terça-feira, 1 de julho de 2014

Querer muito # 6. De barco. No Pinhal.

Arranca hoje mais uma edição do Pinhal das Artes. Os primeiros dias são para creches e jardins de infância; no fim-de-semana, a festa abre-se a famílias. Infelizmente, não vamos conseguir juntar-nos. Temos outras festas e outras actividades em Lisboa. (É sempre demasiado difícil sair desta cidade...) Mas temos também muitos amigos em S. Pedro de Moel que andarão por lá aos pinotes. "Andar por lá aos pinotes" implica pisar a caruma do pinhal, saltar por cima de troncos gigantes, fazer piqueniques, ver, ao fim da tarde, a luz descer por entre os pinheiros... E visitar todas as tendas do Pinhal das Artes; a programação está disponível aqui

Há uns tempos, escrevi um poema para os meus amigos de S. Pedro de Moel. Também por causa deles (e, sim, meus amigos, há que lembrar aquelas festas épicas cuja descrição, de tão longa, mais longa do que as árvores, nunca caberia neste blogue...) é que o pinhal é para mim tão especial.

São mais longas as árvores que os caminhos
à noite, na estrada da mata.
São, de todas, as mais longas árvores,
as da estrada que liga, pela mata,
São Pedro de Moel à cidade
onde homens fazem vidro, moldes,
e eu fiz amigos: vidros, moldes
desta vida de reparar em árvores
longas e caminhos.

São tão longas as árvores da mata
que as ouço à noite comentar como
são longas, tão longas como
os amigos, as raízes por debaixo do asfalto
abrandando os passos, os caminhos.

Devagar amo estas árvores e os amigos
e às vezes depressa, meu amor,
que me trouxeste estas árvores, estes amigos.

Por ti, como por eles, travo a fundo
na zona da raiz:
onde mais perto me alongo,
obediente às árvores,
longa longa longa até onde
me levam os amigos.


Em Lisboa, andamos ocupados a planear uma festa para o M.. Curiosamente, vai ser a caminho de S. Pedro de Moel (mais uma prova de que inevitavelmente muitos dos nossos caminhos vão lá dar), no Casal da Eira Branca, que já é também um dos nossos lugares. Tenho passado parte dos meus dias a tratar da decoração da festa. Queria muito espalhar pelo Casal da Eira Branca uma dezena de barcos destes, descobertos no maravilhoso Sisters Guild e criados por Lorena Canals e Eva Newton:




Já me conformei com a ideia de que essa viagem de barco não vai ser possível, mas, por tanto sonhar com ela, dei por mim a navegar até às paragens distantes dos meus 5, 6 anos. Estou ao colo do meu Avô Z.. Ele fuma, enquanto me faz um barquinho de papel. Eu assisto, muito atenta, sem conseguir decifrar todos os movimentos das mãos dele. Doze anos a observá-lo a construir-me barquinhos de papel e nunca aprendi a fazer um. Ficava demasiado concentrada nos dedos dele, focava-me naqueles dedos que seguravam o cigarro e ao mesmo tempo extraíam do papel um barco perfeito, sem o queimar. Fixava-me nos movimentos das mãos, incapaz de os decorar. Talvez por intuir que determinadas coisas pertencem a determinadas pessoas. E por secretamente desejar que o meu Avô Z. me fizesse barcos de papel ao longo de toda a vida. De certo modo, ele adivinhou-me: ao longo de toda a sua vida, encheu a nossa casa de barquinhos de papel. A minha vida continua agora sem esses barcos. Ainda não aprendi a fazê-los. Tentei há dias, rodeada de vozes: "É tão fácil! Como não consegues? Não há nada mais simples." Escusei-me a apontar as razões da minha falta de jeito, até porque não seria esse o caso: tendo crescido numa casa de mulheres, o meu lado despachado e prático levou-me a assumir as funções normalmente atribuídas aos homens, como mudar lâmpadas, pendurar quadros, arranjar vídeos, televisores, aparelhagens, walkmen, gira-discos, enfim, todo o tipo de electrodomésticos, carregar malas, subir aos armários, etc, etc. A família inteira sabe que eu tenho jeito. Excepto para fazer barquinhos de papel. Como fazê-los, se na rua onde cresci havia um mágico que brincava com papéis e encantava todos os miúdos, os daquela rua, os das ruas paralelas a ela, os das ruas perpendiculares a ela? Esse mágico era o meu Avô, que surge nuns versos de um poema incluído no meu livro As Coisas (ed. Abysmo)


