quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A árvore que dava olhos que choravam.

Não era exactamente a árvore que chorava. Eram os olhos que a árvore dava que choravam. A árvore era eu, um farrapo de ser humano à porta da creche à qual regressou hoje o M.. Imóvel, como uma árvore no Inverno, se descontarmos a deslocação das lágrimas, o caminho que percorrem do olho à boca, ao queixo. Pouco me importa que me chamem lamechas, que me digam que "preciso de ter outro filho para me deixar de dramas domésticos", que afirmem que "faz parte, é a vida", que "5 minutos depois ficou bem, de certeza", que "tem que se habituar", "não exageres, com tanta coisa má a acontecer pelo mundo, ficas a pensar nisso". 


Meus amigos, notem bem: como contei ontem, eu detesto ratos e houve um que, ainda assim, me conquistou, houve um que me arrancou o coração do peito. Delicadamente, sim, não fosse ele o Frederico, um rato poeta, um rato que despreza os discursos inflamados, moralistas e, no entanto, isentos, destemperados, dos pragmáticos. Esta é a minha natureza, sou desse mundo em que, odiando ratos, se pode amar um único e onde as árvores dão olhos. "Com olhos se vai longe. Desde que estejam abertos, bem abertos". Mesmo que estejam embaciados. Se o meu filho chora quando me vê a mim e ao pai virar costas, eu choro também. Se o mundo inteiro está em ruínas, haver uma criança que chora quando perde os pais de vista é uma hipótese de salvação. De reconstrução. De redenção. De poucos, que são já alguns. Talvez apenas dos que, como a árvore que dava olhos, plantada pelo João Paulo Cotrim e a Maria Keil, na floresta que era "o fundo do quintal" das suas conversas, têm "raízes no coração da terra e ramos que fazem cócegas nas nuvens".



Tal como esta árvore, eu "[d]evia estar calada e quieta, mas não sou capaz". Fiquei quieta uns segundos, quis até voltar para trás. Não podia. Segui caminho, rumo aos afazeres diurnos. Pus-me em movimento com o som do choro do M. nos ouvidos e no coração. Estou a dois quilómetros e duas horas de distância do momento em que fui um farrapo de ser humano à porta da creche à qual regressou hoje o M. e ainda o oiço. "Sou uma árvore no fundo do quintal, não posso ver o que vejo nem falar o que falo.". "Mas não sou capaz.". 



E eis-me em movimento: abro a janela às varejeiras que atravessam a casa de Norte para Sul, do Jardim da Estrela para o Tejo, estendo a roupa, atendo telefonemas, partilho artigos de amigos (e que bom foi ler o primeiro texto da Tia R., a Raquel Martins, na Preguiça Magazine), troco mails, marco almoços... Até que começo a arrumar os livros: "Às vezes parece que oiço a paisagem mandar-me calar." 



A Árvore que dava olhos foi um presente de anos que o João Paulo Cotrim me ofereceu. É uma edição de 2007, da Calendário de Letras, difícil de encontrar. Quase uma raridade (uma autêntica raridade se atendermos à sua beleza: texto e desenhos). Como a árvore que dava olhos. E que não tem medo de nada e sonha pelo tempo e pelo espaço fora. É uma árvore que imagina. E que me deixa a mim a imaginar que ela foi tudo o que desejou, que ela fez tudo o que quis. Por exemplo: "fazer com as raízes um céu debaixo da terra".



Folheio o livro e ainda me ocorre que o M. não percebe por que razão, depois de tantos dias perfeitos, tivemos que o deixar. Ele não faz ideia do que é o tempo, não faz ideia do que é a rotina, do que é a obrigação, do que é um ciclo, do que é um ano, quanto mais um ano lectivo. Ele é anterior a tudo isso. Volto a folhear o livro e começo a imaginar-nos a regressar da creche, eu a contar-lhe que temos um livro para ler, um livro sobre uma árvore que dava olhos e era amiga de gatos, formigas, lagartos, uma árvore que sente e que desafia o tempo, os ciclos, os anos. Começo a imaginar-nos a "fazer com as raízes um céu debaixo da terra".



Não me deixo, contudo, de "pequenos dramas domésticos". Não deixo sequer de chorar. Mas tenho a cabeça cheia de palavras. E, já o repeti em inúmeros posts"[p]equeninas coisas me prendem: / uma tarde num café, um livro" (Manuel António Pina). Pequeninas coisas me salvam: este livro, esta árvore. PIM!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Não és rato, não és nada.

