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segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Cruzar infâncias.

Cá em casa, andamos em "cover mood". Isto é, andamos a dançar versões — devagarinho ou aos pulos.

Por exemplo, Daft Punk por Daughter, ou o resgate de um tema com que as pistas de dança de um determinado Verão rebentaram, sem misericórdia:




E ainda este cruzamento de infâncias. A minha com a do M.. É que eu comecei a dançar isto, que partilho abaixo, aos 5 anos, a minha irmã e as nossas amigas Nonôs empurravam-me com tanto empenho para a bicicleta sem rodinhas, como para as pistas de dança e as festas de slows (a vassoura nas mãos de qualquer miúda que se atrevesse a dançar com o M.M....):



Courteney Cox larga o Springsteen...


E agora o M. dança isto — comigo, é certo, que 30 anos não apagam um vício:



You can't start a fire. Yes, we can. PIM!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

É então isto para crianças? — Parte III: Fernando Mota, sons e palavras para todas as infâncias.

Ontem, chegaram-me, pelas várias caixas de correio que costumo abrir diariamente, duas belas notícias: 

. uma é a de que o colóquio "É então isto para crianças?" já tem e-card (partilhem, partilhem!);


Imagem de Ana Ventura.


. a outra é a de que o Teatro São Luiz conseguiu mais espaço para o espectáculo Photomaton — Divertimento para viola portuguesa e mala preparada, do genial e sempre surpreendente Fernando Mota. Ou seja, há mais bilhetes para os espectáculos de sábado, às 16h, e domingo, às 11h (corram, corram!).


Imagem retirada do site do São Luiz.
Mais aqui.

Há uns anos, vi um espectáculo do Fernando Mota chamado Motofonia. Foi o subtítulo que me conquistou: "Um solo poético para todas as infâncias". Arrastei o F., o A. e a minha mãe. As nossas infâncias coincidiram, de repente, enquanto assistíamos a momentos assim:




Desde esse primeiro espectáculo que o Fernando criou para a infância, fiquei atenta ao seu trabalho e, quando surgiu a hipótese de comissariar o colóquio "É então isto para crianças?", foi um dos primeiros nomes de que me lembrei. Queria mostrar uma criação do Fernando e, por isso, pedi-lhe que escolhesse ele um dos seus espectáculos, para comentar e para partilhar com quem passar pela Gulbenkian nos dias 9 e 10 de Fevereiro (recordo que o mote do colóquio é a partilha). 

O Fernando escolheu as Canções Nómadas, criação que foi mostrada no CCB em Junho do ano passado. E o seu depoimento integrará a conversa "É então isto uma canção?" (dia 10 de Fevereiro, das 10h às 12h30, na Gulbenkian).




Sobre estas Canções Nómadas, nas quais participam também o Rui Rebelo e a Carla Galvão, disse-me o Fernando que são "uma viagem por canções em várias línguas, em vários continentes, em vários países. É um hábito que temos em vários espectáculos, o de incluir outras línguas, até línguas que nós não percebemos. Achamos que é uma acção social e política para ter com as crianças, a de habituá-las a outras realidades, a outros contextos, a outras culturas. E de abordá-las da perspectiva do fascínio, não do medo. Do fascínio pelo diferente, pela novidade, pelo outro." 

Só isto bastava para justificar aqueles dois adjectivos que usei linhas acima para descrever o Fernando: "genial" e "surpreendente". Só isto bastava para haver quem, ao ler estas linhas, esteja já a correr para o S. Luiz para conseguir os últimos bilhetes do Photomaton. 

Eu tenho três: o meu, o do F. e o do A., que, quase quatro anos depois de Motofonia, aguardam o reencontro com uma criação do Fernando. PIM!

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Sobretudo-Outubro-Sobretudo.

