sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

É então isto para crianças? — Parte V: let's look at the trailer.

Amanhã começa a segunda edição do festival Play. À sessão de abertura, às 17h30, no S. Jorge, vou levar o A., que, aos 8 anos, tendo já passado a fase de assinalar as diferenças, atravessa o momento de aprender a aceitá-las. O filme espanhol Floco de Neve parece-me perfeito neste contexto:




Mais destaques do primeiro dia do Play estão na página do Facebook do festival e aqui:


A programação do Play pode ser consultada aqui.

Um deles é o filme Papel de Natal, do José Miguel Ribeiro, a escolha do cineasta para partilhar no colóquio "É então isto para crianças?".




Sobre ele, disse-me o José Miguel: "Este filme claramente nasce de uma consciência de que alguma coisa tem que mudar. E, se queres mudar o mundo, começa pelas crianças. (...) a nossa mensagem introduz-se um bocadinho na consciencialização de que vivemos numa casa que tem paredes, tem limites, e nós temos que cuidar dela. É essa consciência de que, quando fazemos um gesto, e no filme isto está mostrado, podemos alterar o mundo."

Papel de Natal recupera uma das minhas personagens preferidas do cinema de animação português mais recente: Dodu, o rapaz de cartão


Há muitas outras, para descobrir no dia 9 de Fevereiro, na Gulbenkian, tendo como guias o Afonso Cruz, o Fernando Galrito (e o festival Monstra está quase a chegar!) e o João Paulo Cotrim, numa mesa moderada pela Filipa Leal.




Deixo-vos só mais duas — duas meninas. A de História trágica com final feliz, filme da Regina Pessoa



e a menina de olhos a piscar de Sem Querer, imaginada pelo João Fazenda e pelo João Paulo Cotrim para aquele que foi considerado o melhor filme português no 35º Cinanima. Podem espreitar o trailer aqui.

Se é então isto um filme? Dois filmes? Sem dúvida. Se são filmes para crianças? Dia 9 de Fevereiro, podem perguntar aos autores. A mim, deixam-me o coração a bater depressa e os olhos azuis a piscar. PIM!

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

É então isto para crianças? — Parte IV: O que faltava acontecer.


Falar de espectáculos para a infância e a juventude em Portugal é falar do trabalho da Madalena Victorino, que criou, no CCB, o primeiro espaço nacional "de fruição artística internacional para um público jovem". Foi lá que conheci o trabalho da própria Madalena, assim como o do Fernando Mota, sobre quem escrevi recentemente aqui (e que é o inconfundível responsável pela banda sonora do espectáculo que motiva este post), e o da Aldara Bizarro. 

Todos eles vão passar pelo colóquio É então isto para crianças?, onde a Aldara, num depoimento filmado, partilhará o espectáculo "A preguiça ataca", criado precisamente no seguimento de uma encomenda da Madalena Victorino para o CCB. À mesa com a Madalena estarão sentados o António Jorge Gonçalves (sobre quem tantas vezes já aqui escrevi), a Patrícia Portela e a Susana Menezes, numa conversa moderada pela Clara Caldeira, que contará ainda com outro depoimento, da Maria de Assis Swinnerton, directora do programa Descobrir da FCG.


A segunda mesa do dia 10 de Fevereiro do colóquio
"É então isto para crianças?"


Hoje de manhã, eu e a Clara fomos ao Dona Maria ver "À espera que volte", um projecto educativo do Teatro do Montemuro dirigido à comunidade escolar. Contou-nos a Ana Ascensão, do TNDM II, que a peça foi criada para ser mostrada nas salas de aula das escolas da zona da Serra de Montemuro, uma vez que são poucas as salas de espectáculo dessa região. As salas de aula foram, assim, transformadas numa espécie de nuvem-laboratório, se os cenários se tiverem assemelhado ao que estava hoje montado na sala-estúdio do D. Maria, com duas filas preenchidas por alunos de uma escola lisboeta que misturava meninos e meninas de várias idades, raças e etnias.


Imagem retirada daqui.

Eu e a Clara éramos, pois, duas peças fora do baralho daquela turma que começou por se  juntar no hall do Teatro Nacional para que Piotor, um homem forte e bom que trouxe da Rússia a história de uma gota de água, pudesse recrutar sete crianças para a peça, encenada pela Madalena Victorino (o texto foi criado com Paulo Duarte, que interpreta — maravilhosamente, sublinho — Piotor). 