Em casa, o M. acorda quase sempre às 7h30 da manhã. Pede: "Lêtinho!". Bebe metade do "lêtinho" e lança novo pedido: "Papa! Ê qué papa!". Eu transformo o leite em papa. Ele come a papa toda e começa a disparar: "Qui é ito?". Seguem-se quase 2 horas de "qui é ito?". O dedo apontado ao mundo e uma rajada de "qui é ito?". São 7h30 da manhã, eu quase não tenho palavras, mas respondo: "Parede. Chão. Tapete. Janela. Livro. Almofada. Candeeiro. Sol. Nuvem. Chuva. Maçaneta. Cadeira. Degrau. Estante." And so on

Hoje de manhã, mais ou menos ao centésimo "qui é ito?", o M. pegou num pequeno livro e folheou-o até uma imagem lhe inspirar novo "qui é ito?". "Ito", no caso, e captado da posição em que eu estava, com a cabeça escondida debaixo das almofadas espalhadas pela sala, eram dois ratos brancos agarrados aos pés de um sofá. Disse "Ratos." 


O M. não ficou satisfeito. Apontou para as letras que na imagem surgem ao lado do sofá e que formam a palavra "confortável." Eu respondi: "Palavra. Confortável.". E acrescentei: "Qui é ito?!" O M. riu-se muito. Por me ouvir imitá-lo. E eu suspirei de alívio por ele ainda não me exigir discursos elaborados, capazes de justificar o motivo pelo qual alguém neste mundo achou que a palavra "confortável" ficaria bem servida com um minúsculo sofá rodeado de ratos. "Qui-é-ito, meu Deus?". 

"Ito" é um certo nojo. Mas é também um certo modo de às 7h30 da manhã regressar a Frederico, de Leo Lionni, para lavar a imaginação e a vista. 

O Frederico cá em casa. Edições da Kalandraka.

Frederico é o único rato do mundo do qual eu gosto. Não me estou a esquecer do Mickey nem da Minnie. Nem do Speedy Gonzales. Nem do Topo Gigio. Encantaram-me até eu cair em mim e perceber que eram ratos. Quem me conhece sabe dos meus dois grandes medos: ratos e tubarões. Quem me conhece já me viu entrar no mar de S. Pedro de Moel em pânico não pelas ondas, mas porque "há-de existir aqui algures um tubarão"; quem me conhece já me viu enfrentar um ratinho do campo com gritos iguais aos de Janet Leigh na cena em que a sua personagem é assassinada no hitchcockiano Psycho

Mas Frederico... Frederico faz-me suspirar. A mim e ao M..



Leituras matinais. O M. com o Frederico e as suas fraldas Dodot.


Porque Frederico não é rato, é poeta. E Leo Lionni, que o inventou, soube-o e explorou-o de modo tão profundo que o pôs a inverter a tradição, a interromper elegantemente a moral da velhinha fábula da Cigarra e da Formiga. Frederico impõe uma nova ordem - na história da literatura para a infância e no meu coração. E é único - do olhar à cor do pêlo, um cinzento que poderíamos definir como "de rato" e que, todavia, para mim é tão somente "de Frederico". É que, repito, Frederico não é rato, é poeta. Dos bons. Ou seja: não é rato, (não) é nada. Ele movimenta-se no campo da inutilidade; é um rato que gosta de flores e cores, do sol e de palavras. É um rato caeiriano. Que acumula o essencial - e o essencial, sempre invisível, é nada. 




Jardineiras Petit Patapon. T-shirt Zippy. Sapatos Livie & Luca.

Sem espírito prático, Frederico procura o belo numa atitude que remonta aos gregos. O melhor de tudo é que, ainda por cima, Frederico cora ao converter descrentes, esses insaciáveis trabalhadores servos do capitalismo prevenido do campo e da cidade. PIM!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Setembro é o teu mês.

"Setembro é o teu mês, homem da tarde", homem do regresso. Regresso a casa, à escola, ao quotidiano. Estamos, pois, de regresso. Mesmo tendo passado o mês de Agosto a regressar. Mesmo tendo planos para passarmos o mês de Setembro entre Lisboa, o Porto e a Gardunha. E, no entanto, sente-se que o regresso se aproxima agora de um modo mais autoritário e definitivo: os armários já não se desarrumam o suficiente para ficarem quase vazios. Vamo-nos preparando devagar, vamos regressando devagar ("Regresso devagar ao teu / sorriso como quem volta a casa.").

Vamos saudando os vizinhos.



