sexta-feira, 25 de abril de 2014

A liberdade - um tesouro debaixo do braço.

Cá em casa temos o salutar costume de celebrar todos os dias a liberdade. Se se considerar que a liberdade é, entre outras coisas, a possibilidade de escolha, como disse ontem o Helder Macedo na Casa Fernando Pessoa, na sessão d'Os Espaços em Volta dedicada a Abril.

Eu não sei definir a liberdade. Até porque eu nasci em 1979, em liberdade. Terei aprendido a compreender a liberdade com histórias - para mim, quase ficções - de momentos em que as pessoas não viviam em liberdade; histórias ouvidas ao meu Avô, por exemplo, que passou um mês numa solitária depois de ter sido denunciado à PIDE. Parece que alguém contou umas mentiras sobre ele, mentiras que provavelmente até podiam e deviam ser verdade - porque o meu Avô era um homem livre e justo, coisas então pouco toleradas.

Aprendi também com outras histórias, lidas nos livros. Como disse, nasci em 1979, numa casa cheia de livros, e deixaram-me escolher os que queria ler. Pude ler tudo o que quis, pude tirar das estantes aqueles livros que os meus avós, antes do 25 de Abril, tinham escondidos atrás delas.



Compreendi, então, a liberdade lendo a Mafalda, do Quino, o José Cardoso Pires, o Abelaira, o O'Neill, o Assis Pacheco, para citar alguns nomes. Ou, já adulta (supostamente adulta), um livro do Manuel António Pina, um livro fundamental, como são para mim todos os do Pina. Chama-se O tesouro



Tenho estas três edições do livro: a primeira, publicada em 1994 pela Associação 25 de Abril e a APRIL; outra, de 2005, uma edição da Campo das Letras comemorativa do 31º aniversário do 25 de Abril, com ilustrações de Evelina Oliveira; e ainda uma terceira, da Assírio & Alvim, a minha preferida, de 2013, com belíssimos desenhos do Pedro Proença (podem espreitar parte do livro aqui).



Ilustração de Pedro Proença para O tesouro, de Manuel António Pina 
(ed. Assírio & Alvim)


Foi neste livro que João Botelho se inspirou para filmar a curta Se a memória existe, que passou por Veneza, em 1999. E foi também a partir deste livro que o encenador João Luiz criou a peça homónima que a companhia Pé de Vento apresenta este fim-de-semana no portuense Teatro da Vilarinha. A interpretação é do excelente Rui Spranger, que tanto tem trabalhado os textos do Pina.

Costumo andar com O tesouro debaixo do braço. Que é como quem diz: dentro da memória. Assim tenho sempre resposta quando me perguntam o que é a liberdade. A um país sem liberdade chama-se, neste livro, o país das pessoas tristes. É um país onde as pessoas se isolam, não comunicam. Sufocam cheias de aflição. E quase tudo lhes é proibido - até beber coca cola. 

É evidente que, mesmo com O tesouro debaixo do braço, continuo a aprender a liberdade todos os dias. Aprendo-a com os meus amigos e com a minha família, com o meu filho - haverá lugar mais livre do que a infância? -, e com mais leituras. É importante ler ou reler hoje poetas como os do grupo do Café Gelo: o Manuel de Castro e o seu Paralelo W. ("Há um país fatal, uma zona de aventura, um segredo..."), o Helder Macedo, o Herberto Helder, o José Manuel Simões, que em breve será lido, quando a Abysmo publicar as suas Sobras Completas

Podíamos começar por ler, como introdução à liberdade - que contém nela a coragem - e a estes poetas, um texto do Helder Macedo. Chama-se O Drummond Português e revela como Drummond de Andrade foi fundamental para uma geração de escritores portugueses - também pelas suas lições de liberdade (em todos os sentidos). O Helder define os do Gelo "como um grupo heterogéneo de jovens poetas e de jovens pintores que tinham em comum uma atitude de recusa". Ora, volta a ser muito importante hoje aprender a recusar, aprender a ter - lucidamente - uma atitude de recusa. E encaremos este lucidamente em termos poéticos para não deixarmos os loucos de fora. 

Por causa desses jovens poetas do café Gelo, tenho pensado muito no que é viver em liberdade - ou fora dela. E tenho olhado para o que escrevo com esses óculos. Costuma-se dizer que o amor e a morte são os principais temas de toda a literatura. E eu acrescento, no meu caso, a liberdade. No meu livro mais recente, A habitação de Jonas, existem vários espaços fechados e existem zonas em que a comunicação falha, zonas em que se procura uma linguagem. A impossibilidade de escolha, o estar fechado, são imagens recorrentes. E por vezes, nesse livro, só a recusa permite avançar, seguir em frente - encontrar o outro. Ser livre, em suma.

