terça-feira, 17 de junho de 2014

Gosto tanto de ti que, se soubesses, abusavas.

Eu hoje não acordei assim.



Mas por volta das 9 da manhã estava assim.

Assim, como a foto toscamente ilustra e para o que aqui importa, equivale a ter no braço marcados oito dos dez dentes do M.. 

O meu filho é um anjo. É lindo de morrer. Tem um sorriso incrível. Até quando está de trombas e nos faz imaginar ainda mais intensamente o seu sorriso. Está quase todo o tempo feliz, na sua "alegre inconsciência", qual ceifeira que "canta como se tivesse/ Mais razões pra cantar que a vida". Com a sua interminável energia, canta, sim, e dança, corre, sobe as escadas e vai atirando beijos e chamando por nós e nomeando as suas coisas preferidas: "papá, mamã, vó, vô, tita, pavão, cão, gato, popó, mina mamã, pai, mãe, pai, mãe, pai, mãe, mina mamã...".  Antes de isto tudo acontecer, excepto a parte do ser lindo porque é-o desde o primeiro minuto, "que bebé tão bonito, que giro, é mesmo giro" foram as primeiras palavras da minha obstetra assim que o tirou de dentro de mim, antes disto tudo acontecer, foi um recém-nascido perfeito: com um mês e meio, começou a dormir toda a noite, 8, 10, 12 horas, sempre comeu bem, nunca adoeceu (só depois de ter feito 1 ano), se chorava era por estar realmente qualquer coisa errada, qualquer coisa a causar-lhe desconforto, não fazia birras, deixou a chupeta por iniciativa própria...




Agora, o meu anjo morde. E dá estalos valentes na cara das pessoas. E nas pernas. Até nas pernas dos móveis. Mesas de jantar, mesas de apoio, cadeiras, sofás, camas, nada escapa à sua mão pesada. Eu e o P. somos aprendizes na arte de lidar com este pequeno mestre da manipulação, este pequeno mestre, gigante na sua inconsciente sabedoria, um minúsculo mestre que não conheceu a minha Avó M.O. e que, no entanto, cumpre rigorosamente o que ela nos repetia (recorda-me neste momento a minha irmã por sms, enviando-me as palavras da nossa Avó, fazendo suas as palavras dela para mas dar a mim), enquanto nos coçava as costas com as suas unhas compridas, arredondadas nas pontas, pintadas com verniz rosa pálido nacarado: "Gosto tanto de ti que, se soubesses, abusavas".


A minha Avó M.O. com 8 anos.
Benguela, 1924.

Eu gosto tanto do M. que ele sabe e abusa. O meu amor por ele é uma enorme coisa, uma coisa mesmo, com densidade corporal, um corpo mesmo, que às vezes se mete entre nós de tão descaradamente visível, palpável. O M. finta esse corpo e chega então ao meu, muito mais pequeno e vulnerável. Hoje de manhã foi para o marcar com os dentes. Não lhe apetecia mudar a fralda, uma fralda que já rastejava pelo chão de tão cheia, parecia uma cauda redonda e branca, uma espécie de animal de estimação que o seguia para todo o lado. Há uma semana, outra mordidela deixou-me com uma nódoa negra e um pequeno inchaço durante dias. E eu pergunto-me, pergunto ao P.: "Ele quer realmente magoar-nos?". Tentamos tudo: "Nós não mordemos, damos beijinhos" e beijamos-lhe a cara, os braços; "Nós não batemos, damos festinhas" e passamos-lhe as mãos pela cara, os braços... Tentamos também cantar, dançar, distraí-lo, mostrar-lhe um livro, um carrinho, ir à rua passear, em suma, ajudá-lo a libertar os demónios. Deixamos que, com os nossos, seja o zodíaco lidar, espalhando pela família que "ele é escorpião com ascendente em touro, os dois signos mais teimosos do zodíaco." Está explicado. Podemos dormir melhor. Nem por isso. Os estalos regressam. E as mordidelas. "Ele quer realmente magoar-nos?", de novo. E experimentamos pô-lo de castigo. Parece-nos que não percebe a punição. Vamos buscá-lo ao castigo. E levamos outro estalo. "Manel, ai, ai, não se faz isso. Isso faz dói-dói à mamã, ao papá. Não, não, não, não, não." Ele ri-se, repete "ai, ai, ai", não liga nenhuma ao discurso e vai à vida dele, a cantar na sua "alegre inconsciência".