Quando era miúda, dizia Outubro como quem diz Outono. E Outono como quem diz Outubro. Perdia-me depois na rima, repetindo "sobretudo-outubro-sobretudo". Apanhava-me sozinha em casa e ia mudando de sofá à medida que a preguiça se fundia com a melancolia, tornando-se, sem que eu desse conta, sonho. 

Estão 30 graus na rua. Mas cá em casa é Outono, "a estação híbrida", "uma meia estação indecisa", como a define a Rita Taborda Duarte no seu belíssimo Elogio do Outono (ed. o homem do saco & landscapes d'antanho).



T-shirt comprada numa feira em Amesterdão. Jeans H&M. 
Meias H&M. Ténis Bobux na Organii Bebé.


Julgo que o M. também considera o sofá o melhor sítio para o Outono. Para Outubro. Mesmo quando ambos dispensam o sobretudo. PIM!

P.S. - Tudo isto tem banda sonora.


terça-feira, 9 de setembro de 2014

Planos para hoje.

Planos para hoje: dançar um slow com o M.



"September", de David Sylvian


The sun shines high above
The sounds of laughter
The birds swoop down upon
The crosses of old gray churches

We say that we're in love
While secretly wishing for rain
Sipping coke and playing games

September's here again
September's here again

Camisa Zara. Calções de ganga Name It na Boozt.

Body Zippy.

PIM!

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

"Acende-se um nó na garganta."

"Acende-se um nó na garganta." Assim começa o livro Canto Onde, do meu bom amigo Luís Quintais (ed. Cotovia). Temos ambos filhos pequenos e, sobre eles, trocámos mensagens há uns dias. Numa delas, disse-me: "Não há nada mais bonito do que uma criança: isto é uma banalidade de base, mas é também a única evidência neste mundo onde nada é evidente e onde se lançam bombas para cima de crianças..." Acende-se um nó na garganta, sim.

Também por causa disso - dos luminosos nós - este blogue está em modo intermitente. Porque quem o escreve está em modo intermitente. Entre a possibilidade de espanto e a possibilidade do Horror, entre as conquistas da infância e as perdas da idade adulta. Tudo isto parece, pois, um conjunto de "banalidades de base", mas é um conjunto de evidências "neste mundo onde nada é evidente"... O M. continua, então, sem ver televisão - excepto as vitórias do Benfica. 





Conseguimos sabiamente evitar as derrotas. Desportivas. As outras sucedem-se, acumulam-se, "neste mundo onde nada é evidente", repito, re-cito: Gaza, Iraque, Rússia, Ucrânia, Novo Banco, Banco Mau... O M. desconhece esta linguagem. Sabe apenas uma dessas palavras: "mau". Por causa do lobo. Há dias, assumiu-se seu fã. Do Lobo Mau, sim. "O uôbo, Mãe, o uôbo mau?" e a expressão de quem intui que "há sempre qualquer coisa que está para acontecer". Logo agora tinha que vir um banco usurpar adjectivos.


Banco mau, mãe?! A sério? Então não era um lobo?

Surge então o humor. Se não salva, abre caminhos. Na floresta preferida do Lobo Mau, onde também não se vislumbram evidências. Cá em casa, nunca aprendemos, no entanto, a rir do que se passa no resto do mundo. Temos apenas recursos. Como a curta de animação This Land Is Mine, "a brief history of the land called Israel / Palestine / Canaan / the Levant". Apanhei-a no brilhante Brain Pickings, onde Maria Popova dedica umas linhas a Nina Paley.





É isto o Verão: uma condenação ao resumo. (Não me refiro, como é evidente, à silly season; essa impõe outro tipo de resumo...) Sobretudo os Verões atípicos, os que se aproveitam dessa velha e sábia ilusão que é a pausa, a suspensão, para nos lançarem na armadilha do tempo. 

