segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Homem-Lâmpada.

Há uns tempos, andámos pela cidade atrás dos trabalhos de Alexandro Farto AKA Vhils


O F. e o A. gostaram tanto que, a meio do Verão, parte da família invadiu o Museu da Electricidade, onde pode ser vista a exposição Dissecção

Chapéu Many Months na Organii Bebé. T-shirt Zippy.
Calças Indikidual na Loja Dada. Sapatos Livie & Luca.

Foi uma festa de tal ordem que por momentos pensámos que as meninas que estavam a vigiar a mostra ou se despediam ou tinham um ligeiro acidente cardíaco. O M. não parava quieto, tentava tocar nas peças (em vão, em vão, note-se...), corria, apontava, ria-se, espalhava os seus sonoros "Qui é ito?" por todo o espaço expositivo. O A. e o F. arriscavam considerações teóricas ("Acho que este é o meu artista preferido."; "É bastante genial."), entre outras do foro emocional por não os terem deixado subir umas escadas muito altas para apreciar esta peça 


(a escalada é para maiores de 16 ou 18, já não me recordo ao certo; eu, apesar dos meus 35 anos, senti vontade de chorar quando tive que voltar para trás e descer aquilo tudo, que, para ser sincera, era apenas metade...).










A exposição pode ser vista até 5 de Outubro. Depois, haverá outras, como uma dedicada a  Almada, em Dezembro. Descobri que vamos poder ver desenhos, pinturas e inéditos do poeta d'Orpheu, futurista e tudo na passada sexta-feira, quando, no Jardim da Estrela, a Maria Remédio me ofereceu o programa do Museu da Electricidade. Está lindo, lindo, com os desenhos da Maria. 


O M., o E. e a I. ficaram muito intrigados com as cabeças que por lá aparecem. Sobretudo com o Homem-Lâmpada. 


"Qui é ito?", perguntava o M. de dois em dois segundos. E o Tio J. respondia "O Homem-Lâmpada." Em breve, teremos que saber responder "Puquê?"... "Puquê" que aquele ali é o Homem-Lâmpada e "puquê" que pendurámos o saco das bolachas na árvore... PIM! 


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

São desenhos, estúpidos!

Às vezes, cruzo-me com a realidade. Não faço caso, mas ela é tão insistente que tenho que parar e olhá-la de frente por minutos. Foi há uns dias que dei conta de que Brad Pitt e Angelina Jolie se tinham casado. (Julgava que estavam casados há anos. Afinal, só se casaram há dias e eu até dei conta.) Dei de caras com as fotos da cerimónia (palavra tão sinistra quanto kitsch...) na Vanity Fair. Fui seguindo os links. Cheguei primeiro aqui. E depois aqui, onde se vê que a noiva foi de branco, mas, c'mon, estamos a falar do casal Jolie-Pitt, nunca nada é assim tão branco. O vestido tinha, por isso, desenhos dos filhos, cosidos na parte de trás e no véu. Escusado será dizer que gosto disto, que é coisa que seria capaz de fazer (apesar de revistas e jornais garantirem que só gente que seja matéria de estrelas o pode fazer). Entretanto, de link em link, parei num artigo que já perdi e que garantia que isto agora vai virar moda. Até por já o ser no seio da família Jolie-Pitt. Eis aqui o dearest Brad a carregar ao peito desenhos dos filhos. Escusado será repetir que gosto disto. Muito. Tanto quanto o meu sobrinho A. gostou de ver a Angelina Jolie a protagonizar Maléfica. 

- Tia, posso contar-te a história do filme? (Logo ele, que desconversa quando lhe pedimos que conte seja o que for...)
- Qual filme?
- Aquele que tem aquela mulher muito bonita, é das mulheres mais bonitas do mundo. Ai, como é que é?... Angelina Jiló. 
- Ahahahahah! Angelina Jiló?
- Sim. É linda, sabias?
- Sim, sabia. Mas é Angelina Jolie.
- Ah, é isso, é isso. É linda, sabias?
- Sabia. E sabias que ela é casada com um homem muito lindo, um dos mais bonitos do mundo?
- Sabia. A Mãe disse-me. É muito bonito e sexy ou lá o que é...
- Sim, é. 
- Posso ou não contar-te a história do filme?
- Podes, claro!

Seguiram-se horas de descrições. Quem traiu quem, quem ia matar quem, quem envenenou quem, quem casou com quem, quem usava o quê e era primo ou tio ou pai não sei de mais quem. Engolida por pormenores, fiquei sem perceber a história do filme, até porque o meu fascínio era pelos olhos e pelos gestos entusiasmados do A. que se alargavam sempre que o nome "Jiló" se infiltrava no enredo.

- Muito bom, querido. Deve ser um bom filme.
- E é! Mesmo! Ela é muito linda, sabias?
- Sabia. Mas já estou a ficar preocupada: tu dizias que eu era a mulher mais bonita do mundo. E agora? Fui destronada pela Dona Jiló?
- Jolie! 
- Fui?
- Não, Tia. É assim: das namoradas ideais, tu és a primeira, depois a Angelina Jolie, depois a XYZYX. 

O A. disse de facto um nome. Relativamente perceptível e, no entanto, olvidável. 

- Quem é essa?
- É uma cantora e artista, dona de canais de televisão.
- De canais? De programas. Tem programas de televisão, é isso?
- Sim! E canta.
- OK. Repete lá o nome.
XYZYX.

Pus-me a procurar no google. 

- Esquece, Tia. Não vais achá-la bonita. Eu tenho a certeza que a vais achar sinistra.

Confirmaram-se as suspeitas. Não me lembro do nome da miúda. Canta, sim, e dança. E é feia, feia, feia. Não devia estar num Top onde figura a Dona Jiló. Que fazer, porém?...

Inspirada pela Dona Jiló e seu wedding dress - quer vire moda, quer não vire - e inspirada também pelo modo como a Bobo Choses se antecipa a todas as modas, em breve terei pelo menos três meninos, o A., pela sua conversa, e o M. e o F. porque sim, vestidos com isto:

Imagem retirada do site da Bobo Choses
Ou com isto:

Imagem retirada do site da Bobo Choses

Ou isto:

Imagem retirada do site da Bobo Choses

Ao lado deles, eu caminharei com isto:

Imagem retirada do site da Bobo Choses

Lá dentro, algumas moedas. Para comprar bilhetes para o cinema. Obrigações de quem ocupa o primeiro lugar do pódio das namoradas ideais. PIM!

NOTA: Cá em casa, encomendamos roupa da Bobo Choses na Loja Dada.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A árvore que dava olhos que choravam.

Não era exactamente a árvore que chorava. Eram os olhos que a árvore dava que choravam. A árvore era eu, um farrapo de ser humano à porta da creche à qual regressou hoje o M.. Imóvel, como uma árvore no Inverno, se descontarmos a deslocação das lágrimas, o caminho que percorrem do olho à boca, ao queixo. Pouco me importa que me chamem lamechas, que me digam que "preciso de ter outro filho para me deixar de dramas domésticos", que afirmem que "faz parte, é a vida", que "5 minutos depois ficou bem, de certeza", que "tem que se habituar", "não exageres, com tanta coisa má a acontecer pelo mundo, ficas a pensar nisso". 


Meus amigos, notem bem: como contei ontem, eu detesto ratos e houve um que, ainda assim, me conquistou, houve um que me arrancou o coração do peito. Delicadamente, sim, não fosse ele o Frederico, um rato poeta, um rato que despreza os discursos inflamados, moralistas e, no entanto, isentos, destemperados, dos pragmáticos. Esta é a minha natureza, sou desse mundo em que, odiando ratos, se pode amar um único e onde as árvores dão olhos. "Com olhos se vai longe. Desde que estejam abertos, bem abertos". Mesmo que estejam embaciados. Se o meu filho chora quando me vê a mim e ao pai virar costas, eu choro também. Se o mundo inteiro está em ruínas, haver uma criança que chora quando perde os pais de vista é uma hipótese de salvação. De reconstrução. De redenção. De poucos, que são já alguns. Talvez apenas dos que, como a árvore que dava olhos, plantada pelo João Paulo Cotrim e a Maria Keil, na floresta que era "o fundo do quintal" das suas conversas, têm "raízes no coração da terra e ramos que fazem cócegas nas nuvens".



Tal como esta árvore, eu "[d]evia estar calada e quieta, mas não sou capaz". Fiquei quieta uns segundos, quis até voltar para trás. Não podia. Segui caminho, rumo aos afazeres diurnos. Pus-me em movimento com o som do choro do M. nos ouvidos e no coração. Estou a dois quilómetros e duas horas de distância do momento em que fui um farrapo de ser humano à porta da creche à qual regressou hoje o M. e ainda o oiço. "Sou uma árvore no fundo do quintal, não posso ver o que vejo nem falar o que falo.". "Mas não sou capaz.". 



E eis-me em movimento: abro a janela às varejeiras que atravessam a casa de Norte para Sul, do Jardim da Estrela para o Tejo, estendo a roupa, atendo telefonemas, partilho artigos de amigos (e que bom foi ler o primeiro texto da Tia R., a Raquel Martins, na Preguiça Magazine), troco mails, marco almoços... Até que começo a arrumar os livros: "Às vezes parece que oiço a paisagem mandar-me calar." 



A Árvore que dava olhos foi um presente de anos que o João Paulo Cotrim me ofereceu. É uma edição de 2007, da Calendário de Letras, difícil de encontrar. Quase uma raridade (uma autêntica raridade se atendermos à sua beleza: texto e desenhos). Como a árvore que dava olhos. E que não tem medo de nada e sonha pelo tempo e pelo espaço fora. É uma árvore que imagina. E que me deixa a mim a imaginar que ela foi tudo o que desejou, que ela fez tudo o que quis. Por exemplo: "fazer com as raízes um céu debaixo da terra".



Folheio o livro e ainda me ocorre que o M. não percebe por que razão, depois de tantos dias perfeitos, tivemos que o deixar. Ele não faz ideia do que é o tempo, não faz ideia do que é a rotina, do que é a obrigação, do que é um ciclo, do que é um ano, quanto mais um ano lectivo. Ele é anterior a tudo isso. Volto a folhear o livro e começo a imaginar-nos a regressar da creche, eu a contar-lhe que temos um livro para ler, um livro sobre uma árvore que dava olhos e era amiga de gatos, formigas, lagartos, uma árvore que sente e que desafia o tempo, os ciclos, os anos. Começo a imaginar-nos a "fazer com as raízes um céu debaixo da terra".



Não me deixo, contudo, de "pequenos dramas domésticos". Não deixo sequer de chorar. Mas tenho a cabeça cheia de palavras. E, já o repeti em inúmeros posts"[p]equeninas coisas me prendem: / uma tarde num café, um livro" (Manuel António Pina). Pequeninas coisas me salvam: este livro, esta árvore. PIM!

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Não és rato, não és nada.

Em casa, o M. acorda quase sempre às 7h30 da manhã. Pede: "Lêtinho!". Bebe metade do "lêtinho" e lança novo pedido: "Papa! Ê qué papa!". Eu transformo o leite em papa. Ele come a papa toda e começa a disparar: "Qui é ito?". Seguem-se quase 2 horas de "qui é ito?". O dedo apontado ao mundo e uma rajada de "qui é ito?". São 7h30 da manhã, eu quase não tenho palavras, mas respondo: "Parede. Chão. Tapete. Janela. Livro. Almofada. Candeeiro. Sol. Nuvem. Chuva. Maçaneta. Cadeira. Degrau. Estante." And so on

Hoje de manhã, mais ou menos ao centésimo "qui é ito?", o M. pegou num pequeno livro e folheou-o até uma imagem lhe inspirar novo "qui é ito?". "Ito", no caso, e captado da posição em que eu estava, com a cabeça escondida debaixo das almofadas espalhadas pela sala, eram dois ratos brancos agarrados aos pés de um sofá. Disse "Ratos." 


O M. não ficou satisfeito. Apontou para as letras que na imagem surgem ao lado do sofá e que formam a palavra "confortável." Eu respondi: "Palavra. Confortável.". E acrescentei: "Qui é ito?!" O M. riu-se muito. Por me ouvir imitá-lo. E eu suspirei de alívio por ele ainda não me exigir discursos elaborados, capazes de justificar o motivo pelo qual alguém neste mundo achou que a palavra "confortável" ficaria bem servida com um minúsculo sofá rodeado de ratos. "Qui-é-ito, meu Deus?". 

"Ito" é um certo nojo. Mas é também um certo modo de às 7h30 da manhã regressar a Frederico, de Leo Lionni, para lavar a imaginação e a vista. 

O Frederico cá em casa. Edições da Kalandraka.

Frederico é o único rato do mundo do qual eu gosto. Não me estou a esquecer do Mickey nem da Minnie. Nem do Speedy Gonzales. Nem do Topo Gigio. Encantaram-me até eu cair em mim e perceber que eram ratos. Quem me conhece sabe dos meus dois grandes medos: ratos e tubarões. Quem me conhece já me viu entrar no mar de S. Pedro de Moel em pânico não pelas ondas, mas porque "há-de existir aqui algures um tubarão"; quem me conhece já me viu enfrentar um ratinho do campo com gritos iguais aos de Janet Leigh na cena em que a sua personagem é assassinada no hitchcockiano Psycho

Mas Frederico... Frederico faz-me suspirar. A mim e ao M..



Leituras matinais. O M. com o Frederico e as suas fraldas Dodot.


Porque Frederico não é rato, é poeta. E Leo Lionni, que o inventou, soube-o e explorou-o de modo tão profundo que o pôs a inverter a tradição, a interromper elegantemente a moral da velhinha fábula da Cigarra e da Formiga. Frederico impõe uma nova ordem - na história da literatura para a infância e no meu coração. E é único - do olhar à cor do pêlo, um cinzento que poderíamos definir como "de rato" e que, todavia, para mim é tão somente "de Frederico". É que, repito, Frederico não é rato, é poeta. Dos bons. Ou seja: não é rato, (não) é nada. Ele movimenta-se no campo da inutilidade; é um rato que gosta de flores e cores, do sol e de palavras. É um rato caeiriano. Que acumula o essencial - e o essencial, sempre invisível, é nada. 




Jardineiras Petit Patapon. T-shirt Zippy. Sapatos Livie & Luca.

Sem espírito prático, Frederico procura o belo numa atitude que remonta aos gregos. O melhor de tudo é que, ainda por cima, Frederico cora ao converter descrentes, esses insaciáveis trabalhadores servos do capitalismo prevenido do campo e da cidade. PIM!

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Setembro é o teu mês.

"Setembro é o teu mês, homem da tarde", homem do regresso. Regresso a casa, à escola, ao quotidiano. Estamos, pois, de regresso. Mesmo tendo passado o mês de Agosto a regressar. Mesmo tendo planos para passarmos o mês de Setembro entre Lisboa, o Porto e a Gardunha. E, no entanto, sente-se que o regresso se aproxima agora de um modo mais autoritário e definitivo: os armários já não se desarrumam o suficiente para ficarem quase vazios. Vamo-nos preparando devagar, vamos regressando devagar ("Regresso devagar ao teu / sorriso como quem volta a casa.").

Vamos saudando os vizinhos.



Vamos juntando alimentos para os patos.



Vamos arrumando os livros.



E suspendendo o tempo noutros.

Voltaremos a estes dois em breve:
Amigos, de Eric Carle, ed. Kalandraka;
Hist Whist and Other Poems for Children, de e. e. cummings,
il. David Calsada, ed. George James Firmage.

Vamos pondo de lado as roupas que já não servem.

Macacão H&M. Ténis Bobux na Organii Bebé.
T-shirt H&M. Sweat com capuz Knot.

E resgatando as que finalmente servem.

Sweat com capuz São Pedro de Moel É Meu.
(À venda em alguns locais de S. Pedro de Moel,
como o Hotel Miramar)



Vamos enchendo a despensa e o frigorífico.

Vícios cá de casa: Letra B cerveja artesanal minhota e Mad Beer Umami
na Cerveteca Lisboa. Manteiga de alfarroba Quinta da Fornalha. Ameixas
biológicas oferecidas pelas Tia J.. Biscoitos da pastelaria Arco-Íris
(São Pedro de Moel). Barras de maçã e banana bio Holle no Celeiro.

E provando a terra.

Figos: colhidos nas figueiras do Avô X. e da Avó L.,
que os secou para ajudarem a atravessar o Inverno.
Base em crochet feita pela Bisavó M.O..


Vamos alojando os brindes das viagens.

Carrinho para fichas triplas / Plug Truck Jörg Gätjens
na Serendipity.
 

Vamos fingindo que ainda não temos saudades do Verão.

Sweat Zara. Jeans Name It na Boozt.