Hoje de manhã, eu fiquei furiosa, berrei porque me doeu, mas ignorei. Mudei-lhe a fralda, numa espécie de luta entre mim, o M. e o gigantesco corpo que é o meu amor por ele e que por ali andava, meio zonzo, aos trambolhões. O M. seguiu com o P. para a creche e eu sentei-me à frente do computador a trabalhar. Recebi um boletim da Dodot. Anunciava-me que o M. já tem 19 meses. Sim, eu sei. Os boletins da Dodot e do Baby Center são uma espécie de Deus: aliam factos e sabedoria. E auxiliam-nos nos momentos de desespero, como se ouvissem de facto as nossas preces. No fundo, sem pedir nada em troca, a não ser que lhes continuemos fiéis, oferecem-nos palavras e sábios conselhos, alguns em código, tal e qual como numa homilia, tentando assim fornecer-nos semanalmente os instrumentos que nos vão permitir manter viva a esperança de um dia nos tornarmos melhores pessoas. Comunicava-me, então, a Dodot esta manhã: "O seu bebé já tem 19 meses". E acrescentava, prometendo: "Tem um bebé com temperamento difícil? Pouco a pouco, conseguirá acalmá-lo." Foi alívio, senhores, o que senti. Puro alívio. E segui para a secção de auto-ajuda, "Como ajudar os bebés agressivos?", um pouco contrariada e chocada com o adjectivo usado, "agressivo? o meu anjo é agressivo? então mas não é apenas um caso de temperamento difícil, temperamento difícil e superável? agressivo, o meu anjo?".




Eis então as respostas. Que eu já tinha lido nos manuais, que eu já tinha ouvido ao pediatra e às educadoras, que eu intuitivamente já sabia, mas que precisava de ouvir esta manhã:

"Não se surpreendam se, de repente, o vosso amistoso bebé começar a bater nas pessoas. Muitas crianças desta idade começam a comunicar os seus sentimentos sob a forma física."

O meu amistoso bebé. O meu amistoso bebé daqui a pouco regressa da creche. Vai dar-me um abraço e um beijo quando me vir chegar ao jardim do colégio. Depois, vai começar a exigir pão. Passaremos pela padaria. Se não houver o pão integral que lhe dou, vai gritar "pão! pão! pão!". Vou dar-lhe uma bolacha. E se calhar vou receber uma chapada, um valente estalo, como quem atira de modo abrutalhado: "Mas foi isso que eu pedi?!" 

Tentarei a via dos patos, do triciclo. Há-de esquecer a bolacha. E eu o estalo. De qualquer forma, vou deixar a casa pronta para o receber com livros. Fica sempre muito intrigado quando lhe mostro um livro novo. Hoje, recebi dois e, no momento em que abri os envelopes que o carteiro me passou para a mão, logo, logo aí, esqueci a mordidela matinal, ansiosa que fiquei por partilhá-los com o meu amistoso bebé. Ainda por cima, o meu amistoso bebé adora dizer "nariz". E um dos livros é uma adaptação do genial O Nariz, de Gogol. O texto é, pois, uma obra-prima, daquelas coisas que "digam o que disserem, (...) acontecem - raramente, admito, mas acontecem..." E as ilustrações, de Evelina Oliveira, relacionam-se com o texto como o nariz do major Kovalyov se relacionou com o seu rosto quando a ele voltou, instalando-se intacto no sítio devido depois de se ter andado a passear.


O Nariz, de Nikolai Gogol,
il. de Evelina Oliveira, ed. Barca do Inferno.



O outro livro que me enviaram, Desencontros, de Jimmy Liao, não sendo ainda para a idade do M., vai deixá-lo muito feliz. Basta olhar para a capa: duas bicicletas. 

Desencontros, de Jimmy Liao,
ed. Kalandraka.

Lá dentro, há imensas coisas para descobrir. Por exemplo, dias de céu limpo em que ela e ele, ao saírem de casa, viram para lados opostos. 



Não li ainda o livro todo, mas o facto de abrir com uma citação de Wislawa Szymborska dá-me uma vontade imediata de abraçar o livro e fugir algures para um dia de Novembro em que "À meia.noite, a fria luz da Lua atinge de azul um canto da varanda.":




Estão ambos convencidos
de que uma súbita paixão os uniu.
É bela essa certeza mas a incerteza
é ainda mais bela.

