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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Setembro é o teu mês.

"Setembro é o teu mês, homem da tarde", homem do regresso. Regresso a casa, à escola, ao quotidiano. Estamos, pois, de regresso. Mesmo tendo passado o mês de Agosto a regressar. Mesmo tendo planos para passarmos o mês de Setembro entre Lisboa, o Porto e a Gardunha. E, no entanto, sente-se que o regresso se aproxima agora de um modo mais autoritário e definitivo: os armários já não se desarrumam o suficiente para ficarem quase vazios. Vamo-nos preparando devagar, vamos regressando devagar ("Regresso devagar ao teu / sorriso como quem volta a casa.").

Vamos saudando os vizinhos.



Vamos juntando alimentos para os patos.



Vamos arrumando os livros.



E suspendendo o tempo noutros.

Voltaremos a estes dois em breve:
Amigos, de Eric Carle, ed. Kalandraka;
Hist Whist and Other Poems for Children, de e. e. cummings,
il. David Calsada, ed. George James Firmage.

Vamos pondo de lado as roupas que já não servem.

Macacão H&M. Ténis Bobux na Organii Bebé.
T-shirt H&M. Sweat com capuz Knot.

E resgatando as que finalmente servem.

Sweat com capuz São Pedro de Moel É Meu.
(À venda em alguns locais de S. Pedro de Moel,
como o Hotel Miramar)



Vamos enchendo a despensa e o frigorífico.

Vícios cá de casa: Letra B cerveja artesanal minhota e Mad Beer Umami
na Cerveteca Lisboa. Manteiga de alfarroba Quinta da Fornalha. Ameixas
biológicas oferecidas pelas Tia J.. Biscoitos da pastelaria Arco-Íris
(São Pedro de Moel). Barras de maçã e banana bio Holle no Celeiro.

E provando a terra.

Figos: colhidos nas figueiras do Avô X. e da Avó L.,
que os secou para ajudarem a atravessar o Inverno.
Base em crochet feita pela Bisavó M.O..


Vamos alojando os brindes das viagens.

Carrinho para fichas triplas / Plug Truck Jörg Gätjens
na Serendipity.
 

Vamos fingindo que ainda não temos saudades do Verão.

Sweat Zara. Jeans Name It na Boozt.









quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Hold (on to) that thought.

Regressamos a casa. O M. olha para os brinquedos, os "popós", exclama: «Tantos!».


À noite, a minha mãe envia-me uma mensagem: «A maneira como fìca feliz com as coisas... É como tu. Ainda hoje és assim.»

O M. já dorme, agarrado à fralda de pano. Eu agarro-me ao pensamento da minha mãe para conseguir adormecer. PIM!

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Qui é ito?

Se as partidas são agitadas, os regressos nunca são pacíficos. Mesmo quem os prefere, mesmo quem encontra sempre o caminho de retorno, leva algum tempo a acomodar os pés ao chão rugoso da casa, do lugar que habita. O nosso recente regresso não foi, pois, pacífico, mas foi divertido. Na estrada, descobrimos coisas impossíveis. Como, por exemplo, gente que viaja com muito mais do que nós. Gente, no fundo, muito mais equilibrada do que nós.


                                                                    T-shirt NYPD comprada na rua, 
                                                                    em Nova Iorque. Calções Knot.

E, no entanto, trouxemos connosco quilos e quilos de bagagem. Malas e malas cheias de coisas invisíveis. Que é como quem diz: de palavras. Novas palavras, que ecoam pela casa: "tios", "pimos" ["primos"], "paia" ["praia"], "paxina" ["piscina"]... Novas palavras que se juntam assinalando o princípio do sentido (questionando-o): "Qui é ito?" ["O que é isto?"].




