou três exemplos claríssimos:





Talvez a minha avó fosse, afinal, a minha única diva...

Tanta conversa, tantas recordações, apenas porque ontem, antes da derrota e do documentário sobre cavalos, quando fui buscar o M. a casa da minha mãe, foi-me anunciado um impedimento relacionado com calças: "Já não lhe podes vestir mais estes  jeans. Apertam-lhe muito a barriga, Inês! Não insistas mais." Não insisto. Rendi-me aos factos; ou melhor: ao facto de o meu filho ter uma gigantesca e no entanto apetitosa barriga. Está a testar o perfil para anos vindouros, certamente. À noite, antes do jogo, fui para as lojas, o que, no meu caso, significa pegar no iPad e procurar online novas calças.



Jeans Name It, na Boozt. Os tais que já não servem ao M.


Neste momento, não sabemos ainda que calças escolher. Queremos estas todas.


Jeans Name It (aqui). Jeans Phister & Philina (aqui).
Ambos na Boozt.



Calças Indikidual (aqui e aqui). Ambas na Loja Dadá.


Pormenor importante para mães recentes: verifiquem sempre se a cintura das calças (sobretudo dos jeans) tem elásticos ajustáveis. A tanto a barriga obriga. PIM!

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Gelado, gelado, não vás por aí, por onde vais?

Há dias felizes. Alguns até começam de véspera. Ontem à noite, visitaram-nos uns amigos, o JP e a Is., tios predilectos do M., que não queria ir para a cama nem por nada. Até porque os amigos nos trouxeram estrelas. O M. pôs uma ao peito, quando percebeu que davam para colar, e, na sua dança pendular, cantou o "Brilha, brilha lá no céu a estrelinha...". Ou, em versão manelês, "Bila, bila áááá chéu xtreliná..." 




Para além da centena de estrelas, os nossos amigos trouxeram-nos outros presentes. Uns não são "para" crianças, como a Fotobiografia de Rafael Bordalo Pinheiro (lembrei-me, mal o vi, de que tenho que ir já, já ao Campo Grande, ao Museu Bordalo Pinheiro, comprar o Queres Bordalo?, o único livro do Manuel António Pina que não tenho nas estantes; uma falha...) e Tango, ambos do João Paulo Cotrim, esse tio e amigo Infinitas-Estrelas. 



E, como é costume entre nós, há também presentes "para" crianças. Ou seja: para o M.. E para mim. E para o P.. E para o JP. E para a Is.. Temos todos mais ou menos a mesma idade. A do M.. Seja ela qual for, o importante é que a mais recente UP Kids já habita a nossa casa. É uma "edição especial redondinha" de título "Ora Bolas!" e mote "Não há jogo a sério que não as tenha no lugar do coração". Os desenhos são do André Letria, que gosta de jogos, como se sabe; desenhou bolas e gente de cara redonda, fitando outras bolas e ainda mais bolas. O M. vai adorar, claro, este jogo da multiplicação do "esférico", para citar um termo que os comentadores desportivos equilibram com amor na ponta da língua. 



Esta mesma partida, a do milagre da multiplicação das bolas, estende-se à história que o João Paulo Cotrim conta a páginas tantas da UP Kids: "Cair em todas as direcções". Eis-nos diante de uma bola em discurso directo, uma sábia e caprichosa bola que conhece os seus próprios limites, os das coisas que não têm limite nenhum, os das coisas que não têm "princípio nem fim"; uma bola que assume que se pode "desfazer em círculo"; uma bola que sabe demasiado bem que há gente que, mal a avista - o M., por exemplo -, fica com "o pé a tremer". Não há como enganá-la. Mais vale jogá-la.



Precisámos de 12 horas de sono para gerir serenamente tantas estrelas e presentes. E não podíamos imaginar o que nos esperava logo de manhã. O bom do carteiro trouxe-nos as novidades do Pato LógicoVazio, da Catarina Sobral, e Capital, do Afonso Cruz. Agora, eram as mãos a tremer. Ainda por cima, temos que esperar pelo fim-de-semana para os folhear, para os ver, para os ler (sim, sim, sabemos que não têm palavras, mas mesmo assim conseguimos lê-los). Como vamos aguentar a espera? Não sei. O melhor é andar com o vazio e o capital dentro do saco do M.. Pode ser que haja por aí filas - de trânsito e de gente - e precisemos de imagens para lhes escapar.