Eu, por exemplo, estou a aprender a lidar com a energia inesgotável de um bebé 24 horas por dia. Em Agosto, o M. não tem creche; eu e o P. continuamos a ter os nossos "afazeres diurnos", para usar parte de um verso do Pina. Não sei como fazem as pessoas que têm três e quatro filhos. Não sei como fazem e quero saber. Por favor, expliquem-me. Este blogue tem caixa de comentários. Aguardo as vossas receitas mágicas. Preferia que me enviassem poções, já preparadas e prontas a actuar, mas calculo que seja mais simples partilhar receitas.

Chegaram-me ontem... Ontem não, há dois dias talvez; este post está a ser escrito desde Domingo, não há meio de o terminar, o M. acorda, o Continente online chega com mantimentos, os amigos ligam, o trabalho acena ao longe... Dizia: chegaram-me ontem hipóteses no boletim do Baby Center: uma lista de coisas que devo fazer para me manter "sane". Ora, a lista já vem tarde - once insane... - e não me parece que banhos de imersão ou idas ao cabeleireiro me curem. Talvez me deva assumir como dependente. Ou viciada. Dependente da minha criança, viciada na sua autoridade de trazer por casa e pelo coração, na sua energia inesgotável e demolidora para o ser humano comum. Sinto-me em queda nos dias em que as dores de costas se alongam até aos ouvidos e aos dedos dos pés; durmo mais uma hora nessa noite para compensar; no dia seguinte, eis-me novamente capaz de tudo. 

Por isso, nestes dias de ausência, de impossibilidade de escrever neste blogue, de ligar sequer o computador (repito: aguardo poções e receitas mágicas), fingimos que temos realmente tempo. Para o que começa a ganhar a forma de uma fórmula: "as nossas coisas". 

Coisas como, por exemplo, encher balões, encher a casa de balões.



Coisas como vestir os fatos de banho e ir para a praia, crentes de que o vento será brando.



Coisas como espreitar a cidade das nossas janelas. 



E seguir devagar as nuvens a partir do nosso chão.



Coisas como desafiar a luz. Em modo contraluz.



Coisas como fazer festas à nossa andorinha. E aprender a palavra andorinha.


T-shirt Zippy. Calções Zara. 
Andorinha Bordalo Pinheiro n'A Vida Portuguesa.


Coisas como passear os clássicos.


T-shirt Zippy. Calções Zara. Carrinho Imaginarium.
Ímans/ Bonecos "Magnetic Personalities" 
Platão, Kant, Hegel, Nietzsche, Poe na Philosophers Guild.



Coisas como começar a partilhar segredos e rever o livro que aí vem: A Palavra Perdida, com texto meu e desenhos da Marta Madureira (ed. Arranha-Céus).



Coisas como tirar retratos em livrarias e trazer para casa livros que não podemos de maneira nenhuma lá deixar.




Coisas como ouvir um milhão de vezes as canções de que mais gostamos.







Em suma: coisas como criar as nossas próprias regras do Verão. Enquanto decoramos, para estações e tempos futuros, as dos dois rapazes imaginados por Shaun Tan neste belíssimo álbum editado pela Kalandraka. 





Parecem-nos regras imprescindíveis para o veraneante de mente sã.




Por que motivo termino com este livro e com estes rapazes?



Porque Agosto, sendo o menos cruel dos meses, é também o mais traiçoeiro. Não será por mal que junta ao sol o vento quente e a morte gelada dos avós, dos amigos, dos gatos. Agosto, note-se, partilha da natureza do Verão, aqui a norte da linha do Equador. E instala-se nessa fenda onde nada é o que parece, "nada é evidente", para regressar ao início deste post. "Para pequenos e grandes", alerta Shaun Tan, a abrir o livro citado. Refere-se não apenas ao seu álbum, como também às regras do Verão e, por maioria de razão, ao próprio Verão. E às palavras de que gostamos, que aprendemos a guardar desde pequenos. "Porque eu sou pequeno, mas os meus bolsos são fundos", conta o Manuel, narrador d'A Palavra Perdida.




