quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Porto Sentido.

Há um poema da minha amiga Filipa Leal, uma das tias preferidas do M., que me leva a desejar ter passado a adolescência com ela no Porto. Foi (também) por isso que, depois de ler esse poema, "Porto Sentido", escrevi um outro em que surgem estes versos: "É difícil não termos sido amigas / na adolescência, mas eu nunca tive amigos / adolescentes, / mesmo os que diziam que eram / mentiam: tinham centenas de anos." 

PORTO SENTIDO

É difícil ter estado contente aos dezassete
ou aos vinte e sete.
É difícil ter bebido finos, ter comido tremoços
e, com cinquenta ou cem escudos, ter escolhido
a música na jukebox da Ribeira:
aquela canção do Rui Veloso no repeat,
os amigos cansados do meu lado obsessivo,
deste meu Lado A,
a senhora de avental sujo que dizia
“sai mais uma chouriça”, ou talvez nem o dissesse,
talvez não houvesse senhora de avental sujo,
talvez a memória tenha gente a mais.
Seja como for, é difícil que agora nenhum de nós lá esteja
a ouvir música e a assar chouriços.
Eu avisei.
Mas eles insistiram em mudar
de canção.

Filipa Leal
Porto, 22 de Abril, 2013
Inédito



Aos dezassete, julgo que, cumprindo as regras, os códigos que são impostos a quem conquista — a quem tem que conquistar — a impingida e suposta maturidade, eu não estava nem no Porto nem contente. Quem diria que aos trinta e cinco, muitos Portos depois (o das histórias da Avó, o dos casamentos dos primos, o dos passeios de fim-de-semana com a família, o do trabalho, o dos amigos conquistados depois de instalada, a muito custo, a maturidade), me aproximaria de tal modo da infância que estava no Porto e estava contente. Receio apenas esquecer — perder — um dia as palavras do Álvaro Magalhães e da Marta Madureira durante a apresentação d'A Palavra Perdida. FOI MUITO BONITA A FESTA, PIM!

. Na Livraria Papa-Livros, 20 de Setembro:















. Na Feira do Livro do Porto (autógrafos, exposições e Hora do Conto; 19, 20 e 21 de Setembro):






















. E as refeições no Café Convívio, ponto de encontro do Clube dos Amigos à Espera do Pina:

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Mafalda.

Mafalda faz 50 anos no dia 29 deste mês. Leio-a desde os meus 7, 8 anos. Aos 9, a minha mãe levou-me à Feira do Livro, como fazia sempre, e ofereceu-me Toda a Mafalda. Foi um dos melhores presentes que recebi na vida. É um dos livros da minha vida. Relendo-o, recordo-me de mim.




Nesse Verão de 1988, comecei a odiar a pobre e tonta da Susaninha. Usava o nome dela como insulto. "És mesmo Susaninha!", gritava às meninas que me irritavam com os seus discursos lamechas sobre casamentos, namorados e pobrezinhos... Ninguém me percebia. Ia para casa. Em bicos de pés, enfiados nos meus Le Coq Sportif, contava ao meu Avô e passávamos o resto do dia a rir. 




Nesse Verão de 1988, os meus melhores amigos eram o meu Avô e a Mafalda. E, como explicá-lo?, eu era realmente feliz.

Há uns tempos, escrevi sobre Quino para o Prontuário do Riso (ed. Tinta-da-China).