Vamos juntando alimentos para os patos.



Vamos arrumando os livros.



E suspendendo o tempo noutros.

Voltaremos a estes dois em breve:
Amigos, de Eric Carle, ed. Kalandraka;
Hist Whist and Other Poems for Children, de e. e. cummings,
il. David Calsada, ed. George James Firmage.

Vamos pondo de lado as roupas que já não servem.

Macacão H&M. Ténis Bobux na Organii Bebé.
T-shirt H&M. Sweat com capuz Knot.

E resgatando as que finalmente servem.

Sweat com capuz São Pedro de Moel É Meu.
(À venda em alguns locais de S. Pedro de Moel,
como o Hotel Miramar)



Vamos enchendo a despensa e o frigorífico.

Vícios cá de casa: Letra B cerveja artesanal minhota e Mad Beer Umami
na Cerveteca Lisboa. Manteiga de alfarroba Quinta da Fornalha. Ameixas
biológicas oferecidas pelas Tia J.. Biscoitos da pastelaria Arco-Íris
(São Pedro de Moel). Barras de maçã e banana bio Holle no Celeiro.

E provando a terra.

Figos: colhidos nas figueiras do Avô X. e da Avó L.,
que os secou para ajudarem a atravessar o Inverno.
Base em crochet feita pela Bisavó M.O..


Vamos alojando os brindes das viagens.

Carrinho para fichas triplas / Plug Truck Jörg Gätjens
na Serendipity.
 

Vamos fingindo que ainda não temos saudades do Verão.

Sweat Zara. Jeans Name It na Boozt.









quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Hold (on to) that thought.

Regressamos a casa. O M. olha para os brinquedos, os "popós", exclama: «Tantos!».


À noite, a minha mãe envia-me uma mensagem: «A maneira como fìca feliz com as coisas... É como tu. Ainda hoje és assim.»

O M. já dorme, agarrado à fralda de pano. Eu agarro-me ao pensamento da minha mãe para conseguir adormecer. PIM!

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

São Pedro de Moel é nosso.


Em S. Pedro de Moel, o tempo é traiçoeiro, mas o Tempo, sempre veloz, sempre apressado, salta o muro e, do outro lado, encosta-se ofegante à parede e abranda. Nos dias perfeitos, como o de ontem, chegamos à praia às 10h, saímos da praia às 20h e de casa dos amigos às 23h. Passam-se, nisto, anos. Demora muito tempo matar saudades.



Os sonhos do M., do V. e da F.



Eu podia ter passado parte da infância aqui. Como o M. vai passar, oferecendo-me assim a possibilidade de viver em S. Pedro «uma segunda e mais perigosa inocência».



Este lugar faz parte da minha geografia. Deixei-o escrito num texto da mais recente edição da revista UP. Se perguntarem por mim nos próximos meses, estou a deslocar-me no ar. Com as raízes por debaixo do asfalto. PIM!




As raízes por debaixo do asfalto
Inês Fonseca Santos

As estradas que gosto de percorrer terminam onde estão os meus amigos. E a minha família, para usar a palavra onde cabe toda a minha condição geográfica. Não tenho, nunca tive, um só destino. Não tenho sequer, para o alcançar, um Chevrolet, como o guiado por Álvaro de Campos nuns versos em que o julgamos em Sintra, quando afinal a vila de majestosos segredos é apenas pretexto para se pisar o lugar imóvel do poema: "na estrada deserta/ (...) parece (...)/ Que sigo por outra estrada, por outro sonho".
Sento-me agora eu ao volante de um carro muito menos moderno e, noutro sonho, certa dos meus 9 anos, sigo pela estrada armadilhada que me aproximava de Santa Eugénia, a aldeia transmontana onde nasceu a minha avó e onde, petiscando cachos de uvas, acenava às gentes na procissão de Santa Bárbara. Por essa estrada que me ensinou a adivinhar as curvas ao Douro, a viagem demorava um dia. Ou assim me parecia. Sem me afligir: eu tinha tempo. Para além da certeza dos meus avós no fim da estrada. Por eles, ora regresso a Trás-os-Montes nos poemas de A. M. Pires Cabral, ora conquisto terreno em direcção aos amigos. Fiz alguns longe. Quase ao mesmo tempo, alguém fez auto-estradas. A A1, misteriosa e inaugural língua de alcatrão, pontua-se de arco-íris quando o destino é o Porto do Manuel António Pina. Dei conta disso no dia em que me despedi do poeta e, agora que ele finge não estar lá, continuo a segui-lo: janto no café Convívio com o Álvaro Magalhães, visito a livraria Papa-Livros para trocar histórias com a Adélia Carvalho e a Marta Madureira.
Os amigos, bem se vê, abrem cruzamentos nas estradas: é ainda no Porto que vejo mover-se "a cidade líquida" da Filipa Leal, poeta que me conduziu até às Quintas de Leitura do Teatro do Campo Alegre, onde o João Gesta instalou a poesia. Já lá levei outros amigos, a quem chego percorrendo a A8, auto-estrada que multiplicou as vias suspeitando da minha pressa de chegar ao lugar onde "[s]ão, de todas, as mais longas árvores,/ as da estrada que liga, pela mata,/ São Pedro de Moel à cidade onde homens fazem vidro, moldes,/ e eu fiz amigos: vidro, moldes/ desta vida de reparar em árvores/ longas e caminhos." Às vezes, em fila indiana pela A2, conduzo os amigos mais para sul: Tróia, Algarve, onde o mar se habituou a obedecer aos mergulhos dos nossos filhos. Outras vezes, repito-lhes a morada lisboeta que já conhecem de cor. E só quando estamos todos em minha casa, o Tejo a sul, o Jardim da Estrela a norte, reparo que das minhas janelas não se avistam estradas.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