"Para pequenos e grandes" são, assim, As regras do Verão, livro que nos acende um nó na memória e, logo depois, um outro na garganta (as ilustrações de Shaun Tan - magníficas e brilhantes de tão dark - são, aliás, um jogo entre a luz e a sombra, entre os tons da revelação e os do apocalipse...). Demonstra-nos que os nossos medos - reais e imaginados - não mudam à medida que crescemos: aumentam. Tal como a nossa certeza de falhar o resgate do mundo e do último dia de verão; tal como o nosso receio de falhar nas tarefas da casa, nas tarefas da maternidade, nas tarefas da vida. E nas da morte. No caminho de casa. Na palavra-chave. 



Eu tenho uma. Uma palavra-chave. Ensinam-ma livros como este de Shaun Tan. É uma palavra-chave aparentemente simples. Tem, contudo, muitos dentes, dentes luminosos, capazes de desfazerem nós. Aviso que não é nada evidente, a minha palavra-chave, e que, se os dentes se posicionarem de modo a conseguirem abrir a porta desse lugar escuro que é um coração, esconde dentro dela outra palavra ainda menos evidente: "amizade". A minha palavra-chave - uma palavra achada - é esta: PARTILHA. 

PIM!

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Qui é ito?

Se as partidas são agitadas, os regressos nunca são pacíficos. Mesmo quem os prefere, mesmo quem encontra sempre o caminho de retorno, leva algum tempo a acomodar os pés ao chão rugoso da casa, do lugar que habita. O nosso recente regresso não foi, pois, pacífico, mas foi divertido. Na estrada, descobrimos coisas impossíveis. Como, por exemplo, gente que viaja com muito mais do que nós. Gente, no fundo, muito mais equilibrada do que nós.


                                                                    T-shirt NYPD comprada na rua, 
                                                                    em Nova Iorque. Calções Knot.

E, no entanto, trouxemos connosco quilos e quilos de bagagem. Malas e malas cheias de coisas invisíveis. Que é como quem diz: de palavras. Novas palavras, que ecoam pela casa: "tios", "pimos" ["primos"], "paia" ["praia"], "paxina" ["piscina"]... Novas palavras que se juntam assinalando o princípio do sentido (questionando-o): "Qui é ito?" ["O que é isto?"].




Certa manhã, acordei e fui à cozinha. Na cadeira, estava sentado o F., seguindo, com o olhar, o M., que cirandava por ali. Reparo agora que a palavra "cirandar" devia escrever-se com "s". A Sophia defendeu-o em relação à palavra "dança": escrevê-la com "ç" equivale a sentá-la. Ora, o M. não estava sentado; era o F. quem estava, acompanhando com o olhar o M., no seu circuito inquieto pela cozinha. O M. "sirandava". Ele e a sua curiosidade. "Qui é ito?", perguntava apontando para os electrodomésticos. E o F., na sua pré-adolescente pachorra, respondia: "Um micro-ondas." "Qui é ito?" "Um frigorífico." "Qui é ito?" "Um forno." "Qui é ito?" "Uma torradeira." Quando achava piada à palavra, o M. repetia-a, rindo-se muito: "Fizóri!", "Tuadára!". E "sirandava", "sirandava", o grande conquistador de vocabulário.

Cá em casa, tudo se repete. Ontem, o P. esteve a proteger gavetas e armários. O grande conquistador de vocabulário é também o grande conquistador de interiores. "Qui é ito?" "Ferramentas." "Qui é ito?" "Uma tesoura." "Qui é ito?" "Qui é ito?" "Qui é ito?" Um dia, não vou saber.

Enquanto isso, continuamos a conquistar novos sons. Experimentámos mais um presente do baptizado do M.: um xilofone. Oferecido pelos Tios R., Cat. e C., é um xilofone que merece um milhão de estrelas.



T-shirt Zippy. Shorts Moonkids. Sapatos Livie & Luca (aqui).
Xilofone Decor-Spielzeug (aqui).