Certa manhã, acordei e fui à cozinha. Na cadeira, estava sentado o F., seguindo, com o olhar, o M., que cirandava por ali. Reparo agora que a palavra "cirandar" devia escrever-se com "s". A Sophia defendeu-o em relação à palavra "dança": escrevê-la com "ç" equivale a sentá-la. Ora, o M. não estava sentado; era o F. quem estava, acompanhando com o olhar o M., no seu circuito inquieto pela cozinha. O M. "sirandava". Ele e a sua curiosidade. "Qui é ito?", perguntava apontando para os electrodomésticos. E o F., na sua pré-adolescente pachorra, respondia: "Um micro-ondas." "Qui é ito?" "Um frigorífico." "Qui é ito?" "Um forno." "Qui é ito?" "Uma torradeira." Quando achava piada à palavra, o M. repetia-a, rindo-se muito: "Fizóri!", "Tuadára!". E "sirandava", "sirandava", o grande conquistador de vocabulário.

Cá em casa, tudo se repete. Ontem, o P. esteve a proteger gavetas e armários. O grande conquistador de vocabulário é também o grande conquistador de interiores. "Qui é ito?" "Ferramentas." "Qui é ito?" "Uma tesoura." "Qui é ito?" "Qui é ito?" "Qui é ito?" Um dia, não vou saber.

Enquanto isso, continuamos a conquistar novos sons. Experimentámos mais um presente do baptizado do M.: um xilofone. Oferecido pelos Tios R., Cat. e C., é um xilofone que merece um milhão de estrelas.



T-shirt Zippy. Shorts Moonkids. Sapatos Livie & Luca (aqui).
Xilofone Decor-Spielzeug (aqui).

Cada cor corresponde a uma nota musical. Enquanto o M. se está a divertir imenso, eu e o P. estamos a (re)aprender imenso. Parece-me justo. É assim o regresso: algo ou alguém nos aguarda, tecendo. PIM! 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Crescer.

"Não aconteceu nada de especial. Só olhares. Eu andava de skate. Ela olhava. E derretia de paixão."

Os pormenores que ansiosamente aguardava sobre os jogos de amor dos meus sobrinhos estão todos concentrados nestas palavras. De um lado. O do A.. Do outro, o do F., não tem corrido tão bem.

"Chamou-me nojento."


A. e F. na festa do Planeta Tangerina (Casa Independente)
T-shirts Pepe Jeans. Calças e calções H&M.


A beldade das ciências chamou nojento ao meu sobrinho. Não tive outra hipótese: fui obrigada a regressar ao discurso que ontem prometi ultrapassar. 

- Nojento?! Mas essa miúda é parva? É completamente tonta, essa nojentinha.
- Não, Tia. Teve cinco 5 e o resto 4. 
- Ainda se tivesse tido tudo 5...
- O quê?! Ela é super-boa-aluna! Cin-co-cin-cos-e-o-res-to-qua-tro!
- E chamou-te nojento, a nojentinha. Deve ser das que decoram, não das que sabem.
- Talvez. Mas é linda.
- Linda como?
- Como tu. Tem os lábios mais grossos. Com ofensa: é mais gira do que tu.
- Mais gira do que eu?! Destronou-me?! Eu nem a conheço e já a odeio. 

Nem a conheço e já a odeio. "Com ofensa". Agora compreendo o que me disse, há uns anos, o Manuel António Pina, falando-me da casa onde morou durante mais tempo: "Foi aqui que as minhas filhas ficaram maiores e eu e a minha mulher ficámos mais pequenos."

Foi ali, naquele diálogo, que o Francisco ficou maior e eu fiquei mais pequena. Não é, pois, uma questão de centímetros, é uma questão de relevância. Se o nascimento é uma violência, maior violência é crescer. Por ser um processo interminável, detido apenas pela morte; por, apesar de simbolicamente não ter a servi-lo uma imagem tão forte como a do corte do cordão umbilical e o que nisso está implicado (o sangue, a dor...), se arrastar pelo tempo, levando-nos atrás, desprevenidos. São cortes invisíveis, os do crescimento, com sangue e feridas do lado de dentro.

"Mas uma coisa também é certa..."



Onde é que eu fui buscar isto? Aqui:



O primeiro presente de baptizado que o M. recebeu, oferecido pelos Tios Z. e H., foi uma caixa cheia de desenhos da Madalena Matoso. Lá dentro, uma outra forma de contar a história de "Quando eu nasci". E de a relembrar ao pequeno-almoço, ao almoço, ao lanche, ao jantar. 






