Gosto de jogos. De jogar. Jogos de tabuleiro, jogos de futebol, jogos de cartas, jogos de amor, jogos de palavras. Jogos.
Jogos de tabuleiro no quarto dos brinquedos.
| Jogos de palavras numa parede de Lisboa. |
Contam-se, na minha família, histórias de tetravós e trisavós viciados no jogo. Um deles, em tempos imemoriais, chegou a pagar uma dívida de jogo com a pedra de armas da família. Ficou na penúria. A minha avó contou-me tantas vezes esta história que se foi esbatendo em mim a vontade de jogar. De jogar para ganhar. Porque nunca gostei de perder. E passei a infância a alimentar vitórias. Melhor: passei a infância a assistir ao meu avô a alimentar as minhas vitórias. A criá-las. Era imensamente batoteiro - para me beneficiar. E eu lá ia ganhando crapôs atrás de crapôs. Um dia pedi-lhe para jogarmos a sério, para não me deixar ganhar. E ganhei. Gostei tanto que achei melhor começar a jogar menos. Ou a fingir que me podia tornar uma jogadora distraída, desligada, blasé. Verdade seja dita que, depois da morte do meu avô, o jogo - como a vida - passou a ter menos interesse. Até chegarem as crianças.
A mais nova das crianças da família, o M., gosta de jogar. E de ganhar. Marca golos e fica à espera do aplauso. Não desperdiça uma oportunidade para sair vitorioso de qualquer situação. Não sei se acho muita graça a isto. Logo se verá.
Hoje, por exemplo, venceu-me. Todas as manhãs, enquanto tomamos o pequeno-almoço, pede para ir para a varanda. Eu não deixo porque está vento ou chuva ou sol. E ele ainda está de pijama, não dá, não pode ser, espera uns minutos. Hoje venceu-me: descobriu como abrir a porta e, quando dei conta, estava a correr na varanda. A varanda, debaixo de chuva e de vento; ele, debaixo de chuva e de vento.
Trouxe-o para dentro. Berrou e espirrou que se fartou. Resolvi pôr uma música do Peter Broderick que tinha recuperado há dias (não ouvia Peter Broderick há longos meses...) por causa de um post que o Ricardo Mariano tinha partilhado no Facebook: Games again. O M. pôs-se a praticar a sua dança-pêndulo, já aqui descrita. Acalmou-se. Mal sabia ele que ainda estávamos em jogo: "We're playing card games/ Till some dawn/ We're playing heart games/ Please, please, please, please play along."
Hoje à noite, noutras partidas, citarei esta canção. Vou apresentar o livro Todas as cartas de amor, do Paulo José Miranda. Tem desenhos da Mariana a Miserável e é editado pela Abysmo. A festa desta noite não será para crianças. Mas será sobre o amor (e sobre a ausência). E será feita com amor. Direi, às tantas, que, apesar de não haver nada que lhe seja comparável, se não se for cauteloso, o amor de mãe pode ser aniquilador - esse amor que marca peles com tinta desde tempos imemoriais. Mesmo em quem recusa expressamente a tatuagem. PIM!


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