Há um cartoon de Mafalda, a mais popular criação de Quino, em que a insatisfeita e conscienciosa menina afirma: “Parem o mundo, que eu quero sair”. O mundo tem sido sempre, com efeito, o ponto de partida de Quino para os seus desenhos: o mundo que critica sabiamente com humor, mas sem moral à vista, e que consegue avaliar simultaneamente com ironia e poesia através até do olhar que lhe deita o grupo de crianças que povoam o universo da contestatária Mafaldinha.
Exímio inventor de personagens e lúcido inspector dos males da sociedade, esse mundo revelado pelo traço e pela palavra deste argentino nascido Joaquín Salvador Lavado Tejón é, pois, um lugar onde estamos presos com as nossas insatisfações, uma espécie de carruagem sem saída num comboio que nunca cessa de avançar. A gente (e recorde-se o álbum Gente En Su Sitio, de 1978) desenhada por Quino circula em ambientes domésticos e de guerra, ouve e despreza políticos, enfrenta a morte e o bulício das cidades; é gente burguesa e gente do campo; gente sem jeito para dizer a verdade e gente com a verdade à flor da pele; gente controlada e gente pouco obediente. Difícil é dizer o que fica excluído da crítica político-social operada por Quino, até porque são raros os cartoons do argentino que perderam actualidade.
No fundo, Quino aprendeu com a vida, que não foi diferente da de muitos dos que atravessaram o século XX e usaram o cartoon e a arte de desenhar como armas contra o silenciamento da desordem do mundo e como forma de resistência aos donos do poder: atravessou convulsões sociais e guerras, prestou serviço militar, andou a bater de porta em porta para conseguir emprego e aceitou demasiadas colaborações para poder pagar contas. Mesmo assim, tinha menos de vinte anos quando conseguiu vender a sua primeira banda desenhada; recusa recordar essa história de título Sedalina, criada para uma loja de sedas. Aos vinte e dois, o semanário Esto Es publica a sua primeira tira de humor gráfico, momento que define como sendo o mais feliz da sua vida. Seguiram-se muitas outras publicações – argentinas e do mundo – e os livros: é do início de Sessenta o seu álbum de estreia, Mundo Quino.
E Mafalda? Mafalda nasceu em 1964 e também ela circulou por várias publicações. E pelos livros. A primeira edição esgotou cinco mil exemplares em dois dias. Desde então, o mundo continua a seguir o seu curso e a Mafalda que existe em todos nós continua a procurar a porta de saída. No entanto, com a Mafaldinha de Quino, o absurdo da existência torna-se um lugar mais confortável, por tão bem compreendido por aquela criança e por com ela partilhado. É como se a viagem fosse feita num mundo de cadeirões almofadados – que chegam para todos, como Mafalda sempre quis. Na verdade, e para se fazer justiça, Mafalda e Quino.


Lerei o texto ao fim da tarde, no início de mais uma sessão d'Os Espaços em Volta, dedicada desta vez a Mafalda. 


O spot que o P. nos ofereceu para divulgarmos a sessão.

Eu e a Filipa Leal coordenamos este ciclo da Casa Fernando Pessoa e moderamos a conversa, hoje com o João Paulo Cotrim, o Luís Afonso e a Raquel Varela. A entrada é livre. Como Mafalda desejaria. E vamos soprar as velas a esta que sempre foi uma das minhas melhores amigas. PIM!


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Lembras-te, querido?


Lembras-te, mês de Setembro, de quando eras fiel aos meus desenhos?

Setembro de 1985. PIM!

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A primeira foto do seu bebé.


A primeira foto do seu bebé. Do meu. Do nosso.

Foto da Marta Madureira, enviada ontem à noite.
A cegonha deixou o bebé no Porto (Seguro). Só hoje chega a Lisboa.

Que pode não ser o primeiro. Mas que, em beleza, não fica atrás de nenhum dos seus irmãos. 

Podem até julgá-lo pela capa. Pelo rosto. PIM!


terça-feira, 16 de setembro de 2014

Lamento contínuo.

Novo dia, novas queixas. Hoje vou queixar-me de um amigo. Ligeiramente, brevemente (não tenho tempo para mais, que sorte a do objecto da queixa, que neste caso até é sujeito). É um amigo de adolescência, sendo certo que, como deixei escrito algures num poema que simula uma autobiografia, "eu nunca tive amigos / adolescentes, mesmo os que diziam que eram mentiam, / tinham centenas de anos". O J. é, pois, meu amigo de infância, lugar de onde nunca saímos. Tentaram obrigar-nos. Resistimos. Ora, o meu amigo de infância partilhou há dias comigo a série Comedians in Cars Getting Coffee, uma daquelas invenções "seinfeldianas" que nos atiram para o sofá às gargalhadas. A mim e ao meu amigo J.. E aos nossos mais-que-tudos, ambos Ps. A vocês não sei. 


Na quarta temporada, Sarah Jessica Parker, que aparece numa versão muito mais próxima de Mamet, com a gargalhada rouca, espontânea, ou até mesmo dos primeiros episódios de Sex and the City, do que da lobotomizada Carrie que fechou a referida série, fala sobre a sua infância, sobre o modo como entrar num carro tipicamente americano a faz regressar a esses happy fields. Seinfeld também o faz, mas Seinfeld, well, Seinfeld detesta o super-automóvel e o facto de ir destruindo o discurso amoroso de Parker em relação ao "popó gandi", como diria o M., contribui para que o mesmo se intensifique, disparando em várias direcções. O episódio em que motorizadamente se caminha sobre as veredas da infância pode ser visto aqui

Enquanto o via e assistia ao discurso de Sarah Jessica Parker, às suas descrições, lembrei-me de Bachelard: "As lembranças são imóveis, tanto mais sólidas quanto mais bem espacializadas." É por isso que, logo no início, Parker, naquele espaço concreto, anuncia: "My kids are going to be so happy here". Ela foi realmente feliz num carro igual àquele. E eu, que devia estar feliz com a generosidade do meu amigo J., que partilhou esta série comigo e me conduziu, por caminhos improváveis, até Bachelard, estou a maldizê-lo, a queixar-me dele.