A seguir ao carteiro, foi o Facebook que nos mostrou coisas incríveis. Como esta peça de teatro de animação criada pelo André da Loba a partir de uma história de Cristina Bellemo:



Cuidado com a perfeição, Tuttodunpezzo! Não caias nessa armadilha. 

Felizmente, Tuttodunpezzo caiu num buraco que o desarrumou. Hoje parece-me um bom dia para fazer o mesmo. Posso começar por descer as escadas, virar a esquina e comer um gelado na Artisani, destes. Antes do almoço. Contra todas as regras. A culpa é, na verdade, do Tuttodunpezzo, na fase da perfeição absoluta, na fase anterior a ter caído no abismo. Se repararem bem, aos 00'26'' do vídeo, tem um cone de uma bola na mão (até nisso dos gelados se controla...). Mas não só: a culpa é ainda deste TOP TEN da Babyccino Kids, onde figuram sugestões assim:


E talvez a culpa seja também do M.. Ou minha: fui eu que o mandei para a creche com a T-shirt que lhe ofereceu a Avó L. nas férias.

T-shirt Zara (aqui).
Assim mesmo, amarrotada. Tivemos o cuidado de cair no buraco antes de sairmos de casa. PIM!

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Efémera, a da vida eterna. Ou as declinações da morte.

São uma dupla antiga. E regressam com um tema antigo. Daqueles que, em tempos moralistas, se evitaram na presença das criancinhas. A morte. A morte fitada nos olhos e virada desse igualmente incompreensível avesso que é a vida. A morte num livro negro de Eugénio Roda e Gémeo Luís.



Na minha família, sempre se falou da morte. Para nunca desistirmos de duvidar das suas motivações. Não conversar com as crianças sobre o tema é privá-las de compreender a vida, é privá-las de ir além dessa entediante e convencional cronologia do "princípio-meio-fim". Para além disso, houve a morte dos pássaros, a morte dos peixes, a morte do coelho, a morte das gatas, a morte dos cães. Houve a morte do Avô. Que continua a existir - a morte do Avô, a vida do Avô. Como a morte e a vida da Avó. E as da prima F.. E as do outro Avô. E as da Dona E., no princípio do esvaziamento do corpo B da Torre P. E depois as da outra Avó. E logo a seguir as da Babá. Houve todas estas mortes. E todas estas vidas. Se não falássemos delas, só teria havido mortes. Nunca as suas declinações. Como estas, que "Efémera" nos recorda:









Hoje, ao fim da tarde, a morte e a vida - mestres absolutos - servirão uma conversa moderada por Bento Amaral e Vasco Pinto Magalhães, a quem se juntam Eugénio Roda e Gémeo Luís. Às 18h, na Casa das Artes, no Porto.

Quem me dera lá estar. Conheço razoavelmente bem a morte e a vida. Melhor o Gémeo Luís, companheiro de várias histórias e chefe dessa bela família que são as edições eterogémeas. Sobre "Efémera", o livro, escrevi-lhe o seguinte:

«Efémera» é um livro incompleto. Como qualquer vida. Alguém a fecha e, todavia, ela subsiste, iluminada, nesse lugar escuro onde a memória se deixa contaminar pela imaginação. Esta é a grande corrida contra o tempo - onde não há linha de partida, nem meta. Há regresso, retorno, esse pequeno milagre de respirar de novo como quem (sobre)vive dentro da mão que escreve, da mão que desenha. Talvez toda a gente consiga abrir este livro, folheá-lo. Mas só está preparado para conhecer «Efémera» aquele que, depois de aprender no coração a morte, decora o caminho onde não se perde, só se partilha.

PIM!

terça-feira, 17 de junho de 2014

Gosto tanto de ti que, se soubesses, abusavas.

Eu hoje não acordei assim.



Mas por volta das 9 da manhã estava assim.

Assim, como a foto toscamente ilustra e para o que aqui importa, equivale a ter no braço marcados oito dos dez dentes do M.. 