Naqueles instantes no hall — eu e a Clara sentadas num sofá, os meninos à nossa frente, olhando-nos de vez em quando como quem pergunta "E aquelas duas? Não saem dali? São como o busto do Garrett?!" —, lembrei-me imediatamente não apenas da dimensão humanística do trabalho da Madalena (reforçada depois pela história da peça e pela interpretação do Paulo Duarte, que levanta um menino no ar, que narra com a voz e com o corpo, que — generoso  — integra, inclui, convoca...), mas também do modo como, no seu trabalho, envolve sempre a comunidade, o público, gente de todas as idades e de todos os cantos. Ocorreu-me ainda o título que a Madalena escolheu para o breve texto que sintetiza os aspectos que vai abordar no colóquio "É então isto para crianças?": "Um espectáculo pode ser aquilo que faltava acontecer entre uma criança e um adulto".

"À espera que volte" tornou-nos pares e, por isso, pareceu-me aquilo que faltava acontecer entre os alunos daquela turma e os seus professores; pareceu-me aquilo que faltava acontecer entre aquelas quatro meninas e aqueles três meninos, em 10 minutos transformados nos mais competentes e empenhados "pequenos músicos russos" que alguma vez vi, e aquele actor; pareceu-me aquilo que faltava acontecer entre as pessoas sentadas ali, nas cadeiras da sala-estúdio, e Piotor, o russo que se instalou na nossa memória e desafiou a nossa imaginação. Em suma: pareceu-me aquilo que faltava acontecer na minha manhã. No meu dia. PIM!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

É então isto para crianças? — Parte III: Fernando Mota, sons e palavras para todas as infâncias.

Ontem, chegaram-me, pelas várias caixas de correio que costumo abrir diariamente, duas belas notícias: 

. uma é a de que o colóquio "É então isto para crianças?" já tem e-card (partilhem, partilhem!);


Imagem de Ana Ventura.


. a outra é a de que o Teatro São Luiz conseguiu mais espaço para o espectáculo Photomaton — Divertimento para viola portuguesa e mala preparada, do genial e sempre surpreendente Fernando Mota. Ou seja, há mais bilhetes para os espectáculos de sábado, às 16h, e domingo, às 11h (corram, corram!).


Imagem retirada do site do São Luiz.
Mais aqui.

Há uns anos, vi um espectáculo do Fernando Mota chamado Motofonia. Foi o subtítulo que me conquistou: "Um solo poético para todas as infâncias". Arrastei o F., o A. e a minha mãe. As nossas infâncias coincidiram, de repente, enquanto assistíamos a momentos assim:




Desde esse primeiro espectáculo que o Fernando criou para a infância, fiquei atenta ao seu trabalho e, quando surgiu a hipótese de comissariar o colóquio "É então isto para crianças?", foi um dos primeiros nomes de que me lembrei. Queria mostrar uma criação do Fernando e, por isso, pedi-lhe que escolhesse ele um dos seus espectáculos, para comentar e para partilhar com quem passar pela Gulbenkian nos dias 9 e 10 de Fevereiro (recordo que o mote do colóquio é a partilha). 

O Fernando escolheu as Canções Nómadas, criação que foi mostrada no CCB em Junho do ano passado. E o seu depoimento integrará a conversa "É então isto uma canção?" (dia 10 de Fevereiro, das 10h às 12h30, na Gulbenkian).




Sobre estas Canções Nómadas, nas quais participam também o Rui Rebelo e a Carla Galvão, disse-me o Fernando que são "uma viagem por canções em várias línguas, em vários continentes, em vários países. É um hábito que temos em vários espectáculos, o de incluir outras línguas, até línguas que nós não percebemos. Achamos que é uma acção social e política para ter com as crianças, a de habituá-las a outras realidades, a outros contextos, a outras culturas. E de abordá-las da perspectiva do fascínio, não do medo. Do fascínio pelo diferente, pela novidade, pelo outro." 