Eis-me de novo com a minha Avó: "Gosto tanto de ti que, se soubesses, abusavas." Se soubesses. A incerteza. Tão bela. 

Belos são também aqueles que sabiamente desconfiam dela. Como esta menina, apanhada por Brandon, responsável pelo incrível e inesgotável Humans of New York.

Imagem retirada daqui.
"Do you know what you want to be when you grow up?"
"A person."

Desconfio de que o M., se falasse, se soubesse, responderia assim. PIM!

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O fim das primeiras férias deste Verão.

Em 7 dias, passei de "mamã" a "mãe". Ou melhor, para

"maaaaaaaaaaaããããeeeeeeee",
"maaaaaaaaaaaããããeeeeeeee", 
"maaaaaaaaaaaããããeeeeeeee". 

Uma mãe prolongada, que se deseja repetir. Como as nossas primeiras férias deste Verão.

Não sei se foi por o M. ter descoberto que, afinal, nada se esconde dentro das conchas e, por isso, tudo pode lá caber.




Ou se foi por se ter tornado, com o consentimento - e a protecção - da
"maaaaaaaaaaaããããeeeeeeee", 
"maaaaaaaaaaaããããeeeeeeee", 
"maaaaaaaaaaaããããeeeeeeee", 
leitor da Anne Sexton 
("Ó mãe,/ depois deste colo de infância/ nunca irei avançar/ para o mundo das pessoas grandes/ como um estranho/ uma invenção (...)").



Chapéu Many Months na Organii Bebé. T-shirt Led Zeppelin H&M.
Calções de banho Bonpoint. Toalha de praia Bimba Y Lola.


Provavelmente uma coisa (as conchas cheias de tão vazias) não é muito diferente da outra (os poemas da Anne Sexton). PIM!


Anne Sexton - Versões de Maria Sousa, ed. do lado esquerdo.
Outros poemas de Anne Sexton, traduzidos por Jorge Sousa Braga, aqui.
Clutch com palmeiras More Is Better (aqui).

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Algarve 2014. Dias 2, 3 e 4.

Temos acesso lento e arcaico à Internet. O que me recorda uma crónica do Nuno Costa Santos sobre o direito ao silêncio. Acrescentaria o direito de nos esquecermos. E o direito de nos dedicarmos a inutilidades. Coisas que só me aconteciam quando tinha mais ou menos o tamanho do M. e uma total indiferença ao tempo, à sua passagem. Ser mãe equivale a viver uma segunda infância, a tal segunda e mais perigosa inocência nietzschiana sobre a qual tanto falava o Manuel António Pina. Por causa do M., o iPad não teve ainda licença para sair da gaveta; o telefone fica desligado e esquecido no meio da relva; e eu tenho desculpa para tudo e todos - até para mim mesma. 

Eis as coisas inúteis a que nos temos vindo a dedicar nos últimos dias. Algumas são pequenos milagres dos quais nos esqueceremos em breve.

Como estas cerejas, compradas no supermercado O Corvo, em Castro Marim, onde se encontra fruta portuguesa - maravilhosa.



Somos cinco, como as cerejas, e ontem comemos dois quilos delas. O M. já sabe dizer "cereja". Ficou viciado. De tal forma que hoje, na praia, se agarrou ao meu colar, anunciou "cerejas!" e trincou-o. Um caso sério, libertar-me...



Também já sabe dizer "areia" e "passadeira". Na verdade, repete tudo o que nós dizemos. E faz tudo o que fazemos. (O que nem sempre é recomendável.) 




Escolher os calções de praia é outro dos novos passatempos do M.. Gosta dos que têm tubarões.

Calções GAP, comprados em Paris.

Calções Knot. Almofada Caia. Toalha Bimba Y Lola.

No entanto, nem todos os dias têm sido de Verão. Terça-feira, andámos de camisola. E visitámos o Faísca e o Mate em Tavira.

Camisola Ralph Lauren.




Cá em casa, o Faísca chama-se "Iscas". Com elas e com eles. PIM!

domingo, 8 de junho de 2014

Algarve 2014. Dia 1.

Morreu uma árvore durante o Inverno. O M. não chegou a nomeá-la. Disse-lhe: sombra.


Há novos frutos. Frutos por comer, à nossa espera. O M. conhece agora o lugar das pêras, dos figos, dos pêssegos.





O M. descobriu também que os melhores frutos dificilmente se alcançam. Há que trocá-los por arranhões, fazer algumas feridas na pele. 