As coisas ocas

Mais uma vez quebrei a promessa
num dia em que provavelmente me bateste.
Faltas de educação não toleravas nunca. Mas adolescentes
são bichos que desconhecem o fim e o princípio
das coisas. Prometi-te: não odeio ninguém. As feridas
(no coração, na razão) têm causas geralmente humanas,
coisas de que me arrependo. Como daquela vez
em que te atirei à cara a inversão da ordem genealógica da família.
Íamos de carro, a gata a precisar de pontos, eu duvidando da condução.
Adolescentes: bichos esquisitos. A culpa não os come
por dentro; abandona-os: coisas ocas. E um nome.
Por dentro, há um dia de árvores altas
onde vivemos: um coração olha-nos de fora
como se não nos pertencesse e o seu lugar fosse
o de um boneco trocado por namorados no São Valentim.
Daqui de longe parece-me ter pernas. Pendem-lhe do banco
onde um dia te disse que eras o mágico da rua: papéis
voavam-te dos dedos ao alcançarem a ponta das unhas.

Desse lugar avistei a infância, desse lugar
por onde agora corre um caminho que teima:
o coração é fraco, não resiste se o partilhamos
como deformação congénita. É desse tamanho
o buraco no peito.


Temo que um dia seja o M. a exclamar, à minha volta: "É tão fácil! Como não consegues fazer um barco de papel?! Nada mais simples!". Nesse momento, terei que lhe mostrar estas fotografias, terei que chamar reforços:






Pouco acrescentarei. Apenas: "Tinhas tu pouco mais de um ano e meio e passei eu semanas a construir bonecos de papel para a tua festa. Como não te lembras?!" Omitirei obviamente o facto de serem bonecos de papel com construção assistida. Ficarei eternamente grata à Mibo, inventora destes bichos terapêuticos.




Com estas escassas informações e mais uma dezena de fotografias, talvez consiga convencer o M. a assumir ele a função de encher a casa de barquinhos de papel. O Avô Z. ia gostar. Eu também. Afinal, é isto que eu quero muito. PIM!

segunda-feira, 30 de junho de 2014

"kid-chaos playtime"

Um post rápido. Só porque estou a aprender com a Tierney Gearon a focar-me numa família, a concentrar-me naquilo a que ela chama "kid-chaos playtime". Amanhã voltarei - com mais tempo e mais caos. Por agora, eis dois dos projectos desta fotógrafa americana


Foto retirada daqui.

e o mais recente The Alphabet Book.



"Is that for real?!", pergunta às tantas uma voz de criança. Eis tudo o que (me) interessa. PIM!

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Enormes lacunas entre amigos.

As estantes cá de casa são bem frequentadas. Pelas palavras e pelas imagens que as habitam. E, por maioria de razão, pelas mãos que escreveram e desenharam as palavras e as imagens que as habitam. Há que acrescentar as mãos que lêem essas palavras, que vêem, demorando-se, essas imagens - mãos que puxam os livros das estantes e os vão passeando por outras casas, por outros móveis, por outras cidades, de metro, de carro, de comboio, de avião... 

Por vezes, essas mãos sofrem. Julgam que determinado livro está em determinado sítio. Procuram-no uma vez, duas, três, insistem num só lugar por terem a certeza de ser aí a habitação desse livro. Insistem. Insistem. E voltam a insistir. Desconfiam da possibilidade da ausência. Passados dias, o livro aparece dentro de um saco de viagem. Ou no minúsculo espaço que, na cama, separa a cabeceira do colchão. Talvez alguns livros gostem de se esconder para sublinhar, em quem os está a ler, a dependência. Pode ser crueldade. Ou insegurança. Ou vingança (se me sublinhas, também te posso sublinhar). Dependerá do (peso e do feitio do) nome que carregam na capa. 