Só isto bastava para justificar aqueles dois adjectivos que usei linhas acima para descrever o Fernando: "genial" e "surpreendente". Só isto bastava para haver quem, ao ler estas linhas, esteja já a correr para o S. Luiz para conseguir os últimos bilhetes do Photomaton

Eu tenho três: o meu, o do F. e o do A., que, quase quatro anos depois de Motofonia, aguardam o reencontro com uma criação do Fernando. PIM!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Uma coisa em forma de espanto.

Um dos poemas do meu primeiro livro de poesia, As Coisas (ed. Abysmo), termina com este verso: "como uma coisa lenta em forma de espanto". O espanto sempre foi, para mim, uma hipótese de abrandar, uma hipótese de reparar, uma hipótese de regressar. 

Até que levei o meu sobrinho A. ao Espaço de Mulheres (Clube Estefânia) para ver comigo a peça que a minha amiga Ana Lopes Gomes protagoniza: O Mundo das Cores (texto de Pedro Cavaleiro, encenação de Isabel Medina). Foi então que o espanto ganhou a forma de um balde encarnado. Porque a Rodolfa, a personagem interpretada pela Ana, quando se espanta, põe na cabeça esse balde, que traz sempre dentro da mochila. E, quando pensa,  põe-se a roer um sapato — um sapato gigante e improvável. Tão improvável quanto pensar que num dia a Ana está a fazer rodas em cima do palco, a cantar rodeada de meninos e a fazer cócegas a um homem que só sabe cumprir horários e trabalhar (a tal ponto que chama Coisa, Coisinha e Coisinho à mulher e aos filhos), e noutro dia está num palco algarvio a contorcer-se de dores de parto, numa cena física e psicologicamente violenta d'A Cabeça Muda (texto de Cláudia Lucas Chéu, encenação de Rui Neto, dias 22 e 23 de Janeiro no Teatro das Figuras, em Faro). 

Como eu acredito em sapatos gigantes e improváveis — como não, se calço o 41? —, acredito que a Ana é capaz. Até porque já vi que é. PIM!


A Ana, a Joana Castro e o Ruy Malheiro.
O Mundo das Cores fica até 15 de Fevereiro 


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

É p'ra meninos! (É então isto para crianças? Parte II)

É P'RA MENINOS. E meninas. E alguns senhores e algumas senhoras. Os que ainda não apagaram a luz da infância. Em suma: é p'ra supernovos. 

O primeiro dia do colóquio É ENTÃO ISTO PARA CRIANÇAS? (9 e 10 de Fevereiro, Fundação Calouste Gulbenkian) termina com o espectáculo É P'RA MENINOS. 

Para subir a um palco improvável da Gulbenkian, chamámos os supermaravilhosos Manuela Azevedo, Hélder Gonçalves, B Fachada e André da Loba. E eles vão cumprir o que prometem (para não ficarem de castigo):

No final de 2010, B Fachada edita o álbum É p’ra meninos. Poucos meses depois, os Clã lançam Disco Voador, canções para os supernovos. Neste concerto, estes dois projectos cruzam-se e partilham as suas experiências, dúvidas e inspirações ao se lançarem na aventura de fazer música para crianças. Às canções juntam-se ainda os "coros" dos objectos do ilustrador André da Loba.

Na manhã seguinte, a de 10 de Fevereiro, Manuela Azevedo e B Fachada participarão na mesa "É então isto uma canção?".

Até lá, vou-me entretendo com alguns dos sons, das imagens e das palavras que estes quatro supermaravilhosos gostam de partilhar com meninos e meninas, senhores e senhoras:


. a Manuela Azevedo gosta de partilhar o álbum Canções de Brincar, da Palavra Cantada;

. o B Fachada gosta de partilhar A Cigarra e a Formiga, de La Fontaine, e Os Três Porquinhos, de Walt Disney;

. o André da Loba gosta de partilhar o Codex Seraphinianus, de Luigi Serafini;

. e o Hélder Gonçalves gosta de partilhar os três álbuns de Soothing Sounds for Baby, projecto de música electrónica do americano Raymond Scott.

Para ouvir aqui, na íntegra, o volume I, de 1962. PIM!




quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

É então isto para crianças? — Parte I: Sentada no dorso de um leão.