O meu filho é um anjo. É lindo de morrer. Tem um sorriso incrível. Até quando está de trombas e nos faz imaginar ainda mais intensamente o seu sorriso. Está quase todo o tempo feliz, na sua "alegre inconsciência", qual ceifeira que "canta como se tivesse/ Mais razões pra cantar que a vida". Com a sua interminável energia, canta, sim, e dança, corre, sobe as escadas e vai atirando beijos e chamando por nós e nomeando as suas coisas preferidas: "papá, mamã, vó, vô, tita, pavão, cão, gato, popó, mina mamã, pai, mãe, pai, mãe, pai, mãe, mina mamã...".  Antes de isto tudo acontecer, excepto a parte do ser lindo porque é-o desde o primeiro minuto, "que bebé tão bonito, que giro, é mesmo giro" foram as primeiras palavras da minha obstetra assim que o tirou de dentro de mim, antes disto tudo acontecer, foi um recém-nascido perfeito: com um mês e meio, começou a dormir toda a noite, 8, 10, 12 horas, sempre comeu bem, nunca adoeceu (só depois de ter feito 1 ano), se chorava era por estar realmente qualquer coisa errada, qualquer coisa a causar-lhe desconforto, não fazia birras, deixou a chupeta por iniciativa própria...




Agora, o meu anjo morde. E dá estalos valentes na cara das pessoas. E nas pernas. Até nas pernas dos móveis. Mesas de jantar, mesas de apoio, cadeiras, sofás, camas, nada escapa à sua mão pesada. Eu e o P. somos aprendizes na arte de lidar com este pequeno mestre da manipulação, este pequeno mestre, gigante na sua inconsciente sabedoria, um minúsculo mestre que não conheceu a minha Avó M.O. e que, no entanto, cumpre rigorosamente o que ela nos repetia (recorda-me neste momento a minha irmã por sms, enviando-me as palavras da nossa Avó, fazendo suas as palavras dela para mas dar a mim), enquanto nos coçava as costas com as suas unhas compridas, arredondadas nas pontas, pintadas com verniz rosa pálido nacarado: "Gosto tanto de ti que, se soubesses, abusavas".


A minha Avó M.O. com 8 anos.
Benguela, 1924.

Eu gosto tanto do M. que ele sabe e abusa. O meu amor por ele é uma enorme coisa, uma coisa mesmo, com densidade corporal, um corpo mesmo, que às vezes se mete entre nós de tão descaradamente visível, palpável. O M. finta esse corpo e chega então ao meu, muito mais pequeno e vulnerável. Hoje de manhã foi para o marcar com os dentes. Não lhe apetecia mudar a fralda, uma fralda que já rastejava pelo chão de tão cheia, parecia uma cauda redonda e branca, uma espécie de animal de estimação que o seguia para todo o lado. Há uma semana, outra mordidela deixou-me com uma nódoa negra e um pequeno inchaço durante dias. E eu pergunto-me, pergunto ao P.: "Ele quer realmente magoar-nos?". Tentamos tudo: "Nós não mordemos, damos beijinhos" e beijamos-lhe a cara, os braços; "Nós não batemos, damos festinhas" e passamos-lhe as mãos pela cara, os braços... Tentamos também cantar, dançar, distraí-lo, mostrar-lhe um livro, um carrinho, ir à rua passear, em suma, ajudá-lo a libertar os demónios. Deixamos que, com os nossos, seja o zodíaco lidar, espalhando pela família que "ele é escorpião com ascendente em touro, os dois signos mais teimosos do zodíaco." Está explicado. Podemos dormir melhor. Nem por isso. Os estalos regressam. E as mordidelas. "Ele quer realmente magoar-nos?", de novo. E experimentamos pô-lo de castigo. Parece-nos que não percebe a punição. Vamos buscá-lo ao castigo. E levamos outro estalo. "Manel, ai, ai, não se faz isso. Isso faz dói-dói à mamã, ao papá. Não, não, não, não, não." Ele ri-se, repete "ai, ai, ai", não liga nenhuma ao discurso e vai à vida dele, a cantar na sua "alegre inconsciência".