Noutros casos, as mãos sofrem por pertencerem a um corpo onde existe uma cabeça que imagina que determinado livro está em determinado sítio. É a situação que, neste momento, enfrentam as minhas mãos: elas pertencem a um corpo onde existe uma cabeça que, por ter lido algures (às portas de outra cidade ou de outra estante?) um determinado livro, imaginou que esse determinado livro habitava a estante do quarto do M.. As minhas mãos andam há dois dias a sofrer. E, apesar de desconfiarem de uns olhos que pertencem a uma cabeça que pouco mais sabe fazer do que imaginar, resolveram pedir-lhes ajuda, aos meus olhos, disseram-lhes: passem com atenção, não se distraiam, fixem-se nos títulos, passem por eles com calma, passem pelos títulos das estantes onde estão alinhados os livros de autores cujos nomes começam por O. e por G.. O de Ondjaki. G de Gonçalves, António Jorge


Dois dias não tanto armadas em detectives, mas em espiãs, estas minhas mãos. E nada. Uma Escuridão Bonita não vive cá em casa. Só mesmo na minha cabeça, onde há uns tempos os meus olhos e as minhas mãos ajudaram a que a conhecesse, a essa história delicada e emocionante, que, enquanto lemos - cada letra um ponto luminoso no negro da página, cada ponto luminoso uma possibilidade a abrir-se -, desejamos que seja só nossa e, por isso, desejamos lê-la num sítio escuro, de difícil acesso, para podermos assim secretamente desejar vivê-la, para podermos assim revivê-la o mais próximo possível do momento em que realmente a vivemos. E aproximamo-nos cada vez mais, como num sonho; quase, quase, quase conseguimos integrar-nos, pele e carne, nessa "escuridão bonita". Está lá escrito: "Empresta-me os teus lábios". Quem o pede sabe que o caso não é de empréstimo, é de dádiva. O mesmo se passa à volta do livro, no exterior da história, na história em torno da história: Ondjaki e António Jorge Gonçalves não emprestam este volume negro aos leitores, eles oferecem-no. 







Eu folheei o livro (onde?), eu observei as imagens (onde?), eu andei para trás e para a frente neste bela escuridão (onde?), eu fixei aqueles olhos-pontos-luminosos a páginas tantas (onde?), eu sentei-me e li a história (onde?), eu deixei que da cabeça a história chegasse ao coração (onde?), eu trouxe a história comigo (de onde?), eu caminhei com ela até aqui, até agora. E falo hoje deste livro que devia estar nas minhas estantes - sabem-no as minhas mãos, os meus olhos, a minha cabeça, o meu coração - por estar há dois dias à procura dele. Foi há dois dias que o Prémio Nacional de Ilustração foi atribuído ao António Jorge Gonçalves pelo seu trabalho nesta obra.

(Houve duas menções especiais, que também nos deixaram felizes: uma para o João Fazenda, pelos desenhos criados para O pai mais horrível do mundo, de João Miguel Tavares; outra para a Yara Kono, pelas ilustrações de Uma Onda Pequenina, com texto de Isabel Minhós Martins. Parabéns a ambos!)

Muitos parabéns, António! Sou tua fã, tu sabes, e por isso vais perdoar-me esta saída repentina, havia ainda muito a acrescentar, eu sei, contudo, não me posso alongar mais, vou ter que sair. Tenho mesmo que sair. Deixa-me só dizer-te que, se encostares bem o ouvido a esta "página", talvez consigas ouvir o M. cantar-te os parabéns, não perde uma oportunidade, sobretudo quando é merecido. Agora, vou sair a correr, tenho que ir depressa a uma livraria. PIM!

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Dentro da linha. Dentro de Eva. Dentro de bichos, nomes e frutos. Em suma: dentro da imaginação. E do tempo.