Tanta culpa, tanta culpa, tanta, tanta, tanta, por ter deixado este meu blogue de porta fechada por uns tempos. Já tentei justificar-me com os bichos que me invadiram a casa — bichos feitos livros (e livros feitos bichos), sobre os quais prometi escrever aqui em breve. Cumprirei a promessa. Por agora, reabro a casa, que ficou desamparada como uma cabana de praia em dias de tempestade, para ir partilhando o que vai acontecer a 9 e 10 de Fevereiro na Gulbenkian. Anunciei-o aqui, no Facebook, quando saiu, na newsletter da Fundação Calouste Gulbenkian, a notícia sobre o colóquio É ENTÃO ISTO PARA CRIANÇAS?, que estou a comissariar a convite do Programa Gulbenkian de Língua e Cultura Portuguesas. 




Nos próximos dias, até o colóquio arrancar, darei pistas sobre o que lá se vai passar. Por agora, deixo parte do texto de apresentação que escrevi:


É então isto para crianças?
Criações para a infância e a juventude


É antiga a questão que dá título a este Colóquio: o que é afinal uma criação para a infância? Cria-se para ou será que o que é criado encontra naturalmente, na sua fase final e última, aquele a quem se destina?
Deste ponto parte o nosso Colóquio, propondo aos intervenientes e ao público uma reflexão sobre as motivações de um criador num momento em que as crianças ocupam, no espaço público, um papel central: quase todos os museus e teatros têm serviços educativos, os festivais de cinema e música apresentam secções destinadas aos mais novos, multiplicam-se as editoras que apostam em livros infanto-juvenis, assim como os escritores e ilustradores... O que se pretende transmitir às crianças com tantas actividades e com tantas possibilidades? Não será certamente apenas uma forma de as entreter. Talvez seja acima de tudo um modo de lhes revelar que, no que diz respeito à leitura do mundo, não há fórmulas nem manuais de instruções; e talvez seja ainda um modo de sublinhar a necessidade da partilha.
A partilha apresenta-se, pois, como o mote para estes dois dias dedicados à infância e à juventude. A partilha enquanto tópico problemático na infância: por um lado, à medida que se descobre o mundo, há uma necessidade de tudo partilhar, de comunicar; por outro lado, ao se adquirir a consciência de que o mundo e as suas coisas podem ser nossos, vai-se encarando a partilha como risco.
Assim sendo, propõe-se aos criadores reunidos neste Colóquio que tragam um livro, um filme, uma canção, em suma, uma criação para a infância que os tenha influenciado, para que, partindo dela, nos apresentem as suas respostas às perguntas que dão título a cada uma das conversas deste Encontro. Pretende-se com isto o cruzamento de vozes, a troca de experiências e modos de criar; em suma: a partilha.

A partilha. Foi talvez o maior tesouro que trouxe da infância, quando o meu Avô Zeca me passava a mão pelo braço, o punho cerrado se a história era a do Leão Velho, as unhas à gato se a história era a do Leão Novo. Cresci sentada no dorso de um leão. Com a imaginação à solta. PIM!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Lista de presentes

Agora que voltei a acreditar que o (Pai) Natal pode realmente chegar, peguei em papel e caneta e pus-me a fazer listas. Daqui Ninguém Passa. Daqui, da minha lista; daqui, do book trailer de um dos mais recentes livros do Planeta Tangerina. Daqui, das páginas deste livro desenhado a canetas de feltro pelo Bernardo Carvalho a partir das palavras da Isabel Minhós Martins.





Assim se fazem listas de Natal a abanar a anca. Acrescentando umas canetas de feltro para o M.. PIM!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Às vezes, até parece que é mesmo Natal.

A Maria Remédio e o João Fazenda têm uns livrinhos novos e muito preciosos. Amanhã, vou conhecê-los. E depois darei notícias. 

Por enquanto, há que dizer que a HiHiHi é uma editora criada pelo atelier VIVÓEUSÉBIO (como não amar este nome?...).

Aqui fica o mapa para chegar a estes tesouros:




Às vezes, podemos voltar a acreditar no (Pai) Natal. Por causa dos livros de colorir. Poder pintar fora do risco. Poder pisar o risco. Poder misturar e reaprender que encarnado com amarelo por cima até pode dar laranja. Nem que para isso tenhamos que imaginar. PIM!

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Arquivo.

Amanhã, rumamos a Leiria. Talvez alguém já tenha encontrado por lá A Palavra Perdida.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Eu já perdi as certezas. E, com elas, algumas palavras.