O meu lema é agora, anuciei-o ontem, "queixar-me apenas das coisas boas". Insisto então legitimamente: quem vai escrever os textos todos que tenho para escrever, J.? Quem? Queres que te mande as sinopses, os resumos, tu tratas do assunto enquanto eu acabo de ver a série? Estou no episódio do George Costanza, não posso parar agora. Só mesmo se já tiveres adormecido as crianças, as tuas e a minha, e estiveres a abrir umas cervejas para nos sentarmos a comentar cada segundo desta série. Estás pronto? PIM!

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Lento lamento.

Quando os meus sobrinhos entraram na escola, a minha irmã comentava frequentemente o facto de não conseguir parar um segundo em casa aos fins-de-semana. Parar como quem  descansa, como quem precisa desesperadamente de descansar. Andavam sempre num desassossego por causa das festas e das actividades dos miúdos. Ou por se esquecerem de comprar alguma coisa no supermercado (quem consegue atravessar fins-de-semana sem gelados, sem chocolates?!). Ou porque os ténis tinham deixado de servir a um dos rapazes e lá iam a correr comprar outros. Em suma, não conseguiam ter uma clássica tarde de domingo a ler e a ver filmes. Ou a dormir. 

Começo a perceber o que me estava então a tentar explicar a minha irmã, de quem eu me queixava por não ter tempo para mim. Este fim-de-semana foi - como o anterior e o anterior a esse e mesmo o anterior a esse - desassossegado: festas, bailes, compras, almoços de família. E leituras pelo meio porque tenho uma sessão sobre a Mafaldinha para preparar e a apresentação de um livro e uma comunicação para um festival literário... Os programas do M., os programas do P., os meus programas. Mesmo assim, lá bem no fundo do meu pessimismo consigo avistar uma pequenina luz, muito sensata, que me apresenta num tímido néon aquilo que me parece sensato aceitar como novo lema de vida: "de agora em diante, queixo-me apenas das coisas boas". Reparem: eu passei as manhãs com dores de burro por andar o tempo todo a perseguir o meu filho em provadores de lojas e nos passeios de Lisboa,


Camisa Zara (esq.). Calças compradas na feira da praça 
em S. Pedro de Moel. T-shirt Zippy.

à tarde tive dores de barriga de tanto lhe pedir para não acelerar - com o arco e com o popó - e de tanto lhe pedir para partilhar comigo a bolacha da festa de anos do T.,





Calças Phister & Philina. T-shirt com desenho da Mariana, a Miserável,
uma das nossas preferidas <3

à noite quase sufoquei de tanto me rir com as releituras da Mafalda.




No meio disto tudo, como arranjar tempo para me queixar das coisas más?

Sendo assim, vou queixar-me de mais isto:



Pelos vistos, não vai ser no próximo fim-de-semana que vou conseguir descansar. Ainda bem. É que me parece que vai ser realmente bom. Por isso, contem com muitas queixas nos próximos dias. E poucas palavras. PIM!

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Roupa de baile.

Dias há em que as actividades cá de casa escapam ao território, cada vez mais vasto, da criança. Nos últimos dois dias foi basicamente o que aconteceu. Andei entre a belíssima adaptação que o João Botelho fez d'Os Maias, livro que me acompanha desde a adolescência e sobre o qual poderia escrever um milhão de posts (o mesmo se aplica ao filme: os cenários, desenhados por João Queiroz, o modo como Botelho os filma e ilumina, os actores, Graciano Dias e as revelações Pedro Inês e Hugo Mestre Amaro, as cenas escolhidas por Botelho para estruturar o argumento...) e Antológica, trabalho que volta a reunir no palco do Maria Matos Vasco Araújo e a companhia Cão Solteiro. Afasia, ruído e ego trip do outro lado do espelho numa reflexão sobre um certo meio, uma certa contemporaneidade, para ver até dia 17.

Pelo meio, ainda passei pelo maravilhoso Silverbox Studio, da Rute de Carvalho Magalhães e do Filipe da Veiga Ventura. Tiraram-me cinco retratos; para a semana, escolherei três. O meu preferido é talvez aquele em que estou a olhar para a varanda, de onde se avista um prédio todo ele veias do lado de fora das paredes.