Faço compras online: compras de supermercado, compras de sapatos, compras de material escolar, compras de presentes, compras de roupa, compras de capas de telemóveis, compras de electrodomésticos, compras de colares, pulseiras, fios, anéis, compras de brinquedos, compras de bilhetes, compras de livros. Neste último caso, há que explicar que o faço sobretudo nos sites das próprias editoras ou em livrarias como a Letra Livre, por onde depois passo para levantar (e aumentar) a encomenda. À Amazon, por exemplo, resisto; tem um tamanho que intimida o meu pijama. Também compro pijamas online. Porque gosto muito de pijamas e de ir às compras - online - de pijama, sem sentir que alguém, algures, está a espiar-me, tirando notas relativas ao facto de ter falhado a combinação da parte de cima do pijama com a parte de baixo, sem sentir que alguém, algures, está a controlar o cesto das compras, a compará-lo com o saldo da minha conta bancária. Declarei recentemente o meu amor aos pijamas neste vídeo em que leio uma crónica do Nuno Costa Santos, incluída no livro Vou emigrar para o meu país:




Devo confessar que gosto ainda mais de fazer compras do que de pijamas. Prática, aliás, igualmente condenada pelos que dormem atirando os ares, em ritmo inspiratório-expiratório muito bem marcado, para um certo extremo do lado esquerdo. Lamento que haja quem despreze a experiência de estar confortavelmente instalado em flanela clicando ora no detergente para a roupa, ora nuns brincos Dior (quero estes). Perguntam-me as minhas amigas por que razão não quero eu sair de casa para ir às lojas. Por prezar o meu sossego, por detestar experimentar roupa em lugares exíguos por onde passam dezenas de pessoas, por 80% do meu corpo ser uma toca de bicho-do-mato, por existir online muito mais do que nas lojas, por haver sempre nos sites gigantescas secções outlet e artigos em promoção e artigos raros e artigos de todos os tamanhos. Perguntam-me as minhas amigas como é que acerto nos tamanhos. Muita experiência, muito olho e alguma dose de risco. Perguntam-me as minhas amigas se alguma vez tive problemas, se as coisas não corresponderam às expectativas. Em relação ao detergente para a roupa, tal pode ter acontecido. A nódoa ficou lá. No entanto, o shopaholic moderado (aquele que valoriza o sossego que é passar horas nas lojas online sem sair do sofá da sala, onde a única música autorizada é aquela que o próprio escolhe, onde não existem atropelamentos, nem cabides, nem balcões, nem filas de espera, nem empregados com humores variáveis) sabe que, mesmo que aqueles jeans comprados em 2003 tenham ficado ligeiramente largos, só a alegria de os ter recebido de pijama e de mãos estendidas para as mãos do meu fiel carteiro compensa qualquer excesso de tecido. 

É evidente que às vezes vou às lojas. Sobretudo quando estou fora de Portugal. E não tenho horários. Nem ando a correr. Por cá, gosto, por exemplo, de ir à Ler Devagar, na Lx Factory, por onde não passava há algum tempo, demasiado. Fui lá ontem para assistir à peça A Inexistência de Eva, com texto da minha boa amiga Filipa Leal e interpretação de outra amiga, a Ana Lopes Gomes, que, nunca desistindo de alcançar o impossível equilíbrio do feminino, partilha com o público o texto integral daquele que é um dos meus livros de poesia preferidos. Editado pela Deriva, que infelizmente suspendeu há dias a sua colecção de poesia, A Inexistência de Eva abre com um aviso: "Este livro foi escrito há muito tempo.". Assim se revela que este livro existiu sempre em quem o escreveu, esteve desde sempre inscrito na mão de quem o escreveu - uma mão de mulher, que conhece e intui a condição do feminino e vai tacteando esse território sempre novo e por descobrir. Para mim, é também um livro sobre a experiência da maternidade, se a tomarmos como experiência de criação - de nomeação, de (re)aprendizagem. 