Mas, ainda assim, o M. pergunta-me muitas coisas.


Sweat Bobo Choses na Orfeo (aqui).

Mãe, tens a certeza de que são dois anos? Gosto das coisas às mãos cheias.

PIM!

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

O Natal chega sempre tão cedo.

O Natal chega sempre tão cedo. Mas às vezes surgem coisas que lhe dão sentido.




Mais informações aqui.

Seremos assíduos e pontuais. PIM!

terça-feira, 4 de novembro de 2014

É meu.

Já enfrentámos várias obsessões: a luz (luiz), a mãe (mamã, mã), o pão (páum), a mãe (mãe, mãe), o popó (carruuu, popóis), a mãe, o polícia (pulíxia), a mãe, a manteiga (mantxêga), a mãe, o lobo mau (bôlo bmau), a mãe, o monstro (motxo), o não, a mãe, o não, o não, o não. O não demorou algum tempo a passar e, na verdade, é palavra que não se deve erradicar da linguagem dos meninos determinados, cheios de vontade de viver. Vai-lhes temperando a existência. Porém, sendo um estado permanente, atravessa momentos de esquecimento. Esquecer para se ter a certeza de que o não é realmente coisa possível, coisa "possuível", se a palavra existisse. Como existe o não. O não do M.. Uma espécie de tentativa de fim.

Mas "nãos" já eu conheço muitos, julgo até que conheço todas as tonalidades do não. Consta que, com a idade do M., era perita em transformá-lo em palavra dita. Depois, tornei-me perita em transformá-lo em palavra ouvida, em trazê-lo para casa, os braços muito aflitos de "nãos", embrulhados em mágoa e lágrimas. O não é, pois, um velho amigo; temos uma relação pacífica, estou sempre preparada para o receber, mesmo quando não me apetece estar com ele. Não estava, contudo, preparada para o que o M. me lançou no fim-de-semana, ao jantar: "É meu. Isso, mãe, é meu." 

O M. começou a ter. Quer ter bom tempo no jardim e ajoelha-se como quem pede aos deuses um bocado de sol para brincar. Tem talvez o princípio da fé. Ou então tem a certeza de que aquele seu ar de anjo loiro até os deuses convence. 


Casaco Zara. Jeans H&M. Ténis Bobux na Organii Bebé.


E, no entanto, aquele "É meu. Isso, mãe, é meu." foi uma história sem deuses, foi uma história quase prosaica (quase porque o pequeno anjo quebra qualquer tentativa de prosa), foi a velha história romanesca de que um português corre sempre para a comidinha.

"É meu. Isso, mãe, é meu." Era, de facto, dele o fio de esparguete que eu tentei comer. Foi por aí, por um fio, que começou a posse cá em casa. PIM!

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Realeza.

Dia de apresentar uma rainha ao M.. 




Bem cedo. Quando as palavras são apenas sons. 




O M., que sempre gostou de tronos.


Foto de David Reis. 


P.S. - Estamos quase de regresso. Só nos falta o mapa da última parte do caminho. PIM!

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Eu sou membro deste clube.

Enquanto espero por Domingo, vou aprendendo com Shaun Tan.

Imagem de Shaun Tan retirada daqui.


"Who would not want to be a member of this club? Originally an editorial illustration for a reading guide supplement, this painting has much to say about the way books can bring different people together without insisting on any kind of uniformity."


Shaun Tan por Shaun Tan no The Guardian. PIM!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Pistas.

Tenho andado a deixar aqui pistas para se encontrar A Palavra Perdida. Gosto dos aplausos da Filipa Leal na Senhora Clap, gosto que o Luís Quintais se tenha lembrado de Wiitgenstein, gosto da referência no belo Fine Fine Books. Mas a minha pista preferida está escondida dentro de uma história do meu sobrinho António. Está aqui e, mesmo assim, vou transcrevê-la:


O António, um dos primos do Manuel (o do livro e o da vida real) e, por isso, sobrinho de uma das autoras deste livro (a que inventou as palavras), armou-se em detective:
— Tia, acho que te enganaste aqui numa página.
— Foi?! Onde?
— Aqui: o Manuel diz que só tem o nome dos primos, mas depois, nos desenhos, aparece o nome dele.
— Lê lá outra vez, António.
— Ah... Pois... Ele diz que tem também o nome dele... Pois é. Como sou primo, liguei aos nomes dos primos. E pensei que era uma partida e que o nome dele fosse a palavra perdida.
— Então, mas ele diz logo no início que se chama Manuel. Não foi o nome dele que perdeu.
— Mas podia ter perdido entretanto, depois dessa página. Ou não? Nunca perdemos o nosso nome?