Volto ao livro do Pina, O tesouro. Diz-se lá, quase no fim: "Tudo isto aconteceu há muito tempo (ainda tu não tinhas nascido), num país muito distante." Eu entretanto nasci, em 1979, como já referi. Aprendi com esta gente toda e com a minha família a viver em liberdade, a ler, a respirar fundo, a pronunciar as palavras em voz alta e, acima de tudo, a respeitar os outros. A liberdade é talvez isso: poder apreciar não apenas o respeito que os outros têm por nós, como poder apreciar, poder gostar de respeitar os outros.

E poder sair à rua com os amigos. Que é o que vou fazer hoje. Sairei ao fim da tarde para a galeria Abysmo, onde gosto de ir passear com o M. (galeria "baby friendly"!) e onde, às 18h, vão ser inauguradas duas exposições que partem de livros de autores/editores que muito prezam a liberdade. 




O M., muito espantado a olhar para a colecção do Jorge Silva (exposição "Salão Silva"), 
na galeria Abysmo. 


Num desses livros (um livro-objecto maravilhoso das edições eterogémeas, essas mesmas, do incansável Gémeo Luís, que tanto dedica à infância), tenho um poema publicado, "O caçador". 





É que é também sobre a liberdade, isso de aprender a coincidir com o pássaro, isso de aprender a conhecer o bicho.


Por ter receio de não ser amado,
o caçador andava sempre armado.
Caminhava:
a espingarda ao ombro,
a faca entre os dentes.
A caneta, levava-a presa na orelha
por ter receio de avistar um bicho
sem ter tempo de lhe anotar o nome,
de educadamente o saudar antes de disparar.

Por ter tanto e tão intenso receio,
o caçador ignorava ser da sua natureza disparar primeiro.
Ele, que ignorava até que existiam bichos.
Nunca os vira. Nem aos pares.

Andava, então, armado
por ter receio do desconhecido - e perdia-se
no mato como na imaginação. Cismava
em criaturas tremendas e até no próprio mato.
Porque ele era um caçador da cidade:
se via um arranha-céus, chamava-lhe girafa. Desenhava
um bicho,
o pescoço longo,
as pernas compridas,
e a imaginação do caçador ficava habitada por girafas.
Se via um camião, chamava-lhe rinoceronte. Desenhava
um bicho,
as narinas largas,
o chifre destemido,
e a imaginação do caçador ficava habitada por rinocerontes.

O caçador passava os dias nisto. Acreditava que mais não sabia
do que observar e imaginar, desenhar e passear:
a espingarda ao ombro,
a faca entre os dentes,
a caneta presa na orelha.

Por ter receio do esquecimento do mundo,
era com palavras que resolvia o assunto da criação.
Era tanto e tão intenso o seu receio, maior ainda
do que a girafa e o rinoceronte, que o caçador ignorava ser
da sua natureza o assunto da morte.
Ele, que não carregava na espingarda balas,
mas dúvidas.
Por isso, ele caçava
com gato, cão e leão,
com impala e búfalo,
com palanca e outros bichos
que escolhiam a imaginação do caçador
para nunca se extinguirem.

De todos, o maior receio do caçador era o de não ser eterno.
Por isso, repetia-se:
repetia os desenhos e as palavras,
repetia os traços e os nomes dos bichos.
Repetia-os como a uma oração e pedia
a existência dos bichos.
Porque o caçador, mais do que receoso, era solitário.
A cidade pouca companhia lhe fazia,
a ele, que andava armado,
a ele, que desejava ser alto por dentro como os pássaros
sem saber sequer o que era um pássaro.

Até que um passáro lhe entrou no quarto.
Não era dali o pássaro. Procurava apenas
uma imaginação onde viver.
O caçador não podia adivinhar que aquele pássaro era um pássaro,
apesar de ser igual à palavra pássaro que o caçador tinha na cabeça
e ao desenho pássaro que o caçador tinha no papel.
Apanhou-o. E partiu.
Viajou durante mais de sete dias.
Colheu alimento sobre a pele
de girafas e rinocerontes.
Chegado ao seu destino,
a mais de sete dias da cidade,
a mais de sete dias do receio,
a mais de sete dias da solidão,
o pássaro libertou o caçador.

O caçador viu pela primeira vez um bicho.
Tirou a espingarda do ombro,
a faca dos dentes,
a caneta da orelha.
Sem receio, aprendeu a coincidir com o pássaro,
aprendeu a conhecer o bicho.



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