E é também um livro sobre a infância, sobre a possibilidade de regresso, sobre a possibilidade de aproximação à origem, da sua preservação. Ora "ouçam" (e podem, de facto, ouvir os que forem ver a peça):



O livro começa assim - e é esta mulher que se encontra no palco, a desafiar o equilíbrio, a confirmar se tal coisa existe:



Esta é, pois, a sabedoria:



O único problema que enfrentei na Ler Devagar teve precisamente a ver com a realidade, a parte que aprendi a amar. Deparei-me com ele, com o problema, quando dei de caras com o expositor da literatura infanto-juvenil. Vim para casa carregada: "com o tempo", "estava a pensar" "em todas as coisas", como o "Herberto" (este e o outro, que agora se infiltra sempre, sem nenhum pudor, em todas as conversas...) ou "10 patinhos de borracha".


Estava a pensar..., de Sandol Stoddard e Ivan Chermayeff (ed. Bruaá)


E era em casa que me esperava um envelope da Loja Dada. Aqui ficam mais razões para eu fazer compras online: roupa linda, ilustrada e assim embrulhada. PIM!


Calções com gatos Beau Loves (aqui). Calças Indikidual (aqui e aqui).

terça-feira, 24 de junho de 2014

tão belo como um sim/ numa sala negativa


No dia em que nasceu o filho mais velho de uns dos nossos melhores amigos, eu e o P. estávamos no Porto com o Manuel António Pina. Fizemos uma festa tão grande que o Pina, depois de ter assinado um livro para o recém-nascido, se pôs a contar histórias e a citar poemas. Sugeriu-me: "Envie aos seus amigos um poema do João Cabral de Melo Neto sobre o nascimento". E pôs-se a dizer de cor "Morte e vida severina".

Eu, obediente (costumo obedecer a crianças e poetas), escrevi um mail aos nossos amigos, dirigido ao nosso novo pequeno amigo, sobrinho do coração: "(...) Aqui vai parte dele [do poema], esperando que um dia o leias tu e possas compreender que, apesar de as palavras serem coisas - são mesmo coisas em que pegamos - maravilhosas, não há nenhuma no mundo capaz de dizer o quão ansiosos estamos por te conhecer, te pegar, ser teus amigos incondicionais (...). E, só te tendo visto numa fotografia, já sabemos que és um bebé:


'(...) tão belo como um sim
numa sala negativa.

(...) tão belo como a soca
que o canavial multiplica.
— Belo porque és uma porta
abrindo-se em mais saídas.
— Belo como a última onda
que o fim do mar sempre adia.
— tão belo como as ondas
em sua adição infinita.

— Belo porque tens do novo
a surpresa e a alegria.
— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.

— E belo porque com o novo
todo o velho contagias.
— Belo porque corrompes
com sangue novo a anemia.
— Infeccionas a miséria
com vida nova e sadia.
— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.
(...)
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida.'"



Aprendi, com o Pina, a partilhar este poema com os meus amigos que têm filhos e com os filhos que lhes nascem sempre que pressinto que vem aí gente de "adição infinita", gente a quem serei capaz de obedecer. Hoje, este poema vai para a A.B.P.Q., quatro iniciais a marcar o nome completo de uma menina que vi ontem pela primeira vez numa fotografia, uma menina que pendurou um luminoso "sim" na minha sala negativa. PIM!

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Da linha de cintura ao calcanhar. Ou ao tornozelo.

Ao começar este post, escrevi: "Ontem a derrota foi dura". Depois, apaguei a frase. Ia corrigir: "Ontem o empate foi duro". Para quê, se teve o sabor da derrota, se foi de facto derrota, se vai terminar numa derrota ainda maior? A derrota tem, contudo, um lado luminoso, uma espécie de serenidade capaz de nos empurrar para territórios desconhecidos. Eu, por exemplo, fui ontem conduzida às 2 da manhã para o mundo dos cavalos. Estava a dar na televisão, não sei se no Discovery Channel, se no Canal História, se no National Geographic, um documentário sobre cavalos que tinha uma abordagem curiosa: apontava e explorava as mudanças sociológicas para as quais os cavalos foram determinantes. Uma delas era o uso de calças. As calças, sim, peça de vestuário. Parece que foi na Antiguidade que se compreendeu a importância de um bom par de calças: como podiam os guerreiros combater a cavalo de túnicas e saias? 