Eu continuo à procura de resposta para esta pergunta.

O livro vai ser apresentado pelo Afonso Cruz no domingo, às 17h, na Galeria Monumental. As leituras serão da Filipa Leal




"A Palavra Perdida" é uma homenagem ao Manuel António Pina — meu amigo, amigo da Marta Madureira, amigo do João Paulo Cotrim. Provavelmente, este livro nunca teria sido escrito se eu não fosse leitora do Pina. E, provavelmente, as ilustrações da Marta seriam outras se também ela não fosse leitora do Pina e não tivesse já ilustrado o primeiro livro que o Pina publicou, O País das Pessoas de Pernas Para o Ar (1973). No domingo, 19, dia em que apresentamos em Lisboa "A Palavra Perdida", passam dois anos da morte do nosso amigo, do nosso poeta. Tenho a certeza de que quem conseguir encontrar por ali a palavra perdida vai certamente conseguir avistar por ali o Pina. 


PIM!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Filmes para os dias de chuva.

Dizem que o vento faz pior do que a chuva: causa mais depressões, deixa-nos mais tristes, leva-nos mais energia. Talvez (e segue a tese pouco ou nada científica) porque, com vento, ainda nos atrevemos a sair — do pijama, de casa. A chuva intimida mais, apela ao recolhimento, insiste connosco (fingindo-se pouco autoritária) para que não nos afastemos demasiado do lugar onde perdemos os guarda-chuvas (toda a gente sabe que, durante o Verão, os guarda-chuvas se reúnem no fundo do armário mais inacessível da casa, conspirando). A chuva, quando passa, dá-nos poças capazes de justificar a existência de pares de galochas. E, quando não passa, instala-nos no sofá a ver filmes destes, do Jérémy Clapin, que o Alex Gozblau ontem partilhou comigo.





E é então que começa a chover dentro de nós. PIM!

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Um novo modo de exclamar PIM!

Há uns meses, a Marta Madureira, minha generosa cúmplice, ofereceu-me este desenho para o PIM!. Passei demasiado tempo a tentar encaixá-lo aqui, de modo a que ficasse perfeito. Mas perfeito já é o desenho. Por isso, não vou esperar mais. De agora em diante, é esta a imagem do PIM!.



Se repararem bem, está aqui tudo o que importa: um P., um I. e um M., que soam a qualquer coisa parecida com uma palavra, da mesma substância que uma palavra; umas rodas que parecem levar este foguetão-carro-peixe-avião em direcção ao espanto que é aquele ponto de exclamação, que são aqueles olhos redondos fitando a exclamação; uma tesoura entre as rodas para que não nos afastemos assim tanto de casa; e umas mãos a segurar uma bola, como quem encesta no I.. Está aqui tudo. Eu vejo. Espero que vocês também. PIM!


OBRIGADA, MARTA!

sábado, 11 de outubro de 2014

Buenos Aires, 2009.

Passei por aqui apenas por causa dos retratos e dos álbuns de família. No meu, está esta fotografia tirada em Dezembro de 2009, em Buenos Aires. Do lado esquerdo, a minha amiga Mafalda; do lado direito, eu.



"Mafalda, não olhes agora, estão a tirar-nos o retrato. Queria apenas abraçar-te, dar-te beijos, agradecer-te os momentos todos que temos passado juntas, dizer-te que te amo amo amo, que por ti passo raias e fronteiras, contar-te que a tua tartaruga, aquela a que deste o nome de Burocracia, ainda está viva e cheia de saúde." PIM!

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Alerta vermelho.