Hoje, no entanto, ninguém chorou. PIM!

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Jogos matinais.

Gosto de jogos. De jogar. Jogos de tabuleiro, jogos de futebol, jogos de cartas, jogos de amor, jogos de palavras. Jogos. 

Jogos de tabuleiro no quarto dos brinquedos.


Jogos de palavras numa parede de Lisboa.

Contam-se, na minha família, histórias de tetravós e trisavós viciados no jogo. Um deles, em tempos imemoriais, chegou a pagar uma dívida de jogo com a pedra de armas da família. Ficou na penúria. A minha avó contou-me tantas vezes esta história que se foi esbatendo em mim a vontade de jogar. De jogar para ganhar. Porque nunca gostei de perder. E passei a infância a alimentar vitórias. Melhor: passei a infância a assistir ao meu avô a alimentar as minhas vitórias. A criá-las. Era imensamente batoteiro - para me beneficiar. E eu lá ia ganhando crapôs atrás de crapôs. Um dia pedi-lhe para jogarmos a sério, para não me deixar ganhar. E ganhei. Gostei tanto que achei melhor começar a jogar menos. Ou a fingir que me podia tornar uma jogadora distraída, desligada, blasé. Verdade seja dita que, depois da morte do meu avô, o jogo - como a vida - passou a ter menos interesse. Até chegarem as crianças.  

A mais nova das crianças da família, o M., gosta de jogar. E de ganhar. Marca golos e fica à espera do aplauso. Não desperdiça uma oportunidade para sair vitorioso de qualquer situação. Não sei se acho muita graça a isto. Logo se verá. 

Hoje, por exemplo, venceu-me. Todas as manhãs, enquanto tomamos o pequeno-almoço, pede para ir para a varanda. Eu não deixo porque está vento ou chuva ou sol. E ele ainda está de pijama, não dá, não pode ser, espera uns minutos. Hoje venceu-me: descobriu como abrir a porta e, quando dei conta, estava a correr na varanda. A varanda, debaixo de chuva e de vento; ele, debaixo de chuva e de vento.

Trouxe-o para dentro. Berrou e espirrou que se fartou. Resolvi pôr uma música do Peter Broderick que tinha recuperado há dias (não ouvia Peter Broderick há longos meses...) por causa de um post que o Ricardo Mariano tinha partilhado no Facebook: Games again. O M. pôs-se a praticar a sua dança-pêndulo, já aqui descrita. Acalmou-se. Mal sabia ele que ainda estávamos em jogo: "We're playing card games/ Till some dawn/ We're playing heart games/ Please, please, please, please play along."

Hoje à noite, noutras partidas, citarei esta canção. Vou apresentar o livro Todas as cartas de amor, do Paulo José Miranda. Tem desenhos da Mariana a Miserável e é editado pela Abysmo. A festa desta noite não será para crianças. Mas será sobre o amor (e sobre a ausência). E será feita com amor. Direi, às tantas, que, apesar de não haver nada que lhe seja comparável, se não se for cauteloso, o amor de mãe pode ser aniquilador - esse amor que marca peles com tinta desde tempos imemoriais. Mesmo em quem recusa expressamente a tatuagem. PIM!



quinta-feira, 5 de junho de 2014

O pirata.

Podia adoptar a pose da criatura indiferente, para quem o "é a vida, o que é que se há-de fazer" serve para tudo, até para viver, mas confesso que me custa que os meus sobrinhos, quase todos, parece-me, tenham mais afinidades com números do que com letras. Uma letra é uma coisa ("as palavras são coisas", defendia o Manuel António Pina) infinita. Muito mais do que um número. Falo com o coração, como é óbvio; a razão interessa-me menos. Como os números, aliás. Os números assinalam os dias, ajudam-nos a compreender e aceitar que o tempo passa, dão-nos quantidades. Atenção: eu gosto de matemática e de "desmatemática", para regressar ao M. A. Pina; gosto de equações e de problemas. Que não se ofendam os matemáticos com as minhas singelas declarações. Porém, as minhas medidas são as da qualidade e ofereço resistência à passagem do tempo. A concepção da temporalidade que me importa assume a forma de um círculo e não de uma linha. Por isso, aquilo de que gosto mesmo é de histórias que não têm princípio, meio e sobretudo fim. Por isso, aquilo que me fascina é o momento - fora do tempo - em que me escapa a solução. Por isso, aquilo de que gosto é de poesia. O que é o mesmo que afirmar que gosto de possibilidades. E de livros que não se encerram, nem nos encerram. Gosto de livros assim:





Já aqui falei do belíssimo Hoje Sinto-me..., de Madalena Moniz, editado pela Orfeu Negro. Chamei-lhe um abecedário de coisas, sentimentos e sentidos. Nele, parte-se das letras do abecedário para se chegar a uma palavra para se chegar a um desenho. Mas nem a palavra nem os desenhos se apresentam como destinos, como finalidades, como soluções. São novos pontos de partida - belíssimos, comoventes, emocionantes - para construirmos mais: significados, histórias... Estamos no território instável do infinito - e os únicos limites que enfrentamos são os da nossa própria linguagem, os da nossa própria imaginação e os dos nossos próprios sonhos.

Esta "lição" aprendi-a (e continuo a aprendê-la) com quem nunca ma quis dar. Com quem nunca apreciou realmente uma "lição" e, no entanto, sempre foi mestre. Dou alguns exemplos: o Álvaro Magalhães, o João Paulo Cotrim, o Pina, que passou a tarde de ontem comigo e com o meu sobrinho F..

O F. tem que apresentar um trabalho sobre Os Piratas, livro de 1986. Protagonizado por um rapaz de 8 anos, o Manuel, conta uma história em que a realidade se confunde com o sonho, o passado com o presente, o eu com o outro. Nada é definitivo e nada se pode afirmar com absoluta certeza. Uma autêntica aventura piniana, com possibilidades infinitas de leitura.

A mais recente edição d'Os Piratas (Asa), já esgotada, nas mãos do F.

Passei a tarde entusiasmada a partilhar a biografia, a bibliografia, as histórias do Pina com o F.. E os temas da obra, as obsessões, os modos de contar, etc, etc... O F. insistia: "Mas não estou a perceber bem o que aconteceu no fim.". E eu repetia: "Isso não interessa." E ele defendia-se: "Interessa, sim! Vou ter que convencer os meus amigos a lerem o livro!" 

É o objectivo do trabalho: "convencer". O "objectivo"... Tenho mais medo disso do que do escuro... E tenho uma enorme dificuldade em perceber como conseguem os miúdos (muitos deles) passar horas agarrados à Playstation e ao iPad e não conseguem concentrar-se a ler um livro de aventuras. Talvez porque o jogo tem um "objectivo" - que se cumpre ou que se falha. E mais hipóteses não há. Estamos a ficar formatados para o fim, agora que o ultrapassámos a grande velocidade. Qualquer dia nem a morte tememos.

A minha amiga Filipa Leal costuma dizer que os nossos tempos se caracterizam por uma enorme crise da imaginação. Conseguimos acreditar no absurdo, mas só se o contexto for o do humor (e a Filipa conta, neste momento, a anedota da formiguinha e do elefante no cinema). Ora, esta obsessão pelo riso, pelo humor, tem também a ver com o medo. A frase é de Bataille (e eu recebi-a via Pina): "Ris-te porque tens medo". Temos medo, sim, da ausência de um fim - certo e contabilizável. E eu tenho medo que os meus sobrinhos tenham medo disso mesmo. Gostava que apreciassem as coisas inúteis da vida - como a poesia, a literatura, que é também jogo, mas livre. É, pois, natural que me tenha rido à gargalhada quando o Francisco, ao reler comigo o último capítulo d'Os Piratas (misterioso, intrigante, tão bom e desafiante que me lembrei dos livros da Ana Teresa Pereira, os que escreveu "para" adultos, claro), se saiu com esta: "Tia, tens a certeza de que não há um Piratas Parte II?!".

Chamei-lhe pirata. Estava a pilhar a minha imaginação. E a minha fé. Estava a impôr-me um fim. PIM!

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Dança até chegares ao fim do dia.