Assim me sentia também eu, quando era miúda e assumia outro tipo de missões, daquelas que implicavam algumas lutas e alguma valentia e me preenchiam os dias. Como andar de bicicleta. Ou saltar muros. Ou apanhar ameixas das árvores. A minha mãe, a minha sofisticada e sempre hiper-arranjada mãe, queria que eu usasse vestidos românticos, com bordado inglês, e sapatos com fivela, ligeiramente quadrados à frente. 

A minha mãe.

Eu queria as minhas botas de carneira ou os meus ténis Le Coq Sportif azuis - feios em qualquer época e em qualquer parte do mundo - e aquelas calças de xadrez que combinavam com pouca coisa, nunca com uns ténis desportivos azuis, ou as outras calças de bombazine castanha, muito fininha e confortável. Negociávamos: ia de calças, mas a camisa tinha golinha (perdoa-me, minha T-shirt clássica do Snoopy, nem sempre venci). Às vezes, conseguia ganhar o jogo à minha mãe pela via da exaustão. Há provas disso: num retrato, apareço, muito direita e determinada, de vestido romântico conjugado com umas botas de carneira que me cobrem as pernas até aos joelhos; ao meu lado, a minha irmã e a minha mãe, lindas nas suas toilettes, impecáveis da cabeça aos pés.



A alegria dos Le Coq Sportif. O sofrimento dos vestidos de golas.


Não consigo determinar a origem da minha paixão por calças: pode ter nascido do facto de eu ter sido sempre uma guerreira da infância; pode ter sido uma herança de família. É que eu, para além de ter tido - e de ter - uma mãe sofisticada, tive a avó mais elegante do mundo. Não havia - nem há - ninguém que ficasse tão bem de calças como a minha Avó F.. Usava-as largas, com sandálias tipo plataforma; ou muito justas, acima do tornozelo (tinha umas amarelas maravilhosas), com uns stilettos coloridos e improváveis. Herdei muitas delas. E uso-as a toda a hora. Fazem parte da minha colecção de calças. Recordo-me de um dia me terem perguntado, num inquérito de jornal, qual a minha peça de roupa preferida. Respondi o óbvio: "As minhas calças - de todos os géneros, tecidos e feitios."

Ora, se percorrer hoje imagens das divas que marcaram a minha infância, noto que usam todas vestido. Dou três exemplos claríssimos:





Talvez a minha avó fosse, afinal, a minha única diva...

Tanta conversa, tantas recordações, apenas porque ontem, antes da derrota e do documentário sobre cavalos, quando fui buscar o M. a casa da minha mãe, foi-me anunciado um impedimento relacionado com calças: "Já não lhe podes vestir mais estes  jeans. Apertam-lhe muito a barriga, Inês! Não insistas mais." Não insisto. Rendi-me aos factos; ou melhor: ao facto de o meu filho ter uma gigantesca e no entanto apetitosa barriga. Está a testar o perfil para anos vindouros, certamente. À noite, antes do jogo, fui para as lojas, o que, no meu caso, significa pegar no iPad e procurar online novas calças.



Jeans Name It, na Boozt. Os tais que já não servem ao M.


Neste momento, não sabemos ainda que calças escolher. Queremos estas todas.


Jeans Name It (aqui). Jeans Phister & Philina (aqui).
Ambos na Boozt.



Calças Indikidual (aqui e aqui). Ambas na Loja Dadá.


Pormenor importante para mães recentes: verifiquem sempre se a cintura das calças (sobretudo dos jeans) tem elásticos ajustáveis. A tanto a barriga obriga. PIM!

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Gelado, gelado, não vás por aí, por onde vais?

Há dias felizes. Alguns até começam de véspera. Ontem à noite, visitaram-nos uns amigos, o JP e a Is., tios predilectos do M., que não queria ir para a cama nem por nada. Até porque os amigos nos trouxeram estrelas. O M. pôs uma ao peito, quando percebeu que davam para colar, e, na sua dança pendular, cantou o "Brilha, brilha lá no céu a estrelinha...". Ou, em versão manelês, "Bila, bila áááá chéu xtreliná..." 