O país está em alerta vermelho. Poucos o sabem. Eu garanto que está. E não tem nada a ver com o tempo. Ou melhor: tem, mas não com o meteorológico. A temperatura continuará amena, a chuva cairá aqui e ali, interrompendo o sol sem grande convicção. O motivo para o alerta vermelho é outro: estão praticamente esgotados os bilhetes para Retrato Falado, uma "peça" do João Fazenda que o Maria Matos acolherá a partir de amanhã e até dia 15. Trata-se, afinal, de uma questão de tempo, do chamado timing. Quem não sair agora a correr para a bilheteira, perde-se, desencontra-se no caminho que leva até ao Jorge (já vou dizer quem ele é). E trata-se também de tempo, deste que está agora mesmo por aqui a passar, que passa e passa e passa à medida que eu escrevo "passa e passa e passa", à medida que vou acrescentando palavras a este texto (notem: eu sou rápida, muito rápida, defendem os meus sobrinhos, que nunca viram ninguém escrever assim no computador, "és veloz, Tia", sou). Enquanto escrevo, enquanto o tempo "passa e passa e passa", há quem esteja a acrescentar fotografias ao álbum de família. A cristalizar o tempo, evitando — ilusoriamente, é certo, mas com teimosa persistência — que o tempo passe e passe e passe. A fixar o rosto, inalterado, na fotografia, revelada no álbum ou na moldura. Escreveu um dia o Manuel António Pina, num poema de que me lembrei ontem quando assisti a um ensaio de Retrato Falado

(...)
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
(...)


O nosso próprio rosto — que não é um só, o que autoriza a correcção: os nossos próprios rostos ajudam-nos a compor a história, a nossa história, sem a qual não haverá outra, muito menos a que grafamos com maiúscula. Ou haverá, mas alheia a nós. O que pode ser tão grave quanto nós lhe sermos alheia a ela.

Ora, o Jorge (ei-lo!), o narrador de Retrato Falado, protagonista do texto de Pedro da Silva Martins que o João Fazenda desenha enquanto o ouvimos, ao Jorge, contar a sua história (partes dela, momentos, os que ficaram nos "retratos nas molduras", nos álbuns), o Jorge está preso à memória na mesma medida em que está preso às molduras. Mas, estando, acima de tudo, preso à imaginação (ele precisa de criar fios capazes de ligar um retrato ao outro), o Jorge é necessariamente livre. 



Nisto tudo fui pensando ontem, quando assisti ao ensaio de Retrato Falado. Privilégios de uma fã ancestral que partilhou um livro com o João, o nosso As Coisas (ed. abysmo), que também tinha retratos nas molduras. Aqui, por exemplo:

AS COISAS PARTIDAS

E no entanto não existiam coisas partidas 
nem se avistavam cacos. 
Quando ela te chamava e dizia o teu nome 
ouvia-lo subitamente desprendido.
E tudo se ordenava. 
Nos copos havia whisky para as visitas, 
mazagran para as crianças, caídas aos tombos 
em cima dos sofás, ignorando futuros, esquemas, mapas 
e caminhos. Algumas nem sabiam o teu nome. 
Pouco importava. 
Nas casas onde as coisas em vez de ignoradas 
são coladas perduram fiéis os retratos nas molduras. 
Não fantasmas, visitas. A elas, servem-se bebidas 
em copos remendados.

O tom do whisky, antídoto da memória, 
disfarça os riscos de cola, as tentativas de regressar.



A partir de amanhã, o centro do palco é do João Fazenda. Dá para espreitar os desenhos, o modo como lhes acrescenta fios, traços (narrativas), as minúsculas figuras de papel que coloca debaixo da luz do projector, recortes, papéis, que, mal se deixam iluminar pela luz, ganham, na tela, uma dimensão próxima do real, não fosse a imaginação salvar-nos de novo dessa hipótese de queda na realidade e ampliar ainda mais as figuras, os rostos da família do Jorge, o seu próprio rosto. 




E o Jorge é rapaz para confundir um bigode com uma andorinha. Ou vice-versa. É claro que, neste momento, me lembrei do bigode d'O Senhor Pina, um bigode que voava e que o Álvaro Magalhães fixou no retrato — de palavras — que fez do Menino Manuel (António Pina).

E mais? Mais a música e todo o trabalho de Bruno Humberto, que dá voz, som, ao Jorge. Mais as máquinas inventadas pelo pai do Jorge. Mais os miúdos sentados em almofadas à nossa frente. Mais o termos ali mesmo, ao lado, o João. Esperem, isso já eu disse, mas isso é coisa muito valiosa. Não duvidem. Corram a comprar bilhete. E sorriam, que vos estão a tirar o retrato. PIM!