Cada cor corresponde a uma nota musical. Enquanto o M. se está a divertir imenso, eu e o P. estamos a (re)aprender imenso. Parece-me justo. É assim o regresso: algo ou alguém nos aguarda, tecendo. PIM! 

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Rumo na vida. Um beijo, um beijo.

Um dia partimos em digressão com o Sérgio Godinho. Eu, o M., o P. e outros amigos-família, como o JP e a F.. Não foi bem assim, mas quase. Estivemos com o Sérgio numa só paragem: o Funchal. Tínhamos ido para o meio do mar para podermos participar no Festival Literário da Madeira e apresentar lá o meu livro A Habitação de Jonas. O M. estava a meio caminho entre os 4 e os 5 meses e não o consegui deixar. Nem podia: ainda estava a amamentar. Passava os dias entre as conversas do festival e os passeios com o M. e o P.; passava as noites entre os jantares e os concertos do festival e os sonhos do M. e do P., que ficavam no quarto do hotel, à minha espera. 

Um dos melhores momentos dessa edição do FLM foi o concerto que o Sérgio Godinho deu no Teatro Municipal Baltazar Dias. Bem sei que estava há meses e meses sem pôr os pés num concerto e que tal facto pode ter tido influência no modo como senti todas aquelas canções, naquele belíssimo palco, com aquele incrível intérprete, que não envelhece, está cada mais jovem, mais generoso. Pareceu-me perfeito. 

No fim do concerto, o Sérgio, que à hora das refeições tinha as suas conversas com o M., comentou comigo: "Estive mesmo para dedicar 'O primeiro gomo da tangerina' ao Manel, mas a canção fala da menina, a minha filha, não podia ser." Ficou a intenção dele e a minha promessa de um dia, quando o M. começasse a achar graça às meninas, pôr "O primeiro gomo da tangerina" a tocar na grafonola cá de casa.




Promessa cumprida. Ouvimos e lemos. O M. conhece a menina, chama por ela. A menina que a Madalena Matoso desenhou e que é toda ela "sumo na vida", "rumo na vida", "um beijo", dois, três, mil... A menina tem tempo, tem os cabelos ao vento, tem "um 'popó'!!!", anuncia o M..





O primeiro gomo da tangerina, de Madalena Matoso e Sérgio Godinho. 
Ed. Planeta Tangerina (as imagens são do site da editora).


Agora, quem conseguir espreitar pelas nossas janelas, cá para dentro, lá fora vai estando tudo na mesma, achamos nós, que calçámos os nossos sapatos mais confortáveis e pusemo-nos a dançar. Descalçámo-los depois para conseguirmos acompanhar a menina. Para conseguirmos acompanhar o Sérgio, que vai cantando várias vezes a canção, enquanto o M. circula pela casa, aperfeiçoando a sua dança-pêndulo e chamando, bem alto, a "m'nina". Já começou a descobrir os encantos da "m'nina", da palavra "m'nina", do som da palavra "m'nina", que é sempre por onde tudo começa. PIM!

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Dança até chegares ao fim do dia.

Nos tempos em que mandava eu na minha agenda, costumava ir jantar uma vez por mês com três amigas. Éramos cúmplices na degustação de iguarias japonesas, no cumprimento natural do velho "erguer cedo, mesmo que não te tenhas deitado cedo, dá pouca saúde, mas pode fazer uma ideia crescer" e na invenção de "projectos", textos e trabalhinhos afins. Num desses jantares, bebemos saké (em vários, é verdade; porém, esse foi o mais eficaz e apreciado saké) e eu inventei aquilo que, entre nós, se passou a designar como "Dead Combo dance". Os Dead Combo são, pela saúde deles, alheios a tais movimentos de corpo, os quais, pela saúde dos leitores deste blogue, são impossíveis de demonstrar com palavras. Garanto-vos que deviam estar agradecidos. A inesquecível "Elaine dance", marco na história de Seinfeld, ao pé da "Dead Combo dance", é coisa de um amadorismo tal que nem devia ser aqui mencionada. Recordemo-la, no entanto:



Uma das amigas que partilhou comigo o momento emocionante em que veio ao mundo a "Dead Combo dance" enviou-me ontem este vídeo, ao qual chamou "Baby Dead Combo":


Dança contemporânea coreografada e dançada por um bebé mais pequeno que o M.. Já experimentámos cá em casa. E, na esteira de qualquer crítico contemporâneo, para não me comprometer assim tanto e manter a distância de segurança, não posso dar mais de três estrelas ao meu filho. A razão? Explora de modo demasiado intenso, quase gratuito, o movimento pêndulo. A coreografia não evolui a partir do momento em que o M. abre as pernas e vai levantando ligeiramente um pé e depois o outro, oscilando o corpo para a esquerda e para a direita. Dez, vinte segundos disto resultariam num instante luminoso e criativo; dez, vinte minutos disto servem apenas para um pai exausto ou uma mãe exausta poderem fazer uma ligeira sesta no sofá, agradecidos, é certo, e no entanto entediados. Três estrelas, caro M.. Toca a trabalhar, a ver filmes que revelam o que andam a fazer os bebés talentosos por esse mundo fora. 

Há que reconhecer, todavia, que o movimento pêndulo proporciona grandes pensamentos e facilita a associação dos mesmos. Enquanto seguia o M. nas suas movimentações pendulares, ocorreu-me não só o tanto que este rapaz tem que aprender até chegar à sofisticação de uma "Dead Combo dance", como também o belíssimo álbum Dançar nas nuvens, de Vanina Starkoff, editado em Portugal pela Kalandraka.




É a história de uma menina que tem um sonho. E que tem também um adulto ao lado, ou seja, a antítese do sonho.



Felizmente, a menina sabe o que é preciso. Para preservar a infância. E os sonhos:


Eu insisto: leiam este livro. Mesmo que depois queiram regressar à realidade.

Surgiu-me ainda outro álbum nos meus pensamentos, enquanto imitava o bebé-pêndulo: Dança quando chegares ao fim, de Richard Zimler e Bernardo Carvalho, uma edição da Caminho. Procurei-o nas estantes. Também o temos cá em casa. Sei que o temos cá em casa. Não o encontrei. Não o encontro (podem espreitá-lo aqui). Às vezes os livros insistem em mudar de estante, de casa. Por alguma misteriosa razão, costumo encontrá-los, passados meses, na fina ranhura que resolveram deixar vazia por uns dias. Provavelmente, o nosso exemplar do Dança quando chegares ao fim achou por bem afastar-se do ainda rudimentar movimento pendular. Está apenas a ser coerente, pois é livro que partilha este conselho:


 Sendo certo que também recomenda isto:


O que significa que me juntarei sempre ao movimento pendular do M.. Ou às criações da Marta Bernardes, que está hoje na Gulbenkian a dar corpo e movimento a sons e palavras com as suas - suas e do José Valente - Fabulosas fábulas da terra de nenhures. Eis o que me contou a Marta sobre esta sua nova aventura pelo desconhecido:

"Fabulosas Fábulas em Terra de Nenhures" é um pequeno momento teatral que mistura a criação de vídeo-animação em tempo real, a partir da manipulação de objectos, com música e sonoplastia criada ao vivo.
A partir de três histórias criadas pelas crianças, é construído um mundo delirante e de enorme plasticidade, de possibilidade insonhada e divertimento: histórias de amizade entre objectos, amores entre criaturas incompatíveis, números extraordinários de circo, encontros na floresta com seres imaginários. Um festim de brincadeira, que é coisa muito séria.

Imagem retirada do FB da Marta.


Reparem bem: "A partir de três histórias criadas pelas crianças, (...) um festim de brincadeira, que é uma coisa muito séria". Hoje, na Gulbenkian. Já começou, aliás. Há sessões ao longo de todo o dia. Façam-se à estrada. A correr. Ou a dançar. PIM!