O que há em comum entre este três momentos dos meus últimos dias é o tempo, o tempo em que estive imóvel: tempo da exposição, tempo da narrativa, tempo que importa e se exporta, para recordar um momento da Antológica, de Vasco Araújo e da companhia Cão Solteiro. Lá fora, em todos estes momentos, a chuva, contrariando o Verão tal como o aprendemos aqui, na Lisboa d'Os Maias.

O tempo, aliás, domina as obras: visuais, literárias. Tanto quanto domina os discursos quotidianos: "estou a ficar velha", "já não tenho memória", "quando eu era nova". O outro tempo também, tem vindo a ganhar terreno, tem vindo a derrubar a meteorologia, a arrancá-la, como fruto demasiado maduro, da árvore da ciência: "sabes se vai estar bom tempo amanhã?", "ainda ontem li que ia estar sol e agora isto", "isto não é normal, esta humidade, este tempo". Este tempo não é normal. E nós continuamos a esperar que seja. No capítulo do tempo, estamos sempre de esperanças. 

Ontem, em conversa com a Susana Menezes e com a Rita Tomás, do Maria Matos, afirmei que perdi toda a minha fé nos meteorologistas. No entanto, continuo a consultar obsessivamente e a toda a hora (ou seja, continuo a consultar obsessivamente o tempo no tempo) sites e aplicações como o Accuweather, o Yahoo Weather e aquele outro que já vem instalado nos iPhones. Desconfiada, espreitei-os hoje de manhã. Quero saber o tempo de sábado. Quero eu e quer toda a equipa do Maria Matos que programou e está a preparar com Gonçalo Tocha um verdadeiro baile. Se me gritam a mim e aos meus (isto é programa para toda a família!) "BAILEM!", eu e os meus queremos bailar! Mesmo descrente, opto pois por crer no que antecipa o Accuweather para sábado: "humid with partial sunshine", "26º C". Tanto quanto creio no meu vestido de baile, nos meus passos de bailarina.

Seja como for, já comprei um novo par de galochas ao M., exímio bailarino. (Eis que se infiltra a criança, eis que alastra o território da criança, cobrindo o meu a galope). Passei uma tarde da semana em busca das galochas perfeitas. Mal sabia eu que era tão simples quanto entrar na Zippy (mas quem é que quer ir ao Colombo, sobretudo com esta humidade?), onde agora se pode usar o Cartão Continente (e quem me conhece sabe como eu amo cartões de lojas, descontos, brindes, ofertas...) e onde agora se elaboram os mais inusitados diálogos:

- Quer associar a sua criança ao cartão?
- Sim, sim!
- Preencha a ficha com os dados da criança que quer associar ao cartão.
- Já está!
- Quer usar os 5 euros que tem no cartão associado à criança?
- Sim, sim!
- São 6 euros e 99.
(Ar demasiado exclamativo, demasiado triunfante e impossível de ser traduzido por palavras)

Com o meu ar triunfante impossível de ser traduzido por palavras, contei a história ao P. e contaminei-o com o meu ar triunfante impossível de ser traduzido por palavras. Com o seu ar triunfante impossível de ser traduzido por palavras, o P. tirou-nos do Colombo. Mais tarde, com os nossos ares triunfantes impossíveis de serem traduzidos por palavras, experimentámos as galochas ao M.. 



Isto pode parecer trivial. Mas equivale a chegar ao fim do arco-íris e ter lá o pote de ouro à espera. Daí os ares triunfantes. Apenas quem nunca andou à procura de galochas para crianças que ainda não calçam o 24 pode desprezá-los, a eles, aos nossos ares triunfantes. A partir do 24, há galochas em todo o lado, de todas as formas e feitios. Só que o M. tem pouco tempo, não alcançou ainda o 24, é muito novo, tem muita memória, decora tudo o que viveu até agora. E neste momento - tempo suspenso - passeia-se com as suas galochas amarelas, sola branca, tamanho 22. Roupa de baile. PIM! 

P.S. - Entretanto, partilhei este post no Facebook. A Rita Tomás comentou: "You don't need a weatherman to know which way the wind blows". We don't. 


Subterranean Homesick Blues, Bob Dylan

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Planos para hoje.

Planos para hoje: dançar um slow com o M.



"September", de David Sylvian


The sun shines high above
The sounds of laughter
The birds swoop down upon
The crosses of old gray churches

We say that we're in love
While secretly wishing for rain
Sipping coke and playing games

September's here again
September's here again

Camisa Zara. Calções de ganga Name It na Boozt.

Body Zippy.

PIM!