Nos tempos em que mandava eu na minha agenda, costumava ir jantar uma vez por mês com três amigas. Éramos cúmplices na degustação de iguarias japonesas, no cumprimento natural do velho "erguer cedo, mesmo que não te tenhas deitado cedo, dá pouca saúde, mas pode fazer uma ideia crescer" e na invenção de "projectos", textos e trabalhinhos afins. Num desses jantares, bebemos saké (em vários, é verdade; porém, esse foi o mais eficaz e apreciado saké) e eu inventei aquilo que, entre nós, se passou a designar como "Dead Combo dance". Os Dead Combo são, pela saúde deles, alheios a tais movimentos de corpo, os quais, pela saúde dos leitores deste blogue, são impossíveis de demonstrar com palavras. Garanto-vos que deviam estar agradecidos. A inesquecível "Elaine dance", marco na história de Seinfeld, ao pé da "Dead Combo dance", é coisa de um amadorismo tal que nem devia ser aqui mencionada. Recordemo-la, no entanto:



Uma das amigas que partilhou comigo o momento emocionante em que veio ao mundo a "Dead Combo dance" enviou-me ontem este vídeo, ao qual chamou "Baby Dead Combo":


Dança contemporânea coreografada e dançada por um bebé mais pequeno que o M.. Já experimentámos cá em casa. E, na esteira de qualquer crítico contemporâneo, para não me comprometer assim tanto e manter a distância de segurança, não posso dar mais de três estrelas ao meu filho. A razão? Explora de modo demasiado intenso, quase gratuito, o movimento pêndulo. A coreografia não evolui a partir do momento em que o M. abre as pernas e vai levantando ligeiramente um pé e depois o outro, oscilando o corpo para a esquerda e para a direita. Dez, vinte segundos disto resultariam num instante luminoso e criativo; dez, vinte minutos disto servem apenas para um pai exausto ou uma mãe exausta poderem fazer uma ligeira sesta no sofá, agradecidos, é certo, e no entanto entediados. Três estrelas, caro M.. Toca a trabalhar, a ver filmes que revelam o que andam a fazer os bebés talentosos por esse mundo fora. 

Há que reconhecer, todavia, que o movimento pêndulo proporciona grandes pensamentos e facilita a associação dos mesmos. Enquanto seguia o M. nas suas movimentações pendulares, ocorreu-me não só o tanto que este rapaz tem que aprender até chegar à sofisticação de uma "Dead Combo dance", como também o belíssimo álbum Dançar nas nuvens, de Vanina Starkoff, editado em Portugal pela Kalandraka.




É a história de uma menina que tem um sonho. E que tem também um adulto ao lado, ou seja, a antítese do sonho.



Felizmente, a menina sabe o que é preciso. Para preservar a infância. E os sonhos:


Eu insisto: leiam este livro. Mesmo que depois queiram regressar à realidade.

Surgiu-me ainda outro álbum nos meus pensamentos, enquanto imitava o bebé-pêndulo: Dança quando chegares ao fim, de Richard Zimler e Bernardo Carvalho, uma edição da Caminho. Procurei-o nas estantes. Também o temos cá em casa. Sei que o temos cá em casa. Não o encontrei. Não o encontro (podem espreitá-lo aqui). Às vezes os livros insistem em mudar de estante, de casa. Por alguma misteriosa razão, costumo encontrá-los, passados meses, na fina ranhura que resolveram deixar vazia por uns dias. Provavelmente, o nosso exemplar do Dança quando chegares ao fim achou por bem afastar-se do ainda rudimentar movimento pendular. Está apenas a ser coerente, pois é livro que partilha este conselho:


 Sendo certo que também recomenda isto:


O que significa que me juntarei sempre ao movimento pendular do M.. Ou às criações da Marta Bernardes, que está hoje na Gulbenkian a dar corpo e movimento a sons e palavras com as suas - suas e do José Valente - Fabulosas fábulas da terra de nenhures. Eis o que me contou a Marta sobre esta sua nova aventura pelo desconhecido:

"Fabulosas Fábulas em Terra de Nenhures" é um pequeno momento teatral que mistura a criação de vídeo-animação em tempo real, a partir da manipulação de objectos, com música e sonoplastia criada ao vivo.
A partir de três histórias criadas pelas crianças, é construído um mundo delirante e de enorme plasticidade, de possibilidade insonhada e divertimento: histórias de amizade entre objectos, amores entre criaturas incompatíveis, números extraordinários de circo, encontros na floresta com seres imaginários. Um festim de brincadeira, que é coisa muito séria.

Imagem retirada do FB da Marta.


Reparem bem: "A partir de três histórias criadas pelas crianças, (...) um festim de brincadeira, que é uma coisa muito séria". Hoje, na Gulbenkian. Já começou, aliás. Há sessões ao longo de todo o dia. Façam-se à estrada. A correr. Ou a dançar. PIM!