Hoje de manhã, eu fiquei furiosa, berrei porque me doeu, mas ignorei. Mudei-lhe a fralda, numa espécie de luta entre mim, o M. e o gigantesco corpo que é o meu amor por ele e que por ali andava, meio zonzo, aos trambolhões. O M. seguiu com o P. para a creche e eu sentei-me à frente do computador a trabalhar. Recebi um boletim da Dodot. Anunciava-me que o M. já tem 19 meses. Sim, eu sei. Os boletins da Dodot e do Baby Center são uma espécie de Deus: aliam factos e sabedoria. E auxiliam-nos nos momentos de desespero, como se ouvissem de facto as nossas preces. No fundo, sem pedir nada em troca, a não ser que lhes continuemos fiéis, oferecem-nos palavras e sábios conselhos, alguns em código, tal e qual como numa homilia, tentando assim fornecer-nos semanalmente os instrumentos que nos vão permitir manter viva a esperança de um dia nos tornarmos melhores pessoas. Comunicava-me, então, a Dodot esta manhã: "O seu bebé já tem 19 meses". E acrescentava, prometendo: "Tem um bebé com temperamento difícil? Pouco a pouco, conseguirá acalmá-lo." Foi alívio, senhores, o que senti. Puro alívio. E segui para a secção de auto-ajuda, "Como ajudar os bebés agressivos?", um pouco contrariada e chocada com o adjectivo usado, "agressivo? o meu anjo é agressivo? então mas não é apenas um caso de temperamento difícil, temperamento difícil e superável? agressivo, o meu anjo?".




Eis então as respostas. Que eu já tinha lido nos manuais, que eu já tinha ouvido ao pediatra e às educadoras, que eu intuitivamente já sabia, mas que precisava de ouvir esta manhã:

"Não se surpreendam se, de repente, o vosso amistoso bebé começar a bater nas pessoas. Muitas crianças desta idade começam a comunicar os seus sentimentos sob a forma física."

O meu amistoso bebé. O meu amistoso bebé daqui a pouco regressa da creche. Vai dar-me um abraço e um beijo quando me vir chegar ao jardim do colégio. Depois, vai começar a exigir pão. Passaremos pela padaria. Se não houver o pão integral que lhe dou, vai gritar "pão! pão! pão!". Vou dar-lhe uma bolacha. E se calhar vou receber uma chapada, um valente estalo, como quem atira de modo abrutalhado: "Mas foi isso que eu pedi?!" 

Tentarei a via dos patos, do triciclo. Há-de esquecer a bolacha. E eu o estalo. De qualquer forma, vou deixar a casa pronta para o receber com livros. Fica sempre muito intrigado quando lhe mostro um livro novo. Hoje, recebi dois e, no momento em que abri os envelopes que o carteiro me passou para a mão, logo, logo aí, esqueci a mordidela matinal, ansiosa que fiquei por partilhá-los com o meu amistoso bebé. Ainda por cima, o meu amistoso bebé adora dizer "nariz". E um dos livros é uma adaptação do genial O Nariz, de Gogol. O texto é, pois, uma obra-prima, daquelas coisas que "digam o que disserem, (...) acontecem - raramente, admito, mas acontecem..." E as ilustrações, de Evelina Oliveira, relacionam-se com o texto como o nariz do major Kovalyov se relacionou com o seu rosto quando a ele voltou, instalando-se intacto no sítio devido depois de se ter andado a passear.


O Nariz, de Nikolai Gogol,
il. de Evelina Oliveira, ed. Barca do Inferno.



O outro livro que me enviaram, Desencontros, de Jimmy Liao, não sendo ainda para a idade do M., vai deixá-lo muito feliz. Basta olhar para a capa: duas bicicletas. 

Desencontros, de Jimmy Liao,
ed. Kalandraka.

Lá dentro, há imensas coisas para descobrir. Por exemplo, dias de céu limpo em que ela e ele, ao saírem de casa, viram para lados opostos. 



Não li ainda o livro todo, mas o facto de abrir com uma citação de Wislawa Szymborska dá-me uma vontade imediata de abraçar o livro e fugir algures para um dia de Novembro em que "À meia.noite, a fria luz da Lua atinge de azul um canto da varanda.":




Estão ambos convencidos
de que uma súbita paixão os uniu.
É bela essa certeza mas a incerteza
é ainda mais bela.

Eis-me de novo com a minha Avó: "Gosto tanto de ti que, se soubesses, abusavas." Se soubesses. A incerteza. Tão bela. 

Belos são também aqueles que sabiamente desconfiam dela. Como esta menina, apanhada por Brandon, responsável pelo incrível e inesgotável Humans of New York.

Imagem retirada daqui.
"Do you know what you want to be when you grow up?"
"A person."

Desconfio de que o M., se falasse, se soubesse, responderia assim. PIM!