Para além da centena de estrelas, os nossos amigos trouxeram-nos outros presentes. Uns não são "para" crianças, como a Fotobiografia de Rafael Bordalo Pinheiro (lembrei-me, mal o vi, de que tenho que ir já, já ao Campo Grande, ao Museu Bordalo Pinheiro, comprar o Queres Bordalo?, o único livro do Manuel António Pina que não tenho nas estantes; uma falha...) e Tango, ambos do João Paulo Cotrim, esse tio e amigo Infinitas-Estrelas. 



E, como é costume entre nós, há também presentes "para" crianças. Ou seja: para o M.. E para mim. E para o P.. E para o JP. E para a Is.. Temos todos mais ou menos a mesma idade. A do M.. Seja ela qual for, o importante é que a mais recente UP Kids já habita a nossa casa. É uma "edição especial redondinha" de título "Ora Bolas!" e mote "Não há jogo a sério que não as tenha no lugar do coração". Os desenhos são do André Letria, que gosta de jogos, como se sabe; desenhou bolas e gente de cara redonda, fitando outras bolas e ainda mais bolas. O M. vai adorar, claro, este jogo da multiplicação do "esférico", para citar um termo que os comentadores desportivos equilibram com amor na ponta da língua. 



Esta mesma partida, a do milagre da multiplicação das bolas, estende-se à história que o João Paulo Cotrim conta a páginas tantas da UP Kids: "Cair em todas as direcções". Eis-nos diante de uma bola em discurso directo, uma sábia e caprichosa bola que conhece os seus próprios limites, os das coisas que não têm limite nenhum, os das coisas que não têm "princípio nem fim"; uma bola que assume que se pode "desfazer em círculo"; uma bola que sabe demasiado bem que há gente que, mal a avista - o M., por exemplo -, fica com "o pé a tremer". Não há como enganá-la. Mais vale jogá-la.



Precisámos de 12 horas de sono para gerir serenamente tantas estrelas e presentes. E não podíamos imaginar o que nos esperava logo de manhã. O bom do carteiro trouxe-nos as novidades do Pato LógicoVazio, da Catarina Sobral, e Capital, do Afonso Cruz. Agora, eram as mãos a tremer. Ainda por cima, temos que esperar pelo fim-de-semana para os folhear, para os ver, para os ler (sim, sim, sabemos que não têm palavras, mas mesmo assim conseguimos lê-los). Como vamos aguentar a espera? Não sei. O melhor é andar com o vazio e o capital dentro do saco do M.. Pode ser que haja por aí filas - de trânsito e de gente - e precisemos de imagens para lhes escapar.




A seguir ao carteiro, foi o Facebook que nos mostrou coisas incríveis. Como esta peça de teatro de animação criada pelo André da Loba a partir de uma história de Cristina Bellemo:



Cuidado com a perfeição, Tuttodunpezzo! Não caias nessa armadilha. 

Felizmente, Tuttodunpezzo caiu num buraco que o desarrumou. Hoje parece-me um bom dia para fazer o mesmo. Posso começar por descer as escadas, virar a esquina e comer um gelado na Artisani, destes. Antes do almoço. Contra todas as regras. A culpa é, na verdade, do Tuttodunpezzo, na fase da perfeição absoluta, na fase anterior a ter caído no abismo. Se repararem bem, aos 00'26'' do vídeo, tem um cone de uma bola na mão (até nisso dos gelados se controla...). Mas não só: a culpa é ainda deste TOP TEN da Babyccino Kids, onde figuram sugestões assim:


E talvez a culpa seja também do M.. Ou minha: fui eu que o mandei para a creche com a T-shirt que lhe ofereceu a Avó L. nas férias.

T-shirt Zara (aqui).
Assim mesmo, amarrotada. Tivemos o cuidado de cair no buraco antes de sairmos de casa. PIM!