"Acende-se um nó na garganta."

"Acende-se um nó na garganta." Assim começa o livro Canto Onde, do meu bom amigo Luís Quintais (ed. Cotovia). Temos ambos filhos pequenos e, sobre eles, trocámos mensagens há uns dias. Numa delas, disse-me: "Não há nada mais bonito do que uma criança: isto é uma banalidade de base, mas é também a única evidência neste mundo onde nada é evidente e onde se lançam bombas para cima de crianças..." Acende-se um nó na garganta, sim.

Também por causa disso - dos luminosos nós - este blogue está em modo intermitente. Porque quem o escreve está em modo intermitente. Entre a possibilidade de espanto e a possibilidade do Horror, entre as conquistas da infância e as perdas da idade adulta. Tudo isto parece, pois, um conjunto de "banalidades de base", mas é um conjunto de evidências "neste mundo onde nada é evidente"... O M. continua, então, sem ver televisão - excepto as vitórias do Benfica. 





Conseguimos sabiamente evitar as derrotas. Desportivas. As outras sucedem-se, acumulam-se, "neste mundo onde nada é evidente", repito, re-cito: Gaza, Iraque, Rússia, Ucrânia, Novo Banco, Banco Mau... O M. desconhece esta linguagem. Sabe apenas uma dessas palavras: "mau". Por causa do lobo. Há dias, assumiu-se seu fã. Do Lobo Mau, sim. "O uôbo, Mãe, o uôbo mau?" e a expressão de quem intui que "há sempre qualquer coisa que está para acontecer". Logo agora tinha que vir um banco usurpar adjectivos.


Banco mau, mãe?! A sério? Então não era um lobo?

Surge então o humor. Se não salva, abre caminhos. Na floresta preferida do Lobo Mau, onde também não se vislumbram evidências. Cá em casa, nunca aprendemos, no entanto, a rir do que se passa no resto do mundo. Temos apenas recursos. Como a curta de animação This Land Is Mine, "a brief history of the land called Israel / Palestine / Canaan / the Levant". Apanhei-a no brilhante Brain Pickings, onde Maria Popova dedica umas linhas a Nina Paley.





É isto o Verão: uma condenação ao resumo. (Não me refiro, como é evidente, à silly season; essa impõe outro tipo de resumo...) Sobretudo os Verões atípicos, os que se aproveitam dessa velha e sábia ilusão que é a pausa, a suspensão, para nos lançarem na armadilha do tempo. 

Eu, por exemplo, estou a aprender a lidar com a energia inesgotável de um bebé 24 horas por dia. Em Agosto, o M. não tem creche; eu e o P. continuamos a ter os nossos "afazeres diurnos", para usar parte de um verso do Pina. Não sei como fazem as pessoas que têm três e quatro filhos. Não sei como fazem e quero saber. Por favor, expliquem-me. Este blogue tem caixa de comentários. Aguardo as vossas receitas mágicas. Preferia que me enviassem poções, já preparadas e prontas a actuar, mas calculo que seja mais simples partilhar receitas.

Chegaram-me ontem... Ontem não, há dois dias talvez; este post está a ser escrito desde Domingo, não há meio de o terminar, o M. acorda, o Continente online chega com mantimentos, os amigos ligam, o trabalho acena ao longe... Dizia: chegaram-me ontem hipóteses no boletim do Baby Center: uma lista de coisas que devo fazer para me manter "sane". Ora, a lista já vem tarde - once insane... - e não me parece que banhos de imersão ou idas ao cabeleireiro me curem. Talvez me deva assumir como dependente. Ou viciada. Dependente da minha criança, viciada na sua autoridade de trazer por casa e pelo coração, na sua energia inesgotável e demolidora para o ser humano comum. Sinto-me em queda nos dias em que as dores de costas se alongam até aos ouvidos e aos dedos dos pés; durmo mais uma hora nessa noite para compensar; no dia seguinte, eis-me novamente capaz de tudo. 

Por isso, nestes dias de ausência, de impossibilidade de escrever neste blogue, de ligar sequer o computador (repito: aguardo poções e receitas mágicas), fingimos que temos realmente tempo. Para o que começa a ganhar a forma de uma fórmula: "as nossas coisas". 

Coisas como, por exemplo, encher balões, encher a casa de balões.



Coisas como vestir os fatos de banho e ir para a praia, crentes de que o vento será brando.



Coisas como espreitar a cidade das nossas janelas. 



E seguir devagar as nuvens a partir do nosso chão.



Coisas como desafiar a luz. Em modo contraluz.



Coisas como fazer festas à nossa andorinha. E aprender a palavra andorinha.


T-shirt Zippy. Calções Zara
Andorinha Bordalo Pinheiro n'A Vida Portuguesa.


Coisas como passear os clássicos.


T-shirt Zippy. Calções Zara. Carrinho Imaginarium.
Ímans/ Bonecos "Magnetic Personalities" 
Platão, Kant, Hegel, Nietzsche, Poe na Philosophers Guild.



Coisas como começar a partilhar segredos e rever o livro que aí vem: A Palavra Perdida, com texto meu e desenhos da Marta Madureira (ed. Arranha-Céus).



Coisas como tirar retratos em livrarias e trazer para casa livros que não podemos de maneira nenhuma lá deixar.




Coisas como ouvir um milhão de vezes as canções de que mais gostamos.







Em suma: coisas como criar as nossas próprias regras do Verão. Enquanto decoramos, para estações e tempos futuros, as dos dois rapazes imaginados por Shaun Tan neste belíssimo álbum editado pela Kalandraka





Parecem-nos regras imprescindíveis para o veraneante de mente sã.




Por que motivo termino com este livro e com estes rapazes?



Porque Agosto, sendo o menos cruel dos meses, é também o mais traiçoeiro. Não será por mal que junta ao sol o vento quente e a morte gelada dos avós, dos amigos, dos gatos. Agosto, note-se, partilha da natureza do Verão, aqui a norte da linha do Equador. E instala-se nessa fenda onde nada é o que parece, "nada é evidente", para regressar ao início deste post. "Para pequenos e grandes", alerta Shaun Tan, a abrir o livro citado. Refere-se não apenas ao seu álbum, como também às regras do Verão e, por maioria de razão, ao próprio Verão. E às palavras de que gostamos, que aprendemos a guardar desde pequenos. "Porque eu sou pequeno, mas os meus bolsos são fundos", conta o Manuel, narrador d'A Palavra Perdida.




"Para pequenos e grandes" são, assim, As regras do Verão, livro que nos acende um nó na memória e, logo depois, um outro na garganta (as ilustrações de Shaun Tan - magníficas e brilhantes de tão dark - são, aliás, um jogo entre a luz e a sombra, entre os tons da revelação e os do apocalipse...). Demonstra-nos que os nossos medos - reais e imaginados - não mudam à medida que crescemos: aumentam. Tal como a nossa certeza de falhar o resgate do mundo e do último dia de verão; tal como o nosso receio de falhar nas tarefas da casa, nas tarefas da maternidade, nas tarefas da vida. E nas da morte. No caminho de casa. Na palavra-chave. 



Eu tenho uma. Uma palavra-chave. Ensinam-ma livros como este de Shaun Tan. É uma palavra-chave aparentemente simples. Tem, contudo, muitos dentes, dentes luminosos, capazes de desfazerem nós. Aviso que não é nada evidente, a minha palavra-chave, e que, se os dentes se posicionarem de modo a conseguirem abrir a porta desse lugar escuro que é um coração, esconde dentro dela outra palavra ainda menos evidente: "amizade". A minha palavra-chave - uma palavra achada - é esta: PARTILHA. 

PIM!