Mais imagens aqui.


Finalmente, com os presentes que ofereceram ao M., vou poder armar-me em crítica multifacetada e espalhar umas estrelas pelo firmamento. Ao resultado desta parceria entre o Planeta Tangerina e a Vista Alegre dou um milhão delas. As razões prendem-se não apenas com a ideia em si, a de conceber este belo serviço, nado e criado na companhia de um belo livro, mas também com o facto de a Vista Alegre ter sabido evoluir sem perder a sua identidade. São notáveis muitas das parcerias que a marca tem estabelecido, capazes, aliás, de revelar como a VA está atenta ao que de melhor se anda a fazer em Portugal. Soma-se a isso, como é evidente, o livro, a história que aqui se conta - em desenhos e palavras. 

                          


Um dos aspectos de que mais gosto no trabalho do Planeta Tangerina prende-se com a simplicidade - essa enorme armadilha onde caem os incautos, os que julgam que, se a palavra e o traço são simples, "isso também eu faço". Não fazem, não. E não fazem porque, neste fazer, está implicado um olhar atento, um olhar que repara no pormenor e nele se fixa para o conseguir transmitir aos outros, para o conseguir partilhar. Sem condescendências. Julgo que esta é a chave da melhor literatura infanto-juvenil. Ou um dos dentes dessa chave. 

Quando eu nasci é bom exemplo do que sustento. É um manual de sentimentos e sentidos, de emoções e sensações, não de evidências, caros incautos. É um manual para a primeira infância, sim, mas também para pais e avós e bisavós, para que eles, agora de bebé ao colo, nunca esqueçam como foi quando eles nasceram. Por isso, é ainda um manual para primos e sobrinhos, para tios e amigos, para todos os que querem estar próximos do milagre da origem, do milagre que é aterrar neste mundo, que é senti-lo pela primeira vez. 

Falei já várias vezes da Madalena Matoso e da Isabel Minhós Martins, autoras desta obra, e, apesar de haver agora muitos nomes a apontar na enorme família em que se tornou o Planeta Tangerina, um deles parece-me imprescindível para aquela casa ser como é, ser o que é: o do Bernardo Carvalho. Sobre os livros do Bernardo escreverei em breve. O que importa agora acrescentar prende-se com a íntima relação estabelecida entre texto e imagem nos livros desta editora, facto para o qual muito contribui o trabalho do Bernardo. Não faz sentido, neste momento, publicar literatura infanto-juvenil se não se colocar em pé de igualdade texto e ilustração, se não se rejeitar a ideia de que basta fazer uns "bonecos com as caras redondas" cujas expressões tentam toscamente traduzir o mesmo que as palavras, colando-se a elas. Os "bonecos" devem por si só ser eloquentes, devem dizer muitas coisas, tantas outras coisas, todas as coisas que cabem na imaginação, devem fitar, também eles, as palavras, devem dar-nos mais - mais possibilidades de leitura, mais possibilidades de olhar o mundo, mais possibilidades de viajar até outro planeta.

Em síntese, é isto:



Ontem na festa do Planeta Tangerina, na Casa Independente, celebraram-se novos livros e os dez anos da editora. Nós trouxemos para casa beijinhos da Madalena.




Declarámo-nos aos nossos amores, montámos borboletas com pedaços de papel, exibimos barrigas, contámos balões, comprámos livros.






 M.: Camisa Zara. Calções Name It na Boozt. 
Sandálias Bobux na Organii Bebé.


Em suma, eles ficaram um bocadinho maiores. Eu fiquei um bocadinho mais pequena. De que outro modo se explica que o momento alto do meu dia de hoje tenha sido aquele em que dei de caras, no mural da Joana Emídio Marques no Facebook, com estes versos, "apanhados" pelo Vítor Silva Tavares (editor da mítica &etc) a uma criança, "o melhor poema surrealista de sempre", na sua opinião:

gosto do sol
porque ele é tão azulinho, tão azulinho
como um